Próximo sábado, 10 de Março, no Gato Vadio

Imagem de Luís Nobre.

Mais uma livraria a menos

O post intitula-se Papel ao Vento, e foi há pouco publicado por Francisco José Viegas no seu A origem das Espécies. Trata do encerramento da Waterstone’s de Piccadilly Circus e de mais umas tantas da rede, na Irlanda. Há que lê-lo na íntegra e meditar na conclusão:

A culpa é do livro digital? Não apenas. É sobretudo de uma gestão virada para o “capital financeiro”, que acreditava que podia vender livros da mesma forma que venderia produtos de limpeza, e que poderia impingir eternamente subprodutos infames. Como estava escrito há muito, o livro vingar-se-ia dos seus algozes ignorantes – mas, infelizmente, é um mundo que, tal como se anunciava, termina os seus dias deixando um rasto de desemprego, de desolação e de culpa. É assim.

Por nós, permitimo-nos recordar um post de uma ex-directora editorial da Angelus Novus, sobre uma livraria em Madrid que «É só uma livraria»: La Celestina. Essa cuja foto ilustra, e enobrece, este post. Chamem-nos saudosistas ou retrógrados, chamem-nos os nomes todos que quiserem. Como diz Francisco J. Viegas, isto não tem a  ver com tecnologia, o que seria irónico num blog, mas com o «capitalismo financeiro» que transforma livros (ou jogadores de futebol…) em activos, conduzindo à proliferação incontrolada de lixo – em «alta rotação», como se diz no business. A combinação de ganância com iliteracia deu o que deu, lá fora e, em breve, numa livraria perto de si.

No top da «Pó dos Livros»

 

Como se pode ver pelo blogue da Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, Lx), o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, encontra-se de momento em 2º lugar, logo após Lisboa, Cidade Triste e Alegre, a reedição do histórico «photobook» de Victor Palla e Costa Martins.

Aproveitamos para anunciar, sem prejuízo de posterior divulgação do poster da sessão (aliás tão bonito…), que o lançamento lisboeta do livro de Isabela terá lugar na Pó dos Livros no próximo dia 21. O livro será apresentado por Eduardo Pitta, que sobre ele se pronunciou já em termos elogiosos.

A minha livraria preferida: Francisco José Viegas

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Francisco José Viegas é ficcionista e cronista, com uma bibliografia já vasta em qualquer desses géneros. Ao seu romance Longe de Manaus (2005) foi atribuído o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Acaba de lançar O Mar em Casablanca, com uma 1ª ed. já esgotada. É neste momento o director editorial da Quetzal e, de novo, director da revista LER, nesta sua nova fase.

Agradecemos a Francisco José Viegas a pronta colaboração no nosso inquérito. Com esta resposta, damos por concluído o nosso inquérito sobre «a minha livraria preferida».

 

P. De todas as livrarias que já frequentou,  qual a sua preferida?

R. A Ateneo, em Buenos Aires.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. É belíssima, instalada no antigo teatro Ateneo (na C. Santa Fe), com aquelas colunas de mármore, os querubins de gesso colorido, os frisos no tecto. Enfim, um certo conforto. E o barzinho, onde servem um ristretto com água mineral. 2) A enorme quantidade de livros acumulados, de todos os géneros, é sempre comovente para quem não vai comprar o mais recente livro de Miguel Sousa Tavares. 3) Fica perto da Academia Nacional del Tango, onde passei fins de tarde muito bons, a escutar tangos e milongas, a beber e a escrever.

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P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Dois, que comprei lá. O Martín Fierro, de José Hernández, que nunca li até hoje. E A Invenção de Morel, de Bioy Casares.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Podia ser como a Livraria da Travessa de Ipanema (por causa do restaurante no piso superior e das meninas que vêm da praia e passam entre as estantes como borboletas), no Rio de Janeiro; como a velha Ornabi, de São Paulo, que já fechou em 2007, e onde o Sr. Luís, um português maravilhoso, me proibiu de comprar alguns livros porque não se queria desfazer deles (tinha cerca de meio milhão de livros nas estantes); como as dos saldos de Covent Garden, onde se compram os Oxford todos a duas libras; e como a Galileu, em Cascais, que depende dos dias. Ou seja, tem de ter livros.

A minha livraria preferida: Bárbara Bulhosa

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Bárbara Bulhosa é co-proprietária da editora Tinta da China, que desde a sua aparição recente deixou já uma marca bem nítida no no mercado editorial português, quer pela inteligência como vem construindo um catálogo que demonstra não ser necessário seguir a «via de sentido único» dominante, quer pelo cuidado das suas opções gráficas.

Agradecemos a Bárbara Bulhosa a sua participação no nosso inquérito.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A minha livraria preferida é a Travessa. Fico dividida entre a Travessa de Ipanema, que é uma livraria de bairro, e a mega Travessa do Shopping Leblon. Provavelmente o facto de estarem ambas no Rio de Janeiro ajuda. Em Portugal, sem dúvida, a minha preferida é a Pó dos Livros. E garanto que não estou a fazer lóbi familiar…

Livraria pó dos livros

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A Pó dos Livros tem três características para mim essenciais numa livraria: uma selecção cuidadosa dos livros, que passa pela existência de fundo editorial, livreiros de excelência e o facto de ser um espaço muito bonito e agradável. Sente-se que quem o planeou e lá trabalha, gosta de livros.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Um livro não. Mas costumo encontrar lá livros de editoras pequeninas que não vejo nas outras livrarias e por vezes são surpresas muito agradáveis.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma Pó dos Livros de 700 m2 no Chiado. O conceito seria o mesmo, mas teria espaço para muito mais livros!

A minha livraria preferida: Vasco Santos

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Vasco Santos é editor da Fenda há 30 anos. Fundou e dirigiu, em Coimbra, a magazine frenética com o mesmo nome e co-dirigiu, com Júlio Henriques,  a revista PRAVDA.

Editou grandes autores, vestidos por João Bicker, que caíram no esquecimento líquido contemporâneo. A Fenda, porém, continua em frente editando para o lado.

Com Vasco Santos iniciamos a publicação de algumas respostas ao nosso inquérito por pessoas, que muito apreciamos, exteriores à Angelus Novus. Agradecemos ao editor da Fenda a sua pronta colaboração.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. A livraria que mais frequentei foi a Atlântida, em Coimbra, que hoje deu lugar a uma casa de malhas. Era um ampola miraculosa de palavras, de coisas mentais. A outra é La Hune, em Paris. Onde já só vou pela imaginação.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. Fazendo o trabalho de luto e melancolia da casa encantada da Rua Ferreira Borges; vou já ali a St. Germain. Três razões:

1ª- Na La Hune sou invadido de um súbito desejo de endividamento e graça, de comprar não um livro mas uma estante inteira; a cognição  jubilosa de me sentir acompanhado pela poesia e por editores altíssimos.

2ª- Os livros são elegantes, belos, procuram-nos com discrição sem a tuga gravata berrante dos nossos gestores editoriais (isto é: sem os fundos de capital de risco, oh bela ironia de hoje!)

3ª- É uma livraria pequena mas onde cabem os inumeráveis mundos que me interessam.

P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Italo Svevo, Ulysse est né à Trieste.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Não existem livrarias ideais. São os bons leitores que fazem os bons livros. Assim tanto me importam a Lello ou a (antiga) Leitura no Porto, a Tropismes em Bruxelas, a Rizzoli em Nova Iorque, a  Ateneo em Buenos Aires (onde nunca fui) ou a Amazon que parece nem sequer existir.

A minha livraria preferida: Rui Bebiano

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Rui Bebiano é professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Foi pioneiro na revalorização do estudo da história política do período Barroco, com o seu livro D. João V. Poder e Espectáculo (Estante, 1987), tendo-se dedicado ainda ao estudo da teorização da guerra entre os séculos XVI e XVIII. Colaborador da LER, é também autor do blogue A Terceira Noite. Foi um dos primeiros exploradores das possibilidades comunicativas do ciberespaço, criando publicações como NON! – Cultura e Intervenção (1996-2003), além dos blogues Sous les pavés, la plage!,  A Estrada e Passado/ Presente.

Na Angelus Novus editou Folhas Voláteis (2001), O Poder da Imaginação (2003) e, muito recentemente, Outubro. Coordena também a série de «História Contemporânea» da colecção Biblioteca Mínima, cujos primeiros volumes se encontram em fase de ultimação.

 

P. De todas as livrarias que já frequentou, qual a sua preferida?

R. Oscilo entre a Lello de Luanda, na qual um dia me senti paralisado ao olhar para centenas de títulos na «metrópole» eufemisticamente classificados como «fora do mercado», e a incrível Esperança, no Funchal. Escolho a madeirense, que não deixei de frequentar e se mantém pujante nos dois espaços da Rua dos Ferreiros onde arruma perto de 100.000 títulos.

P. Pode indicar as 3 razões pelas quais prefere essa livraria?

R. A arquitectura quase labiríntica do espaço mais antigo impondo uma sensação de retiro e de suspensão no tempo, o odor intenso a papel com alguma idade sobrepondo-se pelo volume ao das novidades, a arrumação desarrumada das enormes estantes e dos livros no tecto que convida à exploração sem que o explorador perca completamente o azimute ou dê de caras com pirâmides de livros.

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P. Pode indicar um livro que associe em particular a essa livraria?

R. Foi lá que comprei os dois volumes da edição nacional do Arquipélago de Gulag, de Soljenitisine. Na altura perturbou-me bastante e meteu-me numa crise de consciência da qual não saí intacto.

P. O que seria para si «a livraria ideal»?

R. Uma que tenha todos os dias títulos novos mas conserve aqueles que nela alguma vez entraram em fundo de catálogo. Seria única.