Uma resenha brasileira do «Caderno de Memórias Coloniais»

Chama-se Anita Moraes, a autora da resenha que alarga o espectro do impacto do livro de Isabela Figueiredo. Publicada em Buala, publicação online dedicada à cultura contemporânea africana, é um momento importante da vasta recepção deste livro, marcante entre todos, sobre o retorno de África (tema que entretanto parece ter sido descoberto pelos especialistas em descobrir a pólvora). Transcrevemos um excerto, com a devida vénia:

A escrita do Caderno, recuperando e expondo uma memória (apagada, silenciada) de brutalidade, instaura um lugar não previsto na ordem colonial, a distância crítica (não é à toa que a autora diz estar traindo o pai com a escrita). Se a faculdade da leitura permitiu à menina cavar uma distância com relação à prisão social em que vivia, contribuindo para que resistisse à posição de vítima e algoz que lhe era imposta, a escrita parece consolidar esse afastamento. Trata-se de elaborar, pela narrativa, uma nova posição diante do passado, consolidando uma perspectiva singular (para além dos discursos prontos dos grupos envolvidos na ordem colonial; para além do silêncio e da vergonha paralisantes).

O texto integral pode ser lido aqui.

Advertisement

«Caderno de Memórias Coloniais» por Anita Moraes (USP/FAPESP)

Anita Moraes é uma jovem professora da Universidade São Paulo e, dentro em breve, verá  a sua resenha sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, publicada na revista Via Atlântica, nº17, uma revista da USP. Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Ao escrever sobre o que viveu e testemunhou quando criança, a autora se volta a eventos cruciais da história recente desses países: a situação colonial, que brutalizava o africano e a africana; a guerra colonial ou de independência; o 25 de abril de 1974; o 07 de setembro deste mesmo ano; a situação dos colonos depois da independência e seu retorno massivo a Portugal. As esferas pessoal e coletiva surgem ligadas, tornando-se, esta autobiografia de infância, também uma espécie de heterobiografia (como considerou Antonio Candido acerca de Boitempo e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade). Para que a articulação dessas esferas funcione no livro, destacam-se algumas estratégias de composição: 1) a linguagem crua e por vezes elíptica; 2) a construção de metáforas e metonímias; 3) o recurso a situações emblemáticas; 4) o destaque do corpo; 5) a metalinguagem.

(…) O Caderno de memórias coloniais capta, assim, de maneira aguda, a brutalidade e perversidade desta sociedade extremamente racializada. Ao expor a amplitude da violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, o Caderno serve como antídoto à velha ideologia, que ainda sobrevive de várias formas, do “bom colono (ou da boa colona) português (portuguesa)”.

E com esta vão 5!

Uma resenha do «Caderno de Memórias Coloniais»

«Aquele que é, indiscutivelmente, um dos momentos álgidos do ano 2010 na república das letras de Portugal – a publicação do livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo –, mostra-nos como a grande literatura continua a ser um ‘acontecimento’. De facto, este volume de pequenas dimensões levou todo o ano a fazer diferença, que é como quem diz, a produzir tempo, tanto na vida como na arte literária em língua portuguesa. Não é de somenos importância o facto de ter, na origem, um conjunto de pequenos textos que a autora, conhecida blogger, foi publicando no weblog ‘O Mundo Perfeito’. Não é de somenos importância, para os anos vindouros, a polémica que gerou, potenciada pela net como tecnologia da expressão e da voz, alimentada depois na imprensa escrita e projectada pelos meios audiovisuais. Não é de somenos importância, enfim, a quase imediata saudação da autora e do volume, nos meios académicos, como sendo uma das realidades mais sólidas da literatura portuguesa actual. Escrita que vive da e na problematização do género autobiográfico, que se situa no afiado gume de todo o exercício de memória individual e colectiva, na literatura de Isabela Figueiredo bate o coração da dor e da beleza. Dor e beleza no âmago da intimidade familiar vivida na década de 60 e princípio de 70 em Lourenço Marques, onde a autora nasceu em 1963: a memória afectiva de uma Filha cujo Pai, electricista branco estabelecido em Moçambique, é tanto a presença sensível sem imagem do amor incondicional, como a figura – a imagem, precisamente – da dominação colonial portuguesa em África no tempo histórico da longa Ditadura. Eis a figura do Pai, que também na materialidade do corpo re-presenta o ‘colonialismo’: “O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável” (p. 60). O livro, assim, enfrenta-nos de modo brutal – e é brutal, não esqueçamos, a arte maior, o belo incondicional – com o desgarramento da sensibilidade e do sentido inerente à missão que a Filha fez sua: dizer o nome do Pai e fazê-lo em nome do Pai. Ou, de outro modo, a violência que sobre a palavra, sobre a escrita, exerce o mandato de dizer a verdade. Dizer a terrível verdade do Pai, dizer a terrível verdade do tempo português, e do fim do tempo português, em África. Como apontamento necessariamente breve, gostaria de anotar que este ‘caderno’ nos permite pensar o que seja o ‘político’ na sociedade portuguesa posterior à descolonização em 1975. Assim, a dor doméstica – íntima, familiar – é indiscernível dessa outra domus que é a sociedade portuguesa como comunidade, esse projecto e realidade de vida ‘em comum’ em democracia. Como já foi amplamente lembrado, demos e daemon provêm de uma mesma raíz etimológica: enfim, ‘união’ e ‘desunião’ são presenças irredutíveis na produção do ‘político’. O que, neste sentido, o livro de Isabela Figueiredo nos devolve, é o nó górdio que faz e desfaz a realidade e a promessa da democracia portuguesa pós-25 de Abril e que, ainda hoje, é assolada pela memória do Império colonial. Um colonialismo que se sustentou no objecto dificilmente representável do racismo, com alicates e tenazes que continuam a des-unir a república portuguesa no ano de 2010. É tanto esta dor como a vontade insubornável de beleza que lemos nos Cadernos de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, autora de uma escrita ‘tocada’ pela impossível língua de uma infância em África. É o ‘ter estado lá’ que detona a arte de contar, a arte da memória: “Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar nela. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar” (p. 103). A literatura, lemos em Isabela Figueiredo, é um vestido branco que é azul.»

PEDRO SERRA

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

Lembra-se deste post?

 

Foi há um ano que publicámos este post.

.

Doze meses no top 10 de vendas da Angelus Novus, sete meses dos quais em primeiro lugar; entrevistas à rádio, televisão, publicações periódicas nacionais e estrangeiras; 4 edições; quase 2.000 visitas no YouTube; inúmeras recensões, críticas, posts, documentos académicos depois, eis que a Angelus Novus Editora celebra um ano de edição divulgando mais um excerto áudio do livro Caderno de Memórias Coloniais.

.

Um texto sobre a morte de um tempo, lido pela autora.

.

ouvir podcast

.

Isabela no Museu República e Resistência

É já depois de amanhã que Isabela Figueiredo vai estar no Museu República e Resistência para uma palestra integrada no ciclo «Memórias literárias da guerra colonial». A não perder!

[Clique na imagem para aumentar]

Isabela na Festa do Livro do Funchal

Ao cimo, Isabela na Festa do Livro do Funchal, com um membro da organização (e com o livrinho lá atrás). Logo abaixo, a Festa do Livro. Finalmente, uma vista do quarto de hotel de Isabela (só para a invejinha…).

Isabela no Funchal

Isabela Figueiredo, autora do Caderno de Memórias Coloniais, estará hoje à conversa com António Faria Paulino e com leitores na Festa do Livro do Funchal.

Será às 17 h, no Pavilhão dos Autores, nas instalaçoes da festa, na Avenida Arriaga da bela capital da Madeira. Amanhã, sexta-feira, Isabela dará autógrafos na FNAC Funchal, entre as 17h e as 20h.

Madeirenses, estais à espera de quê?

[Na imagem, mupi de Isabela à entrada do Funchal]

Rui Bebiano: «Folhas Voláteis»

O primeiro livro de Rui Bebiano na Angelus Novus, Folhas Voláteis (2001), apresenta como subtítulo «Crónicas Digitais». De facto, o livro assinala uma data importante na história da net em Portugal e, mais latamente, na da nossa cultura digital, pois é uma das primeiras obras em papel que colige textos – neste caso, «crónicas» – escritos para o suporte digital. Bebiano foi um dos pioneiros do cibermundo em Portugal e em português (no início, com fortes ligações ao activismo galego), em sites e publicações como Lugares (primeiro guia de links na Net portuguesa) – 1994-1996 -, Non! cultura e intervenção (primeiro e-zine português) – 1996-2002 – Colonial (primeiro site português sobre a Guerra Colonial) – 1999-2000 -, o blog colectivo Sous les Pavés, la Plage! – 2004-5 -, o blog colectivo A  Estrada – 2005-6 -, o blog A Noite – 2006-7, antes do actual A Terceira Noite e colaboração em vários projectos colectivos recentes.

Desse livro inicial na Angelus Novus, recuperamos hoje um dos melhores textos de Rui Bebiano nesse volume, uma crónica em que o autor discute exactamente as alterações induzidas nos regimes de leitura pelas revoluções teconológicas do nosso tempo. Que agora pode ler, com mais algumas dezenas de outros textos, a preço ainda mais módico.

A chuva, os ácaros e a leitura

Chove muito nos invernos lusitanos. Não tanto como naquela cidade da Noruega, na qual, anunciava o velho manual de geografia, «até os cavalos se espantam» quando vislumbram humano sem guarda-chuva. Mas chove o suficiente para nos inibirmos de passar as tardes de óculos escuros, beberricando imperiais em esplanadas luminosas e simplesmente vendo as vistas. Nas alturas húmidas refugiamo-nos sim, como acontece nas regiões assumidamente borrascosas, em desportos íntimos, em bricabraques domésticos, em vícios 100% incompatíveis com a água que ensopa e o vento malvado que gela e despenteia.

Existia em tempos quem, por essa época de interiores, ocupasse as horas mortas, se tinha afazer, condição ou desculpa que concedessem a elegância, e pachorra para forma tão monótona de passar o tempo, a respirar a indolência das salas aquecidas. Sócios, reais ou imaginários, de um daqueles clubes de vago modelo britânico, no qual a chávena de chá combinava com o jornal entalado entre ripas, as conversas aconteciam em tom amável, o indefectível Jenkins se travestisse de um polido senhor Antunes, a figura da soberana coroada tivesse os contornos – eram as vésperas de um Abril por vir – de um velho almirante retratado a preto e branco. Aí, entre as mãos do brídege, frases sussurradas e bolinhos de manteiga, existia quem acompanhasse o movimento dos ponteiros com a leitura, encadernada e pacífica, de volumes dos mais insuspeitos clássicos. Daqueles que as universidades igualmente clássicas ensinavam com incontido orgulho, as famílias honestas exibiam sem preconceito às visitas, e a censura achava que não perturbavam a vida simples de um povo simples.

Continuar a ler

Agora em francês: «Um témoignage au vitriol sur la colonisation portugaise»

A autora é Marie-Line Darcy, o texto saiu no site da RFI, a Radio France Internationale, e o impacto do Caderno de Memórias Coloniais é aí referido nos seguintes termos:

Isabela Figueiredo provocou um electrochoque em Portugal, obrigando a sociedade portuguesa a debruçar-se sobre o seu passado colonial e a sua descolonização. Não é a primeira a fazê-lo, mas esta narrativa na primeira pessoa, numa linguagem crua para uma verdade nua, sacode a placa de chumbo que repousa ainda sobre a história recente de Portugal.

O texto, que inclui declarações de Isabela, conclui com a informação: «Caderno de Memórias Coloniais não está traduzido em francês».

Por pouco tempo mais, seguramente…

Isabela e «A Força das Coisas»

Foi no sábado, pelas 16 h. Isabela Figueiredo foi entrevistada por Luís Caetano no programa da Antena 2, A Força das Coisas. A conversa está já disponível aqui. A não perder.

Fica ainda mais bonita, assim

Isabela (n)a Escriba

É mais logo, na Escriba, na Cova da Piedade. Isabela tomará chá com quem aparecer e quiser conversar com ela. Mais informações aqui.

P.S. Informamos que, em virtude da gripe que a atacou este fim-de-semana, Isabela não pôde estar presente. Ficará para uma próxima ocasião.

Ana Luísa Amaral sobre o «Caderno de Memórias Coloniais»

Como aqui informámos, o Caderno de Memórias Coloniais foi apresentado no Porto (mais propriamente, na FNAC do NorteShopping), no passado dia 6, por Ana Luísa Amaral. Do texto que a apresentadora leu na altura, publicamos um excerto significativo. Agradecemos a Ana Luísa Amaral a gentil cedência do texto.

Elogiado por muitos, atacado por quem continua a manter do período colonial uma visão paradisíaca, Caderno de Memórias Coloniais encontrou um extraordinário destaque junto da crítica, indo já na sua terceira edição e tendo sido inclusivamente, dizem-me, alvo de proposta para adaptação cinematográfica. “Um livro que faltava”, “um registo fundamental”, “um livro de amor, de desabafo e terapêutico”, “um livro resultante de um acto de coragem”, “um livro incómodo, merecedor (…) da nossa atenção” – depois de tão larga quantidade de leituras, que dizer deste livro que seja novo e lhe faça justiça?

Continuar a ler

Jorge Fernandes da Silveira sobre Isabela Figueiredo

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ. Professor dos mais prestigiados da universidade brasileira na área dos Estudos Portugueses, tem obra vasta, dispersa por revistas de referência e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Na Angelus Novus publicou Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa], em 2003. Publicamos em seguida um texto que configura uma primeira reacção do autor à leitura do Caderno de Memórias Coloniais.

Acabo de ler de um só fôlego o livro de Isabela Figueiredo. E não resisto a estes apontamentos apressados sobre este impressionante Caderno de Memórias Coloniais. O hábito de professor, bendito seja, se me agarra à mão da língua em determinadas leituras. O que se segue – passada a leva de obrigações em curso – será matéria de aulas e ensaios.

1. a língua geral como modo de expressão da vivência pessoal em Moçambique transformada em experiência de escrita. Por exemplo: o à vontade, como se fosse voz corrente na língua portuguesa, com que usa, por exemplo, “mainato”, (27) “milando” (39); Continuar a ler

É já no próximo sábado, no Porto

[Clique na imagem para aumentar]

Algumas reacções mais ao «Caderno de Memórias Coloniais»

O Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, continua a suscitar reacções elogiosas. Eis as últimas. No blogue A Natureza do Mal, Luís Januário aborda o livro, em post intitulado Enfim Isabela. Um excerto:

O livro não tem similar na escrita em português contemporâneo. Uma mulher recorda o pai. E nós podemos ver esse homem, cheirá-lo, sentir-lhe a presença. O livro é sobre uma traição fundamental e sobre uma questão fundamental, que não revelarei aos possíveis leitores.

No site do JL, Luís Ricardo Duarte publica uma recensão do livro, sob o título Uma Infância Colonial, de que extraímos também um pedaço significativo:

Isabela Figueiredo não tem medo das palavras. De contar as coisas como elas eram e como as viu. De desenterrar comportamentos e limpá-los do discurso politicamente correcto. E ninguém escapa ao seu olhar conscientemente inocente, em particular a sua família. Sendo uma autobiografia, não foge às memórias fundadoras da sua personalidade. A descoberta da sexualidade, a sua e a dos seus pais, das discrepâncias sociais, da hipocrisia, das infidelidades, dos preconceitos, dos hábitos e costumes, dos passeios e das esplanadas, do Cinema e da Literatura, essa arma de destruição massiva de irrealidades

P.S. Sem prejuízo de informação mais detalhada nos próximos dias, informamos desde já que no próximo dia 6 de Março, sábado, na FNAC do NorteShopping, Porto, o livro de Isabela Figueiredo será apresentado por Ana Luísa Amaral.

Margarida Calafate Ribeiro sobre «Caderno de Memórias Coloniais»

 

Como aqui amplamente noticiámos, no dia 30 de Janeiro passado Margarida Calafate Ribeiro, investigadora do Centro de Estudos Sociais com obra vasta e relevante sobre estudos pós-coloniais, literatura portuguesa e de países de língua portuguesa, guerra colonial e mulheres na guerra, apresentou, na livraria Almedina Estádio em Coimbra, o livro de Isabela Figueiredo. Desse ensaio, publicamos aqui um excerto significativo. Agradecemos à autora a gentil cedência do texto.

O livro de Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais de que aqui vos venho falar, tem uma forte dimensão pessoal, mas enquadra-se nas análises profundas – que Portugal tem pretendido ignorar – sobre o “nosso colonialismo inocente”(1), pensado por Eduardo Lourenço, ficcionalmente trabalhado por Helder Macedo no romance Partes de África, 1991, e por António Lobo Antunes, em O Esplendor de Portugal, de 1997. Em 1991, Partes de África constituía um livro pioneiro neste aspecto, “inclassificável” na ficção portuguesa de então e, à semelhança, de Caderno, de Isabela Figueiredo era fundado sobre um diálogo póstumo com a figura do pai, transfigurada ora na nação portuguesa, ora na própria imagem do colonialismo português em África. Mais tarde, O Esplendor de Portugal trazia a discussão sobre a questão identitária do colonizador e do ex-colonizador, não tanto a partir da análise das relações desiguais de poder, como em Caderno de Isabela Figueiredo, mas a partir da fracturada relação de pertença/ posse dos sujeitos brancos à terra de Angola outrora colonizada, deixando-os a todos sem lugar. Resumindo todos estes livros mostram, a partir de diferentes posicionamentos, o quanto a descolonização não tinha sido apenas um movimento a sul, que emancipou os países colonizados, mas também um movimento que atingiu radicalmente o continente colonizador que foi a Europa e, no caso sob análise, Portugal. Nesse sentido, esta literatura acusa uma viragem essencial na tomada de consciência pós-colonial do espaço antigamente colonial e das vivências aí havidas como essenciais à nossa identidade de portugueses, de europeus e às nossas identidades individuais. Por isso, a viagem de retorno pós-colonial que estes livros assinalam – de Portugal para África – inverte a história de regressos (2), sobre a qual se foram construíndo os impérios. Nessa medida esta viagem constitui um reconhecimento de que grande parte da história de Portugal se passou fora de Portugal e da Europa, e que para perceber a “fractura colonial” (3), sob a qual todos vivemos, tem de se contar a história das pertenças e vinculações de muitos sujeitos aquelas outras terras outrora parte do império, sob pena de ficarem todos como uma espécie de “refugiados da história” (Marcus, 1997: 17), como as personagens de Esplendor de Portugal e a própria narradora de Caderno, quando se auto-classifica de “desterrada”, ou seja, sem terra e apaixonadamente segue um homem cuja farda indica Moçambique para hipoteticamente lhe dizer que também é de lá, apesar de tudo, contendo neste apesar de tudo, a coincidência impossível de resolver, para narradora, ao longo dos Caderno: é que a sua história individual de pertença àquela terra  – “Na terra onde nasci seria sempre a filha do colono” (p. 133) – coincide com a história pública do colonialismo português em África.

Continuar a ler

Casa cheia, em Almada

Em Almada, o lançamento do Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, bateu todos os records da FNAC local. Casa cheia, como se vê nas fotos. Francisco José Viegas, ao cimo, falou (e bem) sobre o livro. A autora ouviu com atenção e tirou notas no caderninho, falou pouco, sorriu muito e autografou ainda mais. Ao fundo, a autora com a sua prima afastada, uma das grandes responsáveis pela edição do livro na Angelus Novus.

Para terem uma ideia de como a coisa foi em grande, basta clicarem nas fotos.

«A filha do colono», por José Mário Silva

 

Na última edição do Expresso, no suplemento Actual, José Mário Silva dedicou uma resenha ao Caderno de Memórias Coloniais, tendo dado 4 estrelas ao livro. A resenha, mais um momento da impressionante recepção crítica do livro, começa deste modo – «Em Portugal não estamos habituados a livros assim» – e já pode ser lida na íntegra no blogue do autor.

Se não leu em papel, não deixe de o fazer agora. Vá por aqui.

Não há duas sem 3!

 

Recordamos que amanhã, e porque não há duas sem três, após Lisboa (com Eduardo Pitta) e Coimbra (com Margarida Calafate Ribeiro), será a vez de Almada, na FNAC, com Francisco José Viegas, pelas 16 h. Seguir-se-á, em Março, o Norte: o Porto (com Ana Luísa Amaral) e Braga (com Ana Gabriela Macedo). Iremos dando notícias.

Eduardo Pitta sobre Isabela Figueiredo, na LER

No último número da LER, Eduardo Pitta dedica a sua coluna «Heterodoxias» ao Caderno de Memórias Coloniais (o cronista e crítico, também ele nascido em Moçambique, já escrevera sobre o livro no Ipsilon). O texto intitula-se «Do outro lado do espelho», e, dada a sua importância na recepção crítica do livro de Isabela Figueiredo, permitimo-nos extrair alguns excertos, com a devida vénia:

O coro: o colonialismo nunca existiu. Uma voz desafina. A de Isabela Figueiredo: «O colonialismo era o meu pai.» Di-lo com a naturalidade de quem diz que está de chuva. As ondas de choque sucedem-se. Os desapossados do Império acendem um anel de fogo à sua volta.

Quem é esta mulher de olhar frontal que ousa lamber as feridas em público? Isabela Figueiredo nasceu em Lourenço Marques, em 1963, tendo vindo para Portugal antes de completar 13 anos. Cresceu no seio de uma família da classe trabalhadora, viveu na Matola e no Alto-Maé. A Matola, oficialmente designada «Vila Salazar», era um subúrbio de Lourenço Marques (actualmente faz parte do perímetro urbano de Maputo), na zona dos sapais. O Alto-Maé foi um bairro multicultural quando o conceito não existia. (…) Isabela não frequentou os colégios privados da Polana, não brincou com miúdos da sua idade nas piscinas dos country clubs da parte alta da cidade, não debutou no Grémio. Em suma, vivendo fora da câmpanula de cristal da sociedade laurentina, Isabela foi uma espécie de estrangeira na sua própria terra.

(…)

Isabela Figueiredo fez do seu Caderno de Memórias Coloniais um libelo. Numa linguagem desassombrada, põe a  nu a realidade dos brancos pobres de África, homens e mulheres sem tempo para o pólo a cavalo e as emolientes tardes de majongue que entretinham o tédio das famílias fundadoras e dos altos-funcionários do regime. Para o bem e para o mal, Isabela encontrava-se do outro lado do espelho. Precisamente o único sítio onde não podia estar.

 

P.S. O texto na íntegra está agora disponível no blogue de Eduardo Pitta.

É já no sábado, em Almada, na FNAC

Foi assim, na «Almedina Estádio», em Coimbra

 

Margarida Calafate Ribeiro (na foto do meio) leu um (magnífico) ensaio sobre o Caderno de Memórias Coloniais. Seguiu-se um debate sobre o livro, em torno de memória, pós-memória e memória de segunda geração, testemunho e prova, colonialismo, racismo, psicanálise e, claro, literatura. Qualquer dia vai-se poder ouvir tudo isto num site da Angelus.

Agora segue-se Almada, no próximo sábado.

«Um livro que é um murro no estômago»: Isabela Figueiredo n’«Os meus Livros»

Acaba de sair o número de Fevereiro da revista Os Meus Livros e, na secção de recensões, o Caderno de Memórias Coloniais recebe 4 estrelas, em texto assinado por João Morales. Transcrevemos dois excertos. O início do texto:

Há livros de memórias que parecem ter som. E Isabela Figueiredo consegue-o perfeitamente nestes crutos textos (nascidos no blogue Mundo Perfeito) onde nos fala da sua experiência em África, do racismo praticado pelo pai, do sentimento de ódio que isso lhe recalcou, da descoberta da sexualidade ou do sentimento de se sentir num «mundo de ninguém» ao entrar em Portugal.

E a conclusão:

Isabel levou anos até escrever o que a atormentava; até assumir esta catarse. «Precisamos de tempo para compreender. Para matar. Para poder olhá-los de novo na cara com o mesmo amor. Para perdoar.» E só o fez depois da morte do pai. Um livro que é um murro no estômago.

O lançamento do «Caderno de Memórias Coloniais» nos blogues

Algumas das pessoas presentes no lançamento do Caderno de Memórias Coloniais em Lisboa, na livraria Pó dos Livros, deixaram nos seus blogues as impressões da sessão. Começamos por Afonso Ferreira, no blogue Um Homem na Cidade:

Para além de bem escrito – Isabela escreve de uma forma crua, inteligente, irónica, com um humor subtil que raramente encontro – o livro desvenda o que era a vida na colónia e como foi vivido o processo de descolonização.

Ao vivo desapontou quem estava à espera de uma pessoa polémica ou com grandes “teorias”. Isabela fala com convicção mas aparenta uma serenidade no discurso e uma segurança face à polémica. Simplesmente diz não reconhecer as opiniões dadas por anónimos nos blogs e fala dos Cadernos como uma visão pessoal que tentou cingir às memórias que guardou – partiu de Moçambique quando tinha doze anos.

Para além de ser um registo fundamental, é de salientar a enorme coragem para publicar o livro, sendo o mesmo em parte baseado na figura paterna e as suas observações sobre o racismo latente na altura serem um assunto ainda hoje tabu.

Dos Cadernos resta dizer que sabe a pouco, lê-se de uma assentada, apetece mais palavras depois da última página. É imperativo um novo livro rapidamente.

Continuar a ler

É já no sábado, na «Almedina Estádio» em Coimbra

[Clique na imagem para aumentar]

É já na quinta-feira, em Lisboa, na «Pó dos Livros»

[Clique na imagem para aumentar]

Fica ainda mais bonita assim…

Fernanda Câncio sobre Isabela, no DN

Ontem, no Diário de Notícias, Fernanda Câncio publicou um perfil de Isabela Figueiredo, a partir de declarações da autora de Caderno de Memórias Coloniais. O texto, que ocupou duas páginas do suplemento Gente, editado aos sábados com o jornal, intitulou-se «Carta de amor a um pai racista» e pode ser lido aqui.

Após a entrevista a Alexandra Prado Coelho, para o suplemento Ipsilon, do Público, e das declarações que prestou a Fernanda Câncio, para o DN, seguir-se-á a TSF, com Carlos Vaz Marques. A seu tempo informaremos sobre a data de emissão da entrevista.

Agora no Ipsilon

 

A entrevista de Isabela Figueiredo está já disponível no Ipsilon. Clique aqui e leia. E comente.

Isabela Figueiredo no «Público»

Foi nesta quinta-feira: na capa do Público, uma chamada para a entrevista que Isabela Figueiredo deu a Alexandra Prado Coelho e que saiu na edição desse dia do jornal, no Ipsilon. Na selecção dos melhores livros de 2009, o Caderno de Memórias Coloniais surgia na posição 14 (em 20), escolhido por Gustavo Rubim, nos seguintes termos:

Sente-se o abalo que este «Caderno» causa no marasmo literário nacional em passagens como esta: «Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se». Relato cru do racismo português em Moçambique no fim do Império, memória do amor de uma filha pelo corpo do pai, história de traição a uma ‘verdade’ que morreu com a morte do colonialismo. Um texto parcial, violento, escrito como se escrevem cadernos: com o fantasma da verdade sempre ao lado. Isabela Figueiredo afirma-se escritora, num país onde só proliferam ‘autores’, esses manequins de vender autógrafos.

Na resenha ao livro, com o título «Uma estátua de culpa», Eduardo Pitta, que lhe dá 4 estrelas, di-lo «uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África». E conclui: «Há muito pouca gente a escrever como ela».

Quanto à entrevista a Alexandra Prado Coelho, «peça de resistência» dessa edição do Ipsilon, saiu com o título «O colonialismo era o meu pai» e é impossível resumi-la, tal a força que dela emana: a força de quem continua, por outros meios, a escrever o Caderno de Memórias Coloniais. Iremos linká-la para o nosso blogue assim que estiver disponível no Ipsilon. Por agora, apenas um excerto:

O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi ele que eu vi fazer isso.

Nelson Ned, por Isabela Figueiredo

Eu também não tinha nada para fazer ao domingo à tarde. Eu também vivia sozinha essas tardes tão tristes.

Isabela, evocando em Banda Sonora «o deus da balada com sotaque do Brasil». A ler, com ou sem banda sonora.

O nosso mais recente lançamento

.

 

Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril.
Em Lourenço Marques, sentavámo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços.