Uma resenha brasileira do «Caderno de Memórias Coloniais»

Chama-se Anita Moraes, a autora da resenha que alarga o espectro do impacto do livro de Isabela Figueiredo. Publicada em Buala, publicação online dedicada à cultura contemporânea africana, é um momento importante da vasta recepção deste livro, marcante entre todos, sobre o retorno de África (tema que entretanto parece ter sido descoberto pelos especialistas em descobrir a pólvora). Transcrevemos um excerto, com a devida vénia:

A escrita do Caderno, recuperando e expondo uma memória (apagada, silenciada) de brutalidade, instaura um lugar não previsto na ordem colonial, a distância crítica (não é à toa que a autora diz estar traindo o pai com a escrita). Se a faculdade da leitura permitiu à menina cavar uma distância com relação à prisão social em que vivia, contribuindo para que resistisse à posição de vítima e algoz que lhe era imposta, a escrita parece consolidar esse afastamento. Trata-se de elaborar, pela narrativa, uma nova posição diante do passado, consolidando uma perspectiva singular (para além dos discursos prontos dos grupos envolvidos na ordem colonial; para além do silêncio e da vergonha paralisantes).

O texto integral pode ser lido aqui.

«Caderno de Memórias Coloniais» por Anita Moraes (USP/FAPESP)

Anita Moraes é uma jovem professora da Universidade São Paulo e, dentro em breve, verá  a sua resenha sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, publicada na revista Via Atlântica, nº17, uma revista da USP. Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Ao escrever sobre o que viveu e testemunhou quando criança, a autora se volta a eventos cruciais da história recente desses países: a situação colonial, que brutalizava o africano e a africana; a guerra colonial ou de independência; o 25 de abril de 1974; o 07 de setembro deste mesmo ano; a situação dos colonos depois da independência e seu retorno massivo a Portugal. As esferas pessoal e coletiva surgem ligadas, tornando-se, esta autobiografia de infância, também uma espécie de heterobiografia (como considerou Antonio Candido acerca de Boitempo e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade). Para que a articulação dessas esferas funcione no livro, destacam-se algumas estratégias de composição: 1) a linguagem crua e por vezes elíptica; 2) a construção de metáforas e metonímias; 3) o recurso a situações emblemáticas; 4) o destaque do corpo; 5) a metalinguagem.

(…) O Caderno de memórias coloniais capta, assim, de maneira aguda, a brutalidade e perversidade desta sociedade extremamente racializada. Ao expor a amplitude da violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, o Caderno serve como antídoto à velha ideologia, que ainda sobrevive de várias formas, do “bom colono (ou da boa colona) português (portuguesa)”.

E com esta vão 5!

Uma resenha do «Caderno de Memórias Coloniais»

«Aquele que é, indiscutivelmente, um dos momentos álgidos do ano 2010 na república das letras de Portugal – a publicação do livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo –, mostra-nos como a grande literatura continua a ser um ‘acontecimento’. De facto, este volume de pequenas dimensões levou todo o ano a fazer diferença, que é como quem diz, a produzir tempo, tanto na vida como na arte literária em língua portuguesa. Não é de somenos importância o facto de ter, na origem, um conjunto de pequenos textos que a autora, conhecida blogger, foi publicando no weblog ‘O Mundo Perfeito’. Não é de somenos importância, para os anos vindouros, a polémica que gerou, potenciada pela net como tecnologia da expressão e da voz, alimentada depois na imprensa escrita e projectada pelos meios audiovisuais. Não é de somenos importância, enfim, a quase imediata saudação da autora e do volume, nos meios académicos, como sendo uma das realidades mais sólidas da literatura portuguesa actual. Escrita que vive da e na problematização do género autobiográfico, que se situa no afiado gume de todo o exercício de memória individual e colectiva, na literatura de Isabela Figueiredo bate o coração da dor e da beleza. Dor e beleza no âmago da intimidade familiar vivida na década de 60 e princípio de 70 em Lourenço Marques, onde a autora nasceu em 1963: a memória afectiva de uma Filha cujo Pai, electricista branco estabelecido em Moçambique, é tanto a presença sensível sem imagem do amor incondicional, como a figura – a imagem, precisamente – da dominação colonial portuguesa em África no tempo histórico da longa Ditadura. Eis a figura do Pai, que também na materialidade do corpo re-presenta o ‘colonialismo’: “O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável” (p. 60). O livro, assim, enfrenta-nos de modo brutal – e é brutal, não esqueçamos, a arte maior, o belo incondicional – com o desgarramento da sensibilidade e do sentido inerente à missão que a Filha fez sua: dizer o nome do Pai e fazê-lo em nome do Pai. Ou, de outro modo, a violência que sobre a palavra, sobre a escrita, exerce o mandato de dizer a verdade. Dizer a terrível verdade do Pai, dizer a terrível verdade do tempo português, e do fim do tempo português, em África. Como apontamento necessariamente breve, gostaria de anotar que este ‘caderno’ nos permite pensar o que seja o ‘político’ na sociedade portuguesa posterior à descolonização em 1975. Assim, a dor doméstica – íntima, familiar – é indiscernível dessa outra domus que é a sociedade portuguesa como comunidade, esse projecto e realidade de vida ‘em comum’ em democracia. Como já foi amplamente lembrado, demos e daemon provêm de uma mesma raíz etimológica: enfim, ‘união’ e ‘desunião’ são presenças irredutíveis na produção do ‘político’. O que, neste sentido, o livro de Isabela Figueiredo nos devolve, é o nó górdio que faz e desfaz a realidade e a promessa da democracia portuguesa pós-25 de Abril e que, ainda hoje, é assolada pela memória do Império colonial. Um colonialismo que se sustentou no objecto dificilmente representável do racismo, com alicates e tenazes que continuam a des-unir a república portuguesa no ano de 2010. É tanto esta dor como a vontade insubornável de beleza que lemos nos Cadernos de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, autora de uma escrita ‘tocada’ pela impossível língua de uma infância em África. É o ‘ter estado lá’ que detona a arte de contar, a arte da memória: “Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar nela. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar” (p. 103). A literatura, lemos em Isabela Figueiredo, é um vestido branco que é azul.»

PEDRO SERRA

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

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Foi há um ano que publicámos este post.

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Doze meses no top 10 de vendas da Angelus Novus, sete meses dos quais em primeiro lugar; entrevistas à rádio, televisão, publicações periódicas nacionais e estrangeiras; 4 edições; quase 2.000 visitas no YouTube; inúmeras recensões, críticas, posts, documentos académicos depois, eis que a Angelus Novus Editora celebra um ano de edição divulgando mais um excerto áudio do livro Caderno de Memórias Coloniais.

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Um texto sobre a morte de um tempo, lido pela autora.

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Isabela no Museu República e Resistência

É já depois de amanhã que Isabela Figueiredo vai estar no Museu República e Resistência para uma palestra integrada no ciclo «Memórias literárias da guerra colonial». A não perder!

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Isabela na Festa do Livro do Funchal

Ao cimo, Isabela na Festa do Livro do Funchal, com um membro da organização (e com o livrinho lá atrás). Logo abaixo, a Festa do Livro. Finalmente, uma vista do quarto de hotel de Isabela (só para a invejinha…).