ENTREVISTAS 1

  

   

Entrevista com Manuel Sanches sobre Donald Davidson

  

  

P. A publicação de um livro sobre Davidson pressupõe, muito naturalmente, que lhe atribui alguma importância no pensamento contemporâneo; essa importância estende-se para lá daquilo que se designa actualmente por filosofia analítica? 

R. A filosofia analítica não é um compartimento fechado dentro da filosofia, com problemas específicos completamente diferentes daqueles que são tratados na filosofia tradicional. Para Davidson, a filosofia analítica é essencialmente um método que procura enunciar os problemas e os argumentos de uma forma o mais clara e lógica possível. 

P. A importância crescente dessa filosofia analítica representa algo de semelhante a um processo de globalização na filosofia dos nossos dias? 

R. Penso que não. A filosofia continuará a contemplar diversos estilos e tipos de problemáticas. O espírito de rigor analítico, qualquer que seja a forma como ele se exprime, foi e continuará a ser uma exigência da atitude filosófica. 

P. Davidson, tal como Heraclito na Antiguidade, é muitas vezes considerado um autor obscuro, difícil. Donde vem esta fama? 

R. De facto, e apesar de, como ele próprio afirma, pretender enunciar os seus problemas de uma forma clara, o que acontece é que a sua filosofia nem sempre é facilmente compreendida. 

A dificuldade surge, por um lado, porque as suas posições filosóficas não se enquadram nas classificações tradicionais da filosofia; por outro lado, porque deliberadamente talvez goste de enunciar algumas das suas teses de uma forma provocatória. 

P. Como, por exemplo, as afirmações de que não há Psicologia ou de que não há isso a que chamam ‘linguagem’? 

R. Sim. Penso que exemplificam bem esse carácter polémico. Quanto à Psicologia, Davidson critica a pretensão dessa disciplina de elaborar leis científicas; de acordo com sua tese do monismo anómalo, não existem nem leis psicofísicas, nem leis psicológicas, e isto apesar do seu fisicalismo acerca dos estados mentais. 

Quanto à afirmação acerca da linguagem, mais controversa parece ser; de facto, como poderíamos levar a sério alguém que passa grande parte da sua vida a elaborar uma teoria filosófica acerca de algo que não existe? 

P. Então o que é que ele pretende afirmar? 

R. O que ele afirma é que não existe isso a que chamam linguagem, se entendermos por linguagem aquilo que muitos filósofos e linguistas supõem. 

P. O que é que essa gente supõe? 

R. Fundamentalmente, a ideia de que há um conjunto de expressões com significados convencionais que os falantes dessa linguagem partilham. Ora, as pessoas divergem entre si; neste sentido, podemos dizer que cada um tem a sua própria linguagem. Há, evidentemente, uma grande extensão de consenso entre os indivíduos, nas suas competências linguísticas. 

P. No livro, há alguns conceitos que surgem recorrentemente na argumentação que atribui a Davidson, conceitos como, por exemplo, externalismo, princípio da caridade, interpretação radical ou triangulação. Constituem, de facto, tópicos fundamentais na filosofia de Davidson? 

R. Sim; não só desempenham um papel muito importante na argumentação contra o cepticismo, como, globalmente, no conjunto da sua fillosofia. 

P. Essa caridade de que fala, parece simplesmente um imperativo de boa vontade para com os outros. 

R. Como Davidson reconhece, a palavra pode dar origem a alguns mal entendidos. O princípio da caridade é uma exigência no processo de interpretação dos outros: não podemos compreendê-los se não os considerarmos como partilhando um mundo connosco e como pensando de um modo logicamente coerente. Sem o princípio da caridade, não podemos reconhecer a racionalidade do pensamento. O pensamento tem conteúdos proposicionais e estes são, em parte, identificados pelas relações que mantêm entre si. 

P. Têm que ser coerentes entre si?

R. É isso mesmo. Não podemos interpretar, identificar os pensamentos dos outros, se não lhes atribuirmos uma coerência racional.

Poderíamos admitir, por hipótese, um estranho grupo de pessoas que só falassem de um mundo exclusivamente povoado de entidades espirituais, sem qualquer relação com o nosso mundo material.

P. Nesse caso, as suas crenças poderiam ser consideradas como globalmente falsas.

R. Compreendemos melhor essa base social, a partir do conceito de triangulação. Se temos duas pessoas reagindo a estímulos exteriores e, ao mesmo tempo, que reagem entre si, isto é, às relações mútuas que têm a esses estímulos, então completa-se o triângulo que localiza o estímulo comum. 

P. Por várias vezes se refere que a teoria da coerência não é a teoria da verdade de Davidson. A teoria da coerência é uma teoria sobre quê?

R. É uma teoria sobre a justificação da verdade. É a alternativa às teorias fundacionalistas tradicionais: Por um lado, o empirismo, segundo o qual tudo o que tem origem nos sentidos, de uma forma ou de outra, fornece a base para o conhecimento; por outro lado, a ideia cartesiana de que só podemos ter certeza acerca dos conteúdos da nossa consciência.

P. A teoria da coerência não é a teoria da verdade de Davidson. É-o a teoria da correspondência?

R. A noção de correspondência não pretende esclarecer a natureza da verdade. A verdade é um conceito que não pode ser reduzido ou substituído por qualquer outro conceito. Na filosofia de Davidson, a noção de correspondência deverá ser entendida a partir do seu compromisso com a tese externalista segundo a qual o conteúdo das nossas crenças depende das suas causas no mundo exterior.

P. A argumentação contra o cepticismo global parte, portanto, dessa tese externalista?

R. Sim; Davidson rejeita tanto o relativismo como o cepticismo.  

A sua resistência às classificações tradicionais não permite considerá-lo muito simplesmente como realista ou anti-realista. 

O realismo tradicional, metafísico, abre as portas à hipótese céptica de que as nossas teorias acerca do mundo possam ser falsas; o anti-realismo torna a verdade meramente epistémica, na medida em que rejeita a ideia de uma verdade objectiva. 

P. A rejeição dessas teses tradicionais será, então, motivada por alguma obstinada procura da rejeição do cepticismo? 

R. Ser céptico não é nenhuma desonra. O seu argumento contra o cepticismo global releva naturalmente das suas teses fundamentais acerca do modo como se formam e justificam as nossas crenças. 

R.A interpretação não garantiria a verdade. Só que, neste caso, como é que um intérprete radical poderia entender aquela linguagem, perceberia que eles teriam uma linguagem? O problema desta hipótese reside no facto de que se não houver uma relação observável entre os sons que essas pessoas pronunciassem e os aspectos observáveis do mundo em que eles vivem, seria impossível perceber como é que eles teriam adquirido essa linguagem.

 

 

 

Entrevista com Laura Ferreira dos Santos sobre Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença – I

  

  

Osvaldo Manuel Silvestre: O teu livro, desde o título – Diário de uma mulher católica a caminho da descrença – parece sugerir que o caminho da descrença é tão duro e tortuoso como o da fé. Será? E se é, a que se deve isso? A tudo o que se deixa para trás? Ou antes ao facto de nunca se deixar tudo para trás?

Laura Ferreira dos Santos: Só posso dizer que, no meu caso, esse caminho para a descrença foi de facto tão duro e tortuoso como o da fé. Depois de aderir mais convictamente ao cristianismo, há uns vinte anos atrás, uma missa era para mim um grande motivo de alegria, um espaço físico e espiritual em que tudo parecia bater certo, lugar de um grande apaziguamento e harmonia interiores. Tinha os meus problemas com o que a igreja hierárquica ia dizendo e escrevendo, mas tentava relativizá-los em função do que me parecia muito mais importante do que os seus desacertos “ideológicos”.

 No fundo, talvez a minha maior dificuldade no caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja católica sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o papel inferior da mulher na sociedade.

O. M. S. Inspiraste-te nalgum modelo de diarística para o teu livro? Sentes-te mais próxima, quanto a isso, de Santo Agostinho ou de Virgina Woolf (ou de Santa Teresa)?

L. F. S. Como muitas e muitos de nós, li os textos referidos, assim como outros do género. Até que ponto me influenciaram, é algo que não consigo avaliar bem. Se Agostinho e Teresa de Ávila me estão até certo ponto próximos pela temática religiosa, dir-se-ia que a certeza das suas convicções religiosas me afasta deles, sentindo-me mais identificada com alguns dos tormentos de fé expostos por João da Cruz ou Teresa de Lisieux, não a Teresa edulcorada pelas suas irmãs carmelitas, mas a Teresa para quem o “pensamento do céu” já não é um tema pacífico, mas um tema de combate e de tormento, temendo que depois da morte já só haja uma “noite do nada”, ou escrevendo que quando canta a alegria de estar em Deus canta apenas aquilo em que ela quer crer, não aquilo em que crê na verdade.

Diários ou não, sinto-me portanto mais próxima dos escritos em que se capta à saciedade uma luta de corpo a corpo com a crença ou com esse ser que tem vindo a ser designado androcentricamente por Deus. Por outras palavras, textos cujas autoras ou cujos autores têm descrito a vivência da crença como se o fizessem num processo que deixa sangue entre os dedos, textos aliás escritos do único modo que Nietzsche respeitava. Algo assim como o Diário íntimo de Unamuno, texto que “saltou” das minhas memórias antigas (li-o quando tinha 19 anos) quando me deparei com esta pergunta.

O. M. S. Como explicas a raridade lusa de obras que, como a tua, façam da fé uma questão tão agónica quanto polémica? Ou seja, como explicas que a um país de inquestionada tradição católica corresponda uma tão débil produção teológica?

L. F. S. De imediato, o que me apetece dizer é que em Portugal é tudo tão pequenino quanto os sinais de trânsito ou as placas que indicam os nomes das diversas localidades, que, numa viagem de automóvel, só conseguimos decifrar quando acabámos de passar por elas. Basta comparar os sinais de limite de velocidade que encontramos nas auto-estradas portuguesas e nas espanholas. Bom, a questão é obviamente complexa, aproveitando desde já para esclarecer que o meu Diário não se enquadra na dita “produção teológica”, pelo menos no sentido habitual do termo.

No entanto, é verdade que, no nosso país, essa produção é de facto débil. Aliás, penso que, em Portugal, uma investigação aprofundada, pelo menos no campo das letras, que é o âmbito que conheço melhor, poucos incentivos recebe. Veja-se, por ex., o que se passa na maior parte (ou totalidade) dos centros de investigação universitários, em que é sobretudo o número de artigos publicados a ser contabilizado, não se atendendo à sua qualidade. Nesta óptica, cinquenta filmes feitos pelo mesmo realizador num único ano seriam muito mais subsidiados que A vida é bela, talvez o único filme que Roberto Begnini realizou no mesmo espaço de tempo. Por outro lado, só os trabalhos em equipa parecem ser subsidiados. Se Nietzsche, nos tempos actuais, se propusesse fazer um trabalho de índole semelhante ao que realizou, nunca obteria um centavo. Mas se se associasse a Peter Gast, à irmã, a Paul Rée, a Wagner, etc, poderia eventualmente receber uns cobres. Mas, nesse caso, alguém o leria hoje? Claro que não estou contra o trabalho em equipa, imprescindível em certas áreas. Fazer dele um dogma é que me parece um fundamentalismo.

Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo, aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como o “religioso” intervém nela. Perante a raridade para que a pergunta aponta, talvez se deva colocar a hipótese de que, em Portugal, a maior parte das pessoas que poderia produzir textos deste género tenha rapidamente deixado de acreditar em Deus, acrescentando-se, por outro lado, a questão óbvia de que o nosso país se encontra longe de temáticas ditas “feministas”, nem sequer utilizando uma linguagem inclusiva, que trate, sem discriminação, homens e mulheres. Por aqui, só há “homens” e “filhos”, pois já se sabe há muito que todas as mulheres são homens e todas as filhas são filhos.

A meu ver, só o cruzamento das duas temáticas por uma pessoa que as levasse muito a sério poderia dar um texto como o meu. E, pelos vistos, por uma razão ou outra, não deve haver em Portugal muita gente nessas circunstâncias. Daí a minha própria dificuldade em conseguir encontrar um padre com quem possa dialogar sobre estes assuntos, pois oiço frequentemente dizerem-me que nunca se tinham confrontado com as minhas questões, alguns assumindo honestamente que talvez por serem homens…

O. M. S. Como vês a intransigência da igreja de Roma no que toca ao ordenamento de mulheres como sacerdotes? A verificar-se uma alteração do estado de coisas com um novo Papa, pensas que isso se deverá a boas razões (teológicas) ou à falta de vocações masculinas?

L. F. S. Perante as vistas curtas que a Igreja católica manifesta em tantas áreas, apetece brincar e dizer: se essa ordenação for devida à falta de vocações masculinas, as boas razões teológicas serão com certeza encontradas.

Durante milhares de anos, um acto particularmente importante nas religiões como o sacrifício cruento foi interdito às mulheres. Segundo uma teoria, para que os homens, sem o privilégio de dar à luz, pudessem dispor de um outro privilégio que aplacasse a sua inveja da maternidade: o privilégio do sacrifício cruento, vertendo o sangue de uma vítima para que uma certa forma de “vida” pudesse surgir. Por esta ou por outras razões, o facto é que as grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), nas suas versões mais “oficiais”, foram declarando o papel subordinado da mulher, pois, como diz Paulo, “a cabeça da mulher é o homem”. E, se pudesse, creio que a Igreja Católica reescreveria o discurso das Bem-aventuranças, pondo de um lado as adequadas aos homens, e do outro as adequadas às mulheres.

Penso que Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não conseguiu manter-se ao mesmo nível. Pela voz da Igreja católica e de outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à mulher que, se por um lado pode quase configurar uma espécie de crime contra a humanidade, por outro é uma posição merecedora de estudo aprofundado, pois esclarece-nos muito sobre as questões de género, ajudando-nos a perceber por que é que os homens actuam em sociedade como se pertencessem a uma espécie de “raça” superior.

O. M. S. O teu livro aparece com a indicação de que se trata do volume I. Significa isso que pensas publicar mais volumes? Com que regularidade? Se entretanto o caminho te conduzir de facto à descrença, admites a possibilidade de uma alteração de título?

L. F. S. De facto, não tencionava “descontinuar” este Diário. Aliás, no meu computador, lá vai crescendo, ao sabor dos tempos. Agora a respeito da regularidade de publicação, não posso prevê-la neste momento, tanto mais quanto não sei se os problemas de saúde de que padeço irão diminuir ou aumentar a sua escrita. Um outro volume para daqui a um ano?… 

Quanto à eventualidade de ser conduzida “de facto” à descrença, eis aí um problema que começa logo pela definição de crença e descrença, cujo conteúdo irei tentando delimitar ao longo do “caminho”. Um determinado tipo de descrença não elimina radicalmente a possibilidade da crença. Falta saber em quê. Seja como for, para já, não entrevejo uma mudança de título, como se aí estivesse um ponto de partida (ou de chegada) demasiado marcante para ser deitado fora antes de ser devidamente explorado. E vontade para efectuar essa exploração é algo que não me falta. 

 

 

 

Entrevista com Desidério Murcho sobre O Essencialismo Naturalizado

 

 

P. De que trata exactamente este livro? O que vem a ser o essencialismo e a metafísica da modalidade? 

R. A metafísica é a disciplina filosófica que se ocupa de temas como a modalidade (isto é, do carácter contingente ou necessário de algumas afirmações). Daí que o subtítulo do livro seja “Aspectos da Metafísica da Modalidade”. O essencialismo a que o título do livro se refere é, nos seus contornos mais gerais, uma ideia de Aristóteles: é a ideia de que há propriedades que certos particulares não poderiam deixar de ter. Por exemplo, eu poderia ter um nome menos bizarro do que tenho, mas não poderia ser um chinelo de quarto. Diz-se então que eu sou essencialmente um ser humano, e é por isso que não posso ser um chinelo de quarto, mas o nome que tenho é contingente. Esta distinção é perfeitamente intuitiva, mas com Hume e a revolução científica do séc. XVIII começou uma campanha contra esta visão das coisas, que culminou em Quine, já no séc. XX. E durante todo este tempo os filósofos foram levados a pensar que a distinção entre o necessário e o contingente era uma ficção linguística. Contudo, com os trabalhos de filósofos contemporâneos, como Kripke, Putnam e Plantinga, nos anos 70 do séc. XX, o essencialismo ressuscitou. Neste livro, apresento e defendo uma versão particular de essencialismo, que podemos atribuir aos filósofos referidos. Chamo “naturalizada” a esta versão de essencialismo porque não se trata de um essencialismo apriorístico, como o essencialismo da ciência medieval; pelo contrário, a característica mais saliente deste essencialismo é o facto de se basear em verdades necessárias a posteriori. 

P. Não receia que o livro, apesar de tão pequeno, seja demasiado “pesado”? Com certeza que não é um livro para o grande público… 

R. Em primeiro lugar, nem todos os livros são para o grande público; e alguns dos livros que não são para o grande público tornam-se sucessos inesperados — pense-se nos livros de António Damásio, por exemplo. Em segundo lugar, apesar de o meu livro exigir atenção por parte do leitor, não é um daqueles livros que pressupõe que o leitor já domina a área temática do livro (o que o tornaria absurdamente redundante). Este livro baseia-se na minha dissertação de mestrado, que redigi com a orientação competentíssima e amiga de João Branquinho. Mas aquando da sua publicação em livro modifiquei praticamente tudo — em parte porque entretanto tinha mudado de ideias em alguns aspectos importantes, e em parte porque quero que o livro seja útil para o leitor. Não gosto de escrever para o umbigo porque o meu umbigo é dos poucos que não sabe ler. Assim, qualquer pessoa que tenha interesse em saber um pouco o que se faz em metafísica e em filosofia contemporânea pode ler e compreender o livro. Não pressuponho quaisquer conhecimentos de lógica, ou de filosofia, ou de história da filosofia. 

Contudo, serão os professores e estudantes de filosofia que poderão ter mais interesse no livro, como é evidente. Essas pessoas conhecem algumas ideias de Hume e Kant, por exemplo — autores cujas ideias são parcialmente discutidas neste livro. Qualquer estudante sabe que Kant procura resolver o problema levantado por Hume recorrendo ao sintético a priori; com este livro vai contactar com uma solução diferente, que recorre ao necessário a posteriori 

Portanto, não se trata de um tratado ininteligível, mas de um livro que se quer útil. Gostaria muito que este livro possibilitasse a discussão franca e a discordância frontal sem as quais o progresso em filosofia, ou em qualquer outra área, não é possível. 

Por outro lado, o capítulo 1, em especial, foi concebido precisamente para apresentar um conjunto de noções centrais da metafísica que qualquer estudante destas matérias tem de dominar. Assim, quem nada sabe de metafísica mas está interessado em saber, pode começar precisamente por ler este capítulo — e ficará a dominar noções como as de particular e propriedade, propriedade essencial e acidental, verdades necessárias e contingentes (modalidades aléticas), mundos possíveis, conhecimento a priori e a posteriori (modalidades epistémicas), verdades analíticas e sintéticas (modalidades semânticas), necessidades e possibilidades físicas, lógicas e metafísicas, etc. Todas estas noções fazem parte do instrumentário conceptual da metafísica contemporânea e tanto quanto sei é a primeira vez que se publica um livro em Portugal onde todas elas são explicadas com precisão. 

P. Há vários aspectos surpreendentes no seu livro. Sendo um livro de filosofia, raramente faz citações ou “comentários de texto”. Além disso, não parece limitar-se a formular as ideias de filósofos como Kripke ou Hume: defende ideias próprias. Por outro lado, é um livro sobre metafísica, que muitas pessoas pensam estar morta e enterrada nesta era pós-metafísica e pós-moderna. E, como se não bastasse, parece não respeitar os filósofos de que fala, não se inibindo de discutir as suas ideias e de tentar mostrar que estão enganados… Não é tudo isto pretensiosismo? 

R. Só se considerar que é pretensiosismo querer compor música depois de tirar um curso de música, ou querer pintar quadros depois de tirar um curso de pintura. Eu tirei um curso de filosofia para fazer filosofia. Posso fazer pior ou melhor, mas é esta a minha profissão: discutir os problemas reais da filosofia, tentar pensar por mim mesmo, e submeter as minhas ideias à crítica dos meus pares e do público em geral. Isto só é surpreendente se tivermos uma concepção errada da filosofia, que a confunde com historietas da filosofia. Mas eu nunca gostei de velórios e portanto não pertenço ao Clube de Filósofos Mortos. Faço filosofia viva, como fazia Platão ou Hume e como fazem os meus colegas do mundo inteiro. Claro que não sou um Platão ou um Kant, mas nem todos os pintores são Picassos e nem todos os músicos são Mozarts — mas nem por isso deixam de pintar quadros e compor música. 

Quanto à pretensa era pós-metafísica, trata-se de uma ideia falsa. A metafísica está viva e de saúde, sucedendo-se os estudos de grande qualidade sobre todos os aspectos da metafísica, sobretudo nas últimas duas décadas. Basta ler as revistas especializadas e estar a par do que se publica por esse mundo fora para verificar isto. A morte da metafísica é tão ilusória quanto a morte da filosofia. Se alguma coisa morreu ou está a morrer foi uma certa inversão da melhor tradição filosófica, que procurou substituir a discussão frontal de ideias pelo distanciamento irónico, a entrega apaixonada à discussão pelos trocadilhos e jogos de palavras pretensiosos, e a articulação rigorosa de ideias pelos devaneios dos “comentários de texto” e das “problematizações”. Mas esta é uma morte que não se lamenta, como ninguém lamenta o desaparecimento da poliomielite. Fazer filosofia sempre foi discutir as ideias dos nossos contemporâneos e dos nossos antepassados, procurando ir mais longe do que eles foram, concordando aqui e discordando ali, avançando argumentos e precisando pontos de vista, articulando problemas e procurando soluções melhores. Se fazer isto é surpreendente, é bom que se publique este livro para que quem gosta de o fazer e se sente infeliz com os “comentários de texto” e os “vectores problematizantes” saiba que não está sozinho: tem a companhia de alguns dos melhores filósofos de sempre, tanto clássicos como contemporâneos. 

   

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