Tasos Leivaditis, por Manuel Resende (II)

DEDICATÓRIA
 
A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quanto todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é tarde – é tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia para entrarem no céu,
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram, aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma vida inteira…

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Tasos Leivaditis, por Manuel Resende (I)

Tasos Leivaditis nasceu em 1922 em Atenas e aí morreu em 1988. Entrou na poesia e na resistência contra os alemães desde muito novo (Batalha na Extrema da Noite, Esta Estrela É para Todos Nós, os dois primeiros livros de uma obra que contou com mais de duas dezenas de títulos, retraçam precisamente essa experiência), esteve deportado entre 1948 e 1952, foi julgado, em 1955, pelo seu livro Sopra o Vento nas Esquinas do Mundo. Calado mais uma vez pela ditadura dos coronéis (sobreviveu de traduções), veio mais tarde a enveredar por uma poesia agri-doce, de reflexão íntima, mas sempre marcada pela experiência da juventude. O seu livro póstumo Os Manuscritos do Outono espelha essa tendência. Os poemas que agora publicamos são traduzidos por Manuel Resende, a quem agradecemos.

IDEOLOGIA 1

Tinha um braço maneta e para o esconder
Andava sempre com uma bandeira.

IDEOLOGIA 2

Foram tantas as cadeiras com que nos tentaram
Por isso agora fico sempre de pé como para cantar a Internacional.

ORAÇÃO

Deus, nunca te percebi e, mesmo que te percebesse, não podia com o teu peso.
Deus, com esta realidade tão reles à nossa volta corres grande perigo.
Como posso eu salvar­‑te?

Abel Barros Baptista, tradutor de Adam Phillips, sobre o autor e sobre «Monogamia»

Abel

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel Barros Baptista, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, ensaísta premiado e cronista, publicou já na Angelus Novus um magnífico livro de crónicas – A Infelicidade pela Bibliografia -, tendo ainda organizado o primeiro volume da colecção ReVisões, sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Na mesma colecção, coordenou um volume sobre um dos grandes textos da literatura portuguesa, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, autor cujos estudos fortemente renovou.

Ouvimo-lo sobre as questões levantadas pela tradução, a todos os títulos exemplar, que fez de Monogamia, de Adam Phillips, obra que editámos em 2008, inaugurando a edição das obras do famoso psicanalista e ensaísta inglês em Portugal.

P. O aforismo é um género definível pela brevidade, densidade e, ao mesmo tempo, ambiguidade de sentidos, uma vez que o texto deve produzir um certo impacto de teor interrogativo na mente do leitor. Mas isto torna-o de tradução difícil, ou não?

R. Imagino que haja uma dificuldade genérica semelhante à do epigrama, do epitáfio ou do soneto: as formas brevíssimas apresentam-se ocupando espaço exíguo, de modo que a própria materialidade da inscrição torna a falha conspícua. A suposta facilidade da prosa corrida é muito mais a facilidade de esconder o deslize num mar de palavras ou numa mancha demasiado grande para que um erro mínimo se note. No aforismo o erro pode tomar logo conta da percepção do leitor. Uma maçada.

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