Próximo sábado, 10 de Março, no Gato Vadio

Imagem de Luís Nobre.

Advertisement

Mais uma livraria a menos

O post intitula-se Papel ao Vento, e foi há pouco publicado por Francisco José Viegas no seu A origem das Espécies. Trata do encerramento da Waterstone’s de Piccadilly Circus e de mais umas tantas da rede, na Irlanda. Há que lê-lo na íntegra e meditar na conclusão:

A culpa é do livro digital? Não apenas. É sobretudo de uma gestão virada para o “capital financeiro”, que acreditava que podia vender livros da mesma forma que venderia produtos de limpeza, e que poderia impingir eternamente subprodutos infames. Como estava escrito há muito, o livro vingar-se-ia dos seus algozes ignorantes – mas, infelizmente, é um mundo que, tal como se anunciava, termina os seus dias deixando um rasto de desemprego, de desolação e de culpa. É assim.

Por nós, permitimo-nos recordar um post de uma ex-directora editorial da Angelus Novus, sobre uma livraria em Madrid que «É só uma livraria»: La Celestina. Essa cuja foto ilustra, e enobrece, este post. Chamem-nos saudosistas ou retrógrados, chamem-nos os nomes todos que quiserem. Como diz Francisco J. Viegas, isto não tem a  ver com tecnologia, o que seria irónico num blog, mas com o «capitalismo financeiro» que transforma livros (ou jogadores de futebol…) em activos, conduzindo à proliferação incontrolada de lixo – em «alta rotação», como se diz no business. A combinação de ganância com iliteracia deu o que deu, lá fora e, em breve, numa livraria perto de si.

No top da «Pó dos Livros»

 

Como se pode ver pelo blogue da Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, Lx), o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, encontra-se de momento em 2º lugar, logo após Lisboa, Cidade Triste e Alegre, a reedição do histórico «photobook» de Victor Palla e Costa Martins.

Aproveitamos para anunciar, sem prejuízo de posterior divulgação do poster da sessão (aliás tão bonito…), que o lançamento lisboeta do livro de Isabela terá lugar na Pó dos Livros no próximo dia 21. O livro será apresentado por Eduardo Pitta, que sobre ele se pronunciou já em termos elogiosos.

A minha livraria preferida: Francisco José Viegas

ateneo1

Francisco José Viegas é ficcionista e cronista, com uma bibliografia já vasta em qualquer desses géneros. Ao seu romance Longe de Manaus (2005) foi atribuído o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Acaba de lançar O Mar em Casablanca, com uma 1ª ed. já esgotada. É neste momento o director editorial da Quetzal e, de novo, director da revista LER, nesta sua nova fase.

Agradecemos a Francisco José Viegas a pronta colaboração no nosso inquérito. Com esta resposta, damos por concluído o nosso inquérito sobre «a minha livraria preferida».

 

P. De todas as livrarias que já frequentou,  qual a sua preferida?

R. A Ateneo, em Buenos Aires.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. É belíssima, instalada no antigo teatro Ateneo (na C. Santa Fe), com aquelas colunas de mármore, os querubins de gesso colorido, os frisos no tecto. Enfim, um certo conforto. E o barzinho, onde servem um ristretto com água mineral. 2) A enorme quantidade de livros acumulados, de todos os géneros, é sempre comovente para quem não vai comprar o mais recente livro de Miguel Sousa Tavares. 3) Fica perto da Academia Nacional del Tango, onde passei fins de tarde muito bons, a escutar tangos e milongas, a beber e a escrever.

ateneo2

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Dois, que comprei lá. O Martín Fierro, de José Hernández, que nunca li até hoje. E A Invenção de Morel, de Bioy Casares.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Podia ser como a Livraria da Travessa de Ipanema (por causa do restaurante no piso superior e das meninas que vêm da praia e passam entre as estantes como borboletas), no Rio de Janeiro; como a velha Ornabi, de São Paulo, que já fechou em 2007, e onde o Sr. Luís, um português maravilhoso, me proibiu de comprar alguns livros porque não se queria desfazer deles (tinha cerca de meio milhão de livros nas estantes); como as dos saldos de Covent Garden, onde se compram os Oxford todos a duas libras; e como a Galileu, em Cascais, que depende dos dias. Ou seja, tem de ter livros.

A minha livraria preferida: Bárbara Bulhosa

livraria da travessa

Bárbara Bulhosa é co-proprietária da editora Tinta da China, que desde a sua aparição recente deixou já uma marca bem nítida no no mercado editorial português, quer pela inteligência como vem construindo um catálogo que demonstra não ser necessário seguir a «via de sentido único» dominante, quer pelo cuidado das suas opções gráficas.

Agradecemos a Bárbara Bulhosa a sua participação no nosso inquérito.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha livraria preferida é a Travessa. Fico dividida entre a Travessa de Ipanema, que é uma livraria de bairro, e a mega Travessa do Shopping Leblon. Provavelmente o facto de estarem ambas no Rio de Janeiro ajuda. Em Portugal, sem dúvida, a minha preferida é a Pó dos Livros. E garanto que não estou a fazer lóbi familiar…

Livraria pó dos livros

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A Pó dos Livros tem três características para mim essenciais numa livraria: uma selecção cuidadosa dos livros, que passa pela existência de fundo editorial, livreiros de excelência e o facto de ser um espaço muito bonito e agradável. Sente-se que quem o planeou e lá trabalha, gosta de livros.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Um livro não. Mas costumo encontrar lá livros de editoras pequeninas que não vejo nas outras livrarias e por vezes são surpresas muito agradáveis.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma Pó dos Livros de 700 m2 no Chiado. O conceito seria o mesmo, mas teria espaço para muito mais livros!

A minha livraria preferida: Vasco Santos

Lahune

Vasco Santos é editor da Fenda há 30 anos. Fundou e dirigiu, em Coimbra, a magazine frenética com o mesmo nome e co-dirigiu, com Júlio Henriques,  a revista PRAVDA.

Editou grandes autores, vestidos por João Bicker, que caíram no esquecimento líquido contemporâneo. A Fenda, porém, continua em frente editando para o lado.

Com Vasco Santos iniciamos a publicação de algumas respostas ao nosso inquérito por pessoas, que muito apreciamos, exteriores à Angelus Novus. Agradecemos ao editor da Fenda a sua pronta colaboração.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A livraria que mais frequentei foi a Atlântida, em Coimbra, que hoje deu lugar a uma casa de malhas. Era um ampola miraculosa de palavras, de coisas mentais. A outra é La Hune, em Paris. Onde já só vou pela imaginação.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Fazendo o trabalho de luto e melancolia da casa encantada da Rua Ferreira Borges; vou já ali a St. Germain. Três razões:

1ª- Na La Hune sou invadido de um súbito desejo de endividamento e graça, de comprar não um livro mas uma estante inteira; a cognição  jubilosa de me sentir acompanhado pela poesia e por editores altíssimos.

2ª- Os livros são elegantes, belos, procuram-nos com discrição sem a tuga gravata berrante dos nossos gestores editoriais (isto é: sem os fundos de capital de risco, oh bela ironia de hoje!)

3ª- É uma livraria pequena mas onde cabem os inumeráveis mundos que me interessam.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Italo Svevo, Ulysse est né à Trieste.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Não existem livrarias ideais. São os bons leitores que fazem os bons livros. Assim tanto me importam a Lello ou a (antiga) Leitura no Porto, a Tropismes em Bruxelas, a Rizzoli em Nova Iorque, a  Ateneo em Buenos Aires (onde nunca fui) ou a Amazon que parece nem sequer existir.

A minha livraria preferida: Rui Bebiano

esperanca1

Rui Bebiano é professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Foi pioneiro na revalorização do estudo da história política do período Barroco, com o seu livro D. João V. Poder e Espectáculo (Estante, 1987), tendo-se dedicado ainda ao estudo da teorização da guerra entre os séculos XVI e XVIII. Colaborador da LER, é também autor do blogue A Terceira Noite. Foi um dos primeiros exploradores das possibilidades comunicativas do ciberespaço, criando publicações como NON! – Cultura e Intervenção (1996-2003), além dos blogues Sous les pavés, la plage!,  A Estrada e Passado/ Presente.

Na Angelus Novus editou Folhas Voláteis (2001), O Poder da Imaginação (2003) e, muito recentemente, Outubro. Coordena também a série de «História Contemporânea» da colecção Biblioteca Mínima, cujos primeiros volumes se encontram em fase de ultimação.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Oscilo entre a Lello de Luanda, na qual um dia me senti paralisado ao olhar para centenas de títulos na «metrópole» eufemisticamente classificados como «fora do mercado», e a incrível Esperança, no Funchal. Escolho a madeirense, que não deixei de frequentar e se mantém pujante nos dois espaços da Rua dos Ferreiros onde arruma perto de 100.000 títulos.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A arquitectura quase labiríntica do espaço mais antigo impondo uma sensação de retiro e de suspensão no tempo, o odor intenso a papel com alguma idade sobrepondo-se pelo volume ao das novidades, a arrumação desarrumada das enormes estantes e dos livros no tecto que convida à exploração sem que o explorador perca completamente o azimute ou dê de caras com pirâmides de livros.

esperanca2

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Foi lá que comprei os dois volumes da edição nacional do Arquipélago de Gulag, de Soljenitisine. Na altura perturbou-me bastante e meteu-me numa crise de consciência da qual não saí intacto.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma que tenha todos os dias títulos novos mas conserve aqueles que nela alguma vez entraram em fundo de catálogo. Seria única.

A minha livraria preferida: Isabela Figueiredo

livraria escriba1

Isabela Figueiredo foi jornalista do Diário de Notícias, tendo sido um dos elementos de coordenação do DN Jovem, e editou um primeiro livro, Conto é como quem diz, em 1988. Dinamizou o blogue O Mundo Perfeito, que substituiu recentemente por Novo Mundo. É professora do Ensino Secundário.

Na Angelus Novus publicará muito em breve Caderno de Memórias Coloniais, um conjunto de textos publicados inicialmente em O Mundo Perfeito, nos quais revisita a sua infância moçambicana.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha livraria preferida é a Escriba, na Cova da Piedade. A livreira é uma pessoa simpática, informada e sem preconceitos. Gosto de falar com ela sobre qualquer assunto, mesmo quando não lhe compro nada. A livraria é pequena, e, portanto, não há ali de tudo, mas a livreira está a par das novidades, e não deixa escapar os bons títulos. Se procuramos uma obra que não tem, disponibiliza-a num curto espaço de tempo. Sobretudo, há sempre muito boa vontade e uma palavra autenticamente agradável.

livraria escriba2

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Nas suas prateleiras encontro livros diferentes, que raramente chegam às grande superfícies. Não cede à literatura fácil, embora também não lhe feche as portas. Considero uma proeza que a Escriba tenha conseguido sobreviver tantos anos na Cova da Piedade, onde as pessoas estão mais preocupadas em receber o subsídio de desemprego. Está ali muita teimosia e muito orgulho. É a livraria do meu bairro, e eu gosto daquele cantinho.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Lembro-me de lá ter comprado O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade. que estava esgotado em todo o lado.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. A minha livraria ideal é a Escriba, mas um pouco maior para lá caberem sofás. É que gosto de me sentar com uma pilha de livros que vou folheando calmamente, enquanto decido quais pretendo adquirir.

A minha livraria preferida: Veronica Stigger

berinjela1

Veronica Stigger é doutorada em História da Arte, matéria que lecciona, a par da sua actividade como ensaísta e crítica. O seu segundo livro, Gran Cabaret Demenzial (2007) foi publicado pela Cosac & Naify, de S. Paulo. Tem contos traduzidos em catalão, espanhol, francês e italiano.

Na Angelus Novus publicou O Trágico e outras Comédias (2003), sua obra de estreia, depois editada pela 7 Letras, do Rio de Janeiro, em 2004.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Eu gosto de várias livrarias, mas a minha preferida é a Berinjela, que fica no subsolo de um edifício comercial bem no centro do Rio de Janeiro.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Há mais de três razões para eu gostar da Berinjela. Para começar, ela é uma livraria pequena, de usados, mas que tem um acervo bem selecionado. Lá, sou sempre bem atendida. O Daniel Chomski, que é dono da livraria, é simpaticíssimo e está sempre por lá, pronto para jogar um pouco de conversa fora. Ele até já virou poema do Aníbal Cristobo, o qual reproduzo no final deste inquérito. Ademais, gosto de ir à Berinjela porque costumo encontrar por lá o Carlito Azevedo. Para mim, o Carlito já é parte inseparável da paisagem do Rio de Janeiro, como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Ir ao Rio e não encontrar o Carlito é quase como ir a Roma e não ver o Papa (embora eu sempre vá a Roma e nunca vejo o Papa, sempre que vou ao Rio vejo o Carlito). E o melhor de tudo eu ainda não falei: o preço dos livros é sempre a metade do que está indicado a lápis na primeira página. Quer coisa melhor que isso?

berinjela2

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Lá comprei, por 10 reais (cerca de 3,5 euros), o quarto tomo de um grande catálogo, esgotado há anos, que foi dedicado a Marcel Duchamp por ocasião de uma retrospectiva de suas obras no Centre Georges Pompidou, em 1977. Este quarto tomo intitula-se Victor e é um romance escrito por Henri-Pierre Roché sobre Duchamp.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Aquela que tem um ótimo acervo e desconto na compra de seus livros.
 
 

Desculpas para Daniel Chomski
 
Desculpe-me, Daniel, por não ter podido
escrever
 
este poema: e nem foi tanto
por andar ocupado, mas sim por que cada vez
que pensava em você, e em sua
 
livraria, e nos amigos ali reunidos, bebendo
suas cervejas e comentando algum livro, comentando
a escalação da seleção brasileira; e todos
coincidindo
 
em que nem aqueles jogadores nem aqueles
escritores
 
eram suficientemente homens, cada vez, veja bem,
que pensava em coisas
como essas
me invadia uma preguiça
sem remédio. Além disso
 
claro que você teria saído ou estaria falando
no telefone, e teria sido impossível para você
ler este poema, e desse
modo
 
só depois de alguns meses, com sorte, eu acabaria
descobrindo por
terceiros que você ficou muito feliz porque Rubens, ou Carlito, ou
Marília
 
comentaram contigo que eu tinha escrito este poema
para você; e que afinal não era um poema
tão ruim. E desse modo
 
os dois evitamos
inconvenientes: você
 
a de que lhe dediquem um poema – algo que, entre os
seus, seria uma imperdoável falta de
masculinidade – e eu
a de escrevê-lo. Em vez disso, mando-
lhe
 
este que tinha guardado, escrito
para minha professora de inglês, quando
eu
 
tinha quinze anos.-

Aníbal Cristobo

A minha livraria preferida: Fernando Matos Oliveira

skoob books

Fernando Matos Oliveira é Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde actualmente dirige a licenciatura em Estudos Artísticos. Doutorou-se com uma tese sobre a poesia portuguesa na transição de Setecentos para Oitocentos. Tem obra significativa sobre teatro (teoria e crítica) e vem-se dedicando nos últimos anos à reflexão sobre a performance.

Na Angelus Novus publicou O Destino da Mimese e a Voz do Palco (1997) e Teatralidades (2003). Foi ainda responsável pela edição de uma Antologia Poética, de António Pedro (1998), e, com Maria Aparecida Ribeiro, pela edição do Teatro, de Francisco Gomes de Amorim (2000). Reuniu ainda, em volume co-editado pela Angelus Novus, Livros Cotovia e o Teatro Nacional de S. João, os Escritos sobre Teatro, de António Pedro (2001).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Tomando o conceito de livraria no seu sentido mais lato, opto pelas estantes de usados à disposição na Skoob Books, em Londres.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. O ambiente acolhedor; um arquivo sempre disponível para leituras inesperadas; o trajecto obrigatório pelo bairro de Bloomsbury.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Perry Anderson, Lineages of the Absolutist State, London, Verso, 1979.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R.  Aquela que se abandona sempre com um livro na mão.

A minha livraria preferida: Ana Bela Almeida

winding-stair

Ana Bela Almeida foi leitora de português em Santa Barbara (EUA), Vigo e Corunha, onde actualmente prepara a sua tese de doutoramento sobre Adília Lopes.

Foi coordenadora editorial da Angelus Novus e traduziu para a editora livros de Augusto Monterroso e Iván de la Nuez.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha mais recente livraria preferida é a Winding Stair, em Dublin.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R.  Acho impossível não se gostar de uma livraria com este nome, “Winding Stair”, tomado da poesia de Yeats. Gosto também da sua localização numa margem do rio Liffey, com todas as bicicletas à porta. As poltronas confortáveis para a leitura e os livros cuidados e difíceis de encontrar, como as antigas edições da Penguin, fazem o resto.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Foi numa das estantes da Winding Stair que fiquei a conhecer, num daqueles acasos que se dão muito nas boas livrarias, uma das minha actuais autoras de culto, a irlandesa Maeve Brennan, com a novela The Visitor.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. A minha livraria ideal teria sempre um cuidado particular com a luminosidade, como é, aliás, o caso da Winding Stair. A luz seria dourada e indirecta, o suficiente para que se possam ler bem os textos, mas filtrada para dar a sensação de que se entra num espaço acolhedor, recolhido, um regresso a casa.

A minha livraria preferida: Rui Manuel Amaral

candelabro_antigo

Rui Manuel Amaral é escritor, publicitário e músico (toca bateria nos The Jills). Foi um dos directores da revista de poesia aguasfurtadas. É um dos dinamizadores do blogue Dias Felizes.

Na Angelus Novus publicou, na colecção Microcosmos, o livro Caravana (2007), uma estreia distinguida pela crítica aquando da sua edição.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Escolho três: duas livrarias e um alfarrabista. A Latina, no início da Rua de Santa Catarina, no Porto. A Poesia Incompleta, na Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa. E o alfarrabista Candelabro, actualmente na Rua de Cedofeita, também no Porto.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A Latina. Porque é, a par da Lello, a única livraria generalista que persiste no Porto fora da órbita das grandes redes. O único local na cidade onde, muito simplesmente e sem surpresas, é possível encontrar o livro que se procura.

Latina_1

A Poesia Incompleta. Porque foi fundada e é gerida pelo Changuito, um livreiro militante, raro e apaixonado, que ama louca e obsessivamente os livros. Para quem não vive em Lisboa, recomendo o serviço de vendas on-line: rápido, eficaz e personalizado.

Livraria_Poesia_Incompleta

O Alfarrabista Candelabro. Porque esteve durante meio século no largo Mompilher, que é um dos mais belos largos do Porto, e porque era o único alfarrabista com sardinheiras nas janelas. Mudou de proprietário há poucos anos e muito recentemente de local. Encontra-se actualmente na Rua de Cedofeita, mas o ambiente é o mesmo. Uma boa secção de literatura estrangeira traduzida, que inclui quase todos os clássicos essenciais, e longas estantes dedicadas à poesia (portuguesa e estrangeira) e ao ensaio literário. Para além, é óbvio, da bibliografia portuense, indispensável em qualquer alfarrabista tripeiro. Os preços são muito acessíveis e todos os livros são revestidos pelo próprio alfarrabista com um finíssimo papel vegetal para conservar a capa.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Latina: Poesia Toda, de Herberto Helder. A edição de 1990. Poesia Incompleta: Tudo e Nada, de Macedonio Fernández (edição brasileira da Imago, 1998). Candelabro: Crime e Castigo, de “Dostoiewski”. Uma edição popular em dois volumes da Editorial Crisos, sem referência de tradutor e sem data (talvez dos anos 50).

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. A “Kafka & Sterne”, na Rua da Bainharia, no Porto. Uma pequena sociedade livreira constituída pelos senhores Franz Kafka e Laurence Sterne. Com o primeiro a servir cafés (nos dias que correm todas as livrarias possuem cafetaria e esta não seria excepção) e o segundo no atendimento geral.

A minha livraria preferida: Carlos Machado

lello

Carlos Machado é professor do Ensinso Secundário, tendo-se doutorado na Universidade de Vigo com uma tese sobre o surrealismo português.

Na Angelus Novus publicou Entre a Utopia e o Apocalipse. Augusto Abelaira e o Fim da História (2003).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Sem dúvida, a livraria Lello & Irmão, no Porto, perto dos Clérigos.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Basta lá entrar para se ficar com a resposta. Em primeiro lugar, pela arquitectura, que nos remete para um outro tempo e um outro espaço, fora de tudo, em que não parecemos deglutidos pela voragem do tempo. Em segundo lugar, pela possibilidade oferecida de saborear os livros acompanhado de um café servido em chávenas à antiga, ainda com açucareiro (a ASAE ainda não terá lá ido?) em cadeiras que parecem convidar a ficar por ali e a aproveitar ao máximo tudo aquilo que surge em redor (dos livros mais antigos aos mais recentes, dos best-sellers mais vulgares às edições mais discretas de livros intemporais). Em terceiro lugar, por se ficar com a sensação que uma livraria é um templo do livro e não um mero negócio onde cai todo o tipo de usurário, a responder “não tenho cá esse artigo” ou a não saber sequer soletrar o nome dos nossos escritores maiores, no momento da pesquisa nos ficheiros (“António Lobo quem?”).

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Curiosamente, só associo a alguns dos livros que acabei por comprar lá na sequência do café tomado. De facto, a estratégia é boa: a gente toma ali o café que eu digo ser o mais caro do mundo – dos livros que se leva para a esplanada interior, metade acompanha-nos até ao piso de baixo, onde está a caixa. Um dos livros que lá comprei foi Metamorfoses do Real de Pedro Barbosa, docente no Porto, onde a livraria existe.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Um misto de “Centésima Página” (pela simpatia e disponibilidade do pessoal), de Braga, “Lello & Irmão” (pela ambiência), do Porto, e “Casa do Libro” (pelo espaço disponibilizado pelos vários pisos e pela quantidade de livros existente), de Vigo.

A minha livraria preferida: Jorge Fernandes da Silveira

Livraria Camoes

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa, e formou alguns dos melhores estudiosos brasileiros da literatura portuguesa. Tem obra vasta, dispersa por revistas de referência  e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986);03); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008).

Na Angelus Novus editou Verso com verso. Estudos de Poesia Portuguesa (2003).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha livraria preferida é a Livraria Camões, no Rio de Janeiro, mais precisamente no centro da cidade, no Largo da Carioca, junto aos principais lugares de cultura da antiga capital do Brasil.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R.  A primeira razão é o “seu” Estrela, seu administrador, representante da Imprensa Nacional-Casa da Moeda no Brasil, um divulgador apaixonado do seu país, Portugal, onde, nos meus primeiros anos de trabalho, professor de literatura portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lá encontrava os livros que procurava e encomendava os de que precisava, e esta é a segunda razão, associada imediatamente à terceira, em que destaco o trabalho de Ana Maria, gerente da livraria: os lançamentos de livros que lá ocorriam com vinho do porto pão de ló.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. O meu Portugal Maio de Poesia 61, publicado pela IN-CM, em 1986, lançado na Camões entre muita gente querida, com a presença de Eduardo Prado Coelho e Luiz Costa Lima. Este, inesquecível professor de teoria da literatura nos meus cursos de Mestrado em Literatura Portuguesa na PUC-Rio; aquele, Eduardo, saudoso amigo, o incomparável leitor de poetas a quem devo a minha formação em poesia portuguesa moderno-contemporânea.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Aquela cada vez mais rara na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em que o livreiro (proprietário e vendedores) soubesse e gostasse de livros e, logo, não os tratasse como mera mercadoria em exibição nas vitrines e bancadas e como objeto de consumo em badaladas noites de autógrafo promovidas pelas grandes editoras.

A mais bela foto de uma livraria

 celestina3

Foi tirada por Ana Bela Almeida, ex-coordenadora editorial da Angelus Novus e autora de traduções para a editora. É de uma livraria em Madrid e saiu primeiramente aqui, com a seguinte (e magnífica) «legenda»:

Ninguém lhe chama “um espaço”. Ninguém lhe chama “um conceito”. Não é multimédia. Não vende café. Não funciona como sala de concertos. Não é um projecto inovador. Não vende pins nem postais. Não é o último grito da vanguarda. Não é uma galeria. Não vende cd’s. É só uma livraria.

A minha livraria preferida: Eduardo Pitta

 vvoice

Eduardo Pitta é poeta, ficcionista e ensaísta. Reuniu a sua poesia, em volume antológico, em 1999, sob o título Marcas de Água. Na ficção, o seu último título é Cidade Proibida (2007). O seu mais recente volume de crítica e ensaio, Metal Fundente, é de 2004. Praticou também a diarística em Os Dias de Veneza (2005). É o responsável pela edição da obra de António Botto, de que saíram já dois volumes. Colabora actualmente no suplemento Ípsilon do Público e anima o blogue Da Literatura.

Na Angelus Novus publicou Persona (2000) e Fractura (2003).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A Village Voice do número 6 da rue Princesse, em Paris, irmã gémea, porém desbragada, da circunspecta Brentano’s da avenue de L’Opera.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Como fica perto da rue Garancière, posso ir a pé a partir do hotel. Tem livros que as outras não têm. Não precisa de empregados porque tem um livreiro.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Love Undetectable (Knopf, 1998) de Andrew Sullivan.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R, Teria de ter estar perto de uma estação de metro. Ter muita luz, como a Almedina Saldanha. Ar condicionado nos dias quentes. Aquecimento desligado nos dias frios. Um livreiro como o Carlos Loureiro da  Pó dos Livros. Interdição de ingresso a menores de 14 anos. Fundos editoriais. Livros importados. Secção de promoções (ao fim de 4 meses de permanência em stock os livros teriam desconto nunca inferior a 20%). Interdição de fumo. Horário alargado: 10/22h todos os dias. Sacos em papel craft, sem alças.

A minha livraria preferida: Luís Mourão

leitura_1

Luís Mourão é Professor na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Tem vasta obra ensaística sobre literatura portuguesa do século XX, com especial atenção ao romance e a Vergílio Ferreira. É o dinamizador do blogue Manchas.

Na Angelus Novus publicou os livros Um Romance de Impoder (1996), Vergílio Ferreira: Excesso, Escassez, Resto (2001) e Sei que já não, e todavia ainda (2003). Foi ainda co-director de Zentralpark. Revista de Teoria & Crítica.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A “antiga” livraria Leitura, no Porto.  Numa altura em que ir à Livraria era a melhor forma de saber o que se ia publicando e ter uma ideia, relativamente a um passado não muito remoto, do cânone em curso. Lembro-me bem da política de expositores, se assim se pode dizer. Havia as novidades. Mas muitas vezes as novidades estavam em estantes reservadas para o efeito. E nos expositores havia uma composição temática, um enfoque particular sobre um autor, etc. Claro que eram outros tempos: publicava-se menos, havia menos leitores (em termos brutos), num certo sentido aquilo era assim a modos que um clube de intelectuais.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A Leitura tinha tudo o que ia saindo, um fundo de catálogo invejável, e uma excelente selecção de livros estrangeiros. Para além disso, todos os funcionários eram simpáticos e, sobretudo, hiper-competentes (às vezes até parecia que já tinham lido os livros que a gente procurava…).

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Não consigo associar nenhum livro a nenhuma livraria em particular. Associo livros a lugares de leitura ou a fases da minha vida, mas não a nenhuma livraria. Será grave?

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma livraria numa rua pedonal (parking perto, em todo o caso), de preferência numa praça onde a gente se possa sentar descansadamente antes ou depois, com amplo espaço de exposição e a garantia de que tudo está lá, desde o mais rafeiro trash à mais invisível edição de autor.

A minha livraria preferida: Manuel Resende

 Livraria Tropismes

Manuel Resende é poeta, tradutor (por vários anos em Bruxelas, na UE; e de autores como Shakespeare, Lewis Carroll, Freud, Keynes, além de Elytis e da lírica grega moderna, de que é grande conhecedor), ensaísta ocasional e agricultor radical.

Para a Angelus Novus traduziu Theodor W. Adorno e Peter Sloterdijk. E publicou o seu terceiro, e mais recente livro de poesia, O Mundo Clamoroso, ainda (2004).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A Livraria Tropismes em Bruxelas.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Tem dois andares e uma sobreloja cheios de livros, muito bem organizados, por temas e géneros; tem empregado/as que nos ajudam a procurar o que queremos, mesmo quando não sabemos bem o que queremos (uma até me arranjou uma bibliografia sobre certo e determinado assunto); tem revistas mais ou menos marginais no balcão.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Les manifestes et documents du mouvement Cobra (em fac-simile).

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Esta.

A minha livraria preferida: Vítor Moura

latina_2

Vítor Moura é Professor no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho. Tem-se dedicado sobretudo à Estética, área em que se doutorou nos EUA, e à Filosofia Política.

Na Angelus Novus publicou A Autonomia dos Mundos. Traços Gestaltistas na Obra de Ludwig Wittgenstein e a peça de teatro SaloméLenineDada.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Continuo a reservar as compras dos livros não especializados para a Livraria Latina, na Rua S. Catarina, no Porto. Gostava que houvesse mais como ela. Infelizmente, o proprietário, Henrique Perdigão, faleceu este Verão, e não sei até que ponto a livraria irá sofrer com isso.

HENRIQ~1

[Foto de Henrique Perdigão publicada no Da Literatura]

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Em primeiro lugar, as funcionárias são muito profissionais e conhecem bem o mercado livreiro. E gostam de livros, o que não é assim tão comum quanto isso. Toda a gente que já procurou um livro nas grandes cadeias sabe do que estou a falar. Só lá compro ficção ou poesia porque as secções de ensaio são rudimentares.

Em segundo lugar, o espaço é quase o epítome da pequena livraria urbana. Como sofreu uma remodelação profunda há alguns anos, tornou-se mais sofisticada mas manteve-se acolhedora. Há algo de tranquilizante em verificar que um espaço destes conseguiu sobreviver, bem no centro do Porto, apesar das ameaças dos últimos anos.

Em terceiro lugar, souberam manter-se competitivos no preço, apesar da proximidade da FNAC de S. Catarina.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Comprei lá todos os livros de Dino Buzzati, uma descoberta recente. Em breve conversa com a funcionária que me vendeu O Deserto dos Tártaros, disse-lhe que o livro devia ser de leitura obrigatória. Passado algum tempo, quando voltei lá, ela disse-me que o tinha lido, e que estava muito agradecida pela recomendação. É muito bom partilhar um interesse.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. É difícil responder porque a Internet transformou radicalmente o conceito de “livraria”. Curiosamente, reservo as livrarias “físicas” para a compra de literatura, poesia ou teatro. Não estou à espera de encontrar nelas o livro ultra-especializado que encomendo pela Internet. Logo, nenhuma livraria poderia ser a “ideal”, se por isso entendermos o local onde podemos encontrar tudo o que procuramos. A falar de livrarias “físicas”, trocaria o termo “ideal” pelo “sensual”, porque as melhores livrarias são espaços que demonstram o valor do livro como objecto físico (eu sou daqueles que gostam de cheirar as folhas dos livros novos). Uma livraria de tamanho médio, nem “cubicular” (porque sabemos que não vamos encontrar nada de surpreendente) nem armazém. Com alguma luz natural, mas não muita, porque os livros não podem estar muito expostos. Com mais livros do que espaço – isso é muito importante. Com organização alfabética por autor – evito as livrarias que perdem tempo a organizar os livros por editora ou por colecção. Mas, sobretudo, com gente que conheça bem os livros, que não precise que lhe soletrem os nomes dos autores, que saibam trabalhar com computadores e com a Internet, e que conheçam os números de telefone das editoras. E, já agora, uma livraria que tivesse uma boa secção (de preferência, na cave…) de livros usados, ou manipulados, ou com defeitos de edição, porque também é bom encontrar uma pechincha de vez em quando.

A minha livraria preferida: Gonçalo Duarte

librairie_portugaise

Gonçalo Duarte é actualmente leitor de Português na Bélgica, mais exactamente nas universidades Livre de Bruxelas e Católica de Lovaina, tendo sido antes leitor em Paris. 

Publicou na Angelus Novus, no final do ano passado, o livro O Trágico em Graciliano Ramos e Carlos de Oliveira. Uma Análise Apoiada pelos Romances São Bernardo e Casa na Duna e prepara para a editora um livro na área do ensino de Português a estrangeiros.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. É a Librairie Portugaise & Brésilienne, em Paris, dedicada às literaturas e às culturas lusófonas.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Escolho esta livraria, em primeiro lugar, por uma razão sentimental: a Librairie Portugaise & Brésilienne constituiu, ao longo dos anos em que vivi na capital francesa, uma ligação com a minha língua e com o meu país (está bem apetrechada e é sempre possível encomendar os títulos em falta). Em segundo lugar, porque é um espaço acolhedor (não obstante seja uma livraria relativamente pequena), num bairro agradável. Por fim, porque o trabalho de edição realizado pelas Éditions Chandeigne me parece merecer atenção: do seu catálogo, disponível no sítio da internet, cabem entre outras a bela colecção Magellane, de livros de viagens dos séculos XV ao XVIII (boa parte dos textos da literatura portuguesa de viagens encontra-se aí traduzida, em edições cuidadas, bem ilustradas e com notas destinadas a um público alargado); uma colecção de livros bilingues ilustrados destinados às crianças luso-descendentes (com histórias de Machado de Assis, Luis Bernardo Honwana ou Aquilino Ribeiro, entre outros, ou a reedição de uma história ilustrada por Vieira da Silva); e pequenas sínteses de grande utilidade para o ensino das literaturas e das culturas lusófonas a estudantes francófonos.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Destaco, na colecção Magellane, a tradução francesa (de Xavier de Castro e Robert Schrimpf) do Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão (1585), de Luís Fróis (Chandeigne, 1993) com prefácio de José Manuel Garcia e cronologia e notas de Robert Schrimpf, que me levou à descoberta deste revelador texto em português. Indico ainda dois livros da mesma editora que me foram muito úteis para o meu trabalho como leitor:  Histoire de l’Afrique Lusophone, de Armelle Enders e Comprendre les langues romanes – méthode d’intercompréhension, de Paul Teyssier.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. A minha livraria ideal seria portuguesa, teria um bom acervo de edições e estaria livre de tralha; já que é ideal, aí se encontrariam edições portuguesas em formato de bolso, a preços razoáveis, e (no caso dos autores estrangeiros) em traduções que não levassem o leitor ao desespero. Já agora, se pode ser mesmo mesmo ideal, teria à disposição dos clientes – ainda que mediante pagamento – cabines isoladas, com vista sobre o rio (Mondego ou Tejo), onde se poderia ler em silêncio, bebendo galões.

A minha livraria preferida: Luís Quintais

bucholz

Luís Quintais é Professor de Antropologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e poeta, com obra das mais significativas da cena literária portuguesa de hoje. Tem vários livros de poesia, e um de ensaio, editados nos Livros Cotovia.

Na Angelus Novus prefaciou Regras para o Parque Humano, de Peter Sloterdijk, e coordena a série de Antropologia da Biblioteca Mínima, que se estreará com o seu livro Cultura e Cognição, a editar até final do ano. [A foto  acima é do Estúdio Mário Novais, 1933-1983, disponível na Galeria da Biblioteca de Arte da FCG]

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Livraria Bucholz em Lisboa. Parece que já não existe. Uma parte da cidade de Lisboa parece que desapareceu. Estão sempre a desaparecer, as cidades.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Aí vão quatro e uma celebração do número três também: 1) Livros em português, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão. 2) Três pisos. Um dedicado à música. 3) Um contexto sedutor-acolhedor. Tinha vidros extensos, montras temáticas, sofás, cantos (onde se podia ler poesia pela tarde fora), amizades revisitadas, lugar de encontro. E era perto da Cinemateca.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Os Cantos de Ezra Pound na edição da Faber.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma livraria com poesia de todo o mundo, em madeira, como a Bucholz. Um lugar sem usura, coisa improvável no mundo em que vivemos.

A minha livraria preferida: Maria Aparecida Ribeiro

padrão

Maria Aparecida Ribeiro é Professora da Faculdade de Letras de Coimbra, na qual ensina Literatura e Cultura Brasileiras. Dirigiu por vários anos na mesma Faculdade o Instituto de Estudos Brasileiros. Foi docente de literatura portuguesa na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, tendo-se doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro com uma tese sobre Gil Vicente. Tem obra vasta, sobretudo na área da história literária dos séculos XIX e XX (mas não apenas) nas literaturas portuguesa e brasileira, e dos contactos entre a literatura portuguesa e a brasileira.

Na Angelus Novus editou Teatro de Francisco Gomes de Amorim (2000, com Fernando Matos Oliveira) e A Carta de Caminha e seus ecos. Estudo e Antologia (2004).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Uma livraria, para ser favorita, tem de manter comigo uma relação afectiva. Por isso, prefiro até hoje, a Livraria Padrão, no Rio de Janeiro, na velha Rua Miguel Couto.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Foi a primeira livraria que conheci, tinha eu meus quatro ou cinco anos. Ainda não se chamava Padrão e era do outro lado da rua. Mudou muito do meu tempo de criança para hoje. Mas lá comprei o meu primeiro livro. E continuo comprando, pois o último sócio vivo, o Alberto Abreu, nos seus 85 anos, é melhor que qualquer computador dos grandes espaços, com livros, Cds e cybercafés. Conhece livros por autor, assunto, editora, cor da capa, enfim, o que você quiser. Os empregados vão pelo mesmo caminho. Além disso, o Alberto e o neto, André, sabem das últimas novidades editoriais, conhecem livros antigos e, quando não têm a obra, arranjam-na em pouco tempo.

albertoabreu

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. O livro que mais associo à Padrão, que sempre vendeu livros estrangeiros (portugueses em particular), é a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes. Não só comprei lá o meu primeiro Saraivão (nome pelo qual a obra era conhecida pelos estudantes universitários brasileiros), como também durante vinte e tantos anos a indiquei a meus alunos da UERJ, que lá a foram encontrar também. Como a Padrão é igualmente editora, haveria outros, principalmente de Linguística, como o do Mattoso Câmara Júnior, do qual fui a revisora.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. A que reunisse todos os livros saídos no mundo e que adivinhasse as nossas necessidades e gostos de leitor.

A minha livraria preferida: Gustavo Rubim

Soho_foyles_bookshop_1

Gustavo Rubim é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem obra vasta sobre literatura portuguesa do período moderno, com especial privilégio para Camilo Pessanha e os poetas maiores do século XX, de Pessoa a Herberto Helder. A poesia, e a sua crítica, ocupam aliás a maior parte do seu trabalho de ensaísta. Vem-se dedicando ultimamente às relações entre Literatura e Antropologia.

Na Angelus Novus publicou o livro Arte de Sublinhar (2003).

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha preferida é a «Foyles», em Charing Cross Road, Londres.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Não custa nada. 1ª razão: o espaço para livros e pessoas, os cinco andares menos constrangedores do mundo, uma filosofia claramente hedonista da leitura; 2ª razão: na enorme montra de Charing Cross, a passos de toda a espécie de consumismos londrinos, estavam em destaque (Setembro de 2009) novas edições de Walter Benjamin, Hayek, Foucault – não os produtos subliterários com que as mercearias de livros portuguesas agridem os olhos da clientela; 3ª razão: o slogan da Foyles: “Books for independent thinkers”.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Vou associar-lhe dois livros do antropólogo Johannes Fabian: Ethnography as Commentary (Duke University Press, 2008), que já estou a ler, e Memory against Culture (também da Duke, 2007), que deixei lá ficar e já estou arrependido. Fabian é um excelente exemplo de pensador independente!

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. O ideal como livraria seria uma mistura da «Foyles» de agora com a «Foyles» de há 12 ou 13 anos, onde era até fácil encontrar (bons) livros já bem longe do estatuto da novidade. Mas não se pode ter tudo, não é?

 

P.P. (Post post): Depois de ler o comentário da Marta (ver abaixo), lembrei-me que me tinha esquecido de referir o horário da Foyles. Vale a pena. De 2ª a sábado: das 9:30h às 21:00h. Aos domingos, das 11:30h às 18:00h. Nos feriados, das 11:00h às 20:00h.

Já agora, dentro do espírito comparativo que usei na segunda resposta, lembro que no site da Foyles os funcionários da livraria assinam uma lista de recomendações (“staff picks”). Uma das “booksellers” (chamada Sarah Myers) recomenda Nine Nights, a tradução para inglês do belo romance de Bernardo Carvalho Nove Noites. A tradução foi publicada no final de 2007 e convém lembrá-lo para não se julgar que a Foyles vive na angústia da novidade sem critério que atacou a esmagadora maioria das livrarias lusitanas (ou multinacionais a operar em território português).

A minha livraria preferida: Inquérito

 livraria

Lançamos hoje um inquérito, de longa duração, aos nossos autores e colaboradores sobre a sua livraria preferida. O inquérito, cuja pertinência não precisamos de justificar, por tão óbvia, constará de 4 perguntas:

1) De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

2) Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

3) Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

4) O que seria para si «a livraria ideal»?

Trata-se pois de propor um roteiro a um tempo afectivo e «cultural» por esses espaços que para nós – editores, autores, ilustradores, designers gráficos, livreiros, enfim (ou seja, antes e depois de todos estes), leitores – tanto significam. E que tanto vêm mudando nas últimas décadas, às vezes para melhor, outras vezes de modo tão erróneo e lamentável.

Finalmente, e isso será também óbvio, trata-se de homenagear livrarias (e livreiros): aquelas que se foram tornando um local de passagem e de frequência habitual, e sem o qual a nossa vida seria mais pobre. Ou que, visitadas uma vez ou outra apenas, integraram para sempre a cartografia das nossas cidades imaginárias.

Venha connosco nesta viagem.

«Capítulos Soltos» abre em Braga

 IMG_2974

Abre hoje em Braga, na Rua de Santo André, 63-65, pelas 17h, a nova livraria Capítulos Soltos. Os nossos clientes de Braga, que até aqui podiam encontrar os livros da Angelus Novus nas livrarias Bracara, Minho, Almedina, FNAC, Bertrand Braga I e Bertrand Braga Parque, têm agora mais um local onde adquirir os nossos livros.

À nova livraria desejamos todo o sucesso e uma vida longa.

Henrique Perdigão, por Sérgio C. Andrade

Hoje, no Público, Sérgio C. Andrade faz uma bela evocação de Henrique Perdigão. Transcrevemos um excerto:

E recordo sempre o optimismo com que, mais do que uma vez, Henrique Perdigão contrariava o queixume habitual dos livreiros e dos comerciantes da Baixa do Porto e dizia, por exemplo, que a chegada da FNAC àquela zona da cidade tinha sido “uma coisa boa”, porque permitia aos leitores e amadores de livros perceber a diferença, a muito poucos metros de distância, entre uma livraria e uma loja de venda de livros ao lado de outros produtos da moda audiovisual.

A ler na íntegra, em memória daquele que era, de facto, «um homem da grande família dos livreiros».

Henrique Perdigão: uma homenagem

 

 logotipodalivrarialatina

 

Chamava-se Henrique Perdigão e era o herdeiro de um nome de livraria que é uma garantia: a Livraria Latina, na Rua de Santa Catarina, no Porto, que renovara magnificamente não há muito.

A Angelus Novus deve-lhe muito: a atenção, o tratamento em pé de igualdade, a noção clara da relevância intrínseca dos livros editados, o respeito pelos prazos de pagamento. Tudo coisas que, dir-se-ia, deveriam ser dados básicos no mercado do livro, mas que infelizmente estão longe (cada vez mais longe) de o ser.

Os jornais informam hoje da morte, aos 51 anos, de Henrique Perdigão. É um dia triste para quem trabalha com livros em Portugal. A Angelus Novus curva-se perante a sua memória e apresenta à família as suas sentidas condolências.