Mais uma livraria a menos

O post intitula-se Papel ao Vento, e foi há pouco publicado por Francisco José Viegas no seu A origem das Espécies. Trata do encerramento da Waterstone’s de Piccadilly Circus e de mais umas tantas da rede, na Irlanda. Há que lê-lo na íntegra e meditar na conclusão:

A culpa é do livro digital? Não apenas. É sobretudo de uma gestão virada para o “capital financeiro”, que acreditava que podia vender livros da mesma forma que venderia produtos de limpeza, e que poderia impingir eternamente subprodutos infames. Como estava escrito há muito, o livro vingar-se-ia dos seus algozes ignorantes – mas, infelizmente, é um mundo que, tal como se anunciava, termina os seus dias deixando um rasto de desemprego, de desolação e de culpa. É assim.

Por nós, permitimo-nos recordar um post de uma ex-directora editorial da Angelus Novus, sobre uma livraria em Madrid que «É só uma livraria»: La Celestina. Essa cuja foto ilustra, e enobrece, este post. Chamem-nos saudosistas ou retrógrados, chamem-nos os nomes todos que quiserem. Como diz Francisco J. Viegas, isto não tem a  ver com tecnologia, o que seria irónico num blog, mas com o «capitalismo financeiro» que transforma livros (ou jogadores de futebol…) em activos, conduzindo à proliferação incontrolada de lixo – em «alta rotação», como se diz no business. A combinação de ganância com iliteracia deu o que deu, lá fora e, em breve, numa livraria perto de si.

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Uma resenha do «Caderno de Memórias Coloniais»

«Aquele que é, indiscutivelmente, um dos momentos álgidos do ano 2010 na república das letras de Portugal – a publicação do livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo –, mostra-nos como a grande literatura continua a ser um ‘acontecimento’. De facto, este volume de pequenas dimensões levou todo o ano a fazer diferença, que é como quem diz, a produzir tempo, tanto na vida como na arte literária em língua portuguesa. Não é de somenos importância o facto de ter, na origem, um conjunto de pequenos textos que a autora, conhecida blogger, foi publicando no weblog ‘O Mundo Perfeito’. Não é de somenos importância, para os anos vindouros, a polémica que gerou, potenciada pela net como tecnologia da expressão e da voz, alimentada depois na imprensa escrita e projectada pelos meios audiovisuais. Não é de somenos importância, enfim, a quase imediata saudação da autora e do volume, nos meios académicos, como sendo uma das realidades mais sólidas da literatura portuguesa actual. Escrita que vive da e na problematização do género autobiográfico, que se situa no afiado gume de todo o exercício de memória individual e colectiva, na literatura de Isabela Figueiredo bate o coração da dor e da beleza. Dor e beleza no âmago da intimidade familiar vivida na década de 60 e princípio de 70 em Lourenço Marques, onde a autora nasceu em 1963: a memória afectiva de uma Filha cujo Pai, electricista branco estabelecido em Moçambique, é tanto a presença sensível sem imagem do amor incondicional, como a figura – a imagem, precisamente – da dominação colonial portuguesa em África no tempo histórico da longa Ditadura. Eis a figura do Pai, que também na materialidade do corpo re-presenta o ‘colonialismo’: “O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável” (p. 60). O livro, assim, enfrenta-nos de modo brutal – e é brutal, não esqueçamos, a arte maior, o belo incondicional – com o desgarramento da sensibilidade e do sentido inerente à missão que a Filha fez sua: dizer o nome do Pai e fazê-lo em nome do Pai. Ou, de outro modo, a violência que sobre a palavra, sobre a escrita, exerce o mandato de dizer a verdade. Dizer a terrível verdade do Pai, dizer a terrível verdade do tempo português, e do fim do tempo português, em África. Como apontamento necessariamente breve, gostaria de anotar que este ‘caderno’ nos permite pensar o que seja o ‘político’ na sociedade portuguesa posterior à descolonização em 1975. Assim, a dor doméstica – íntima, familiar – é indiscernível dessa outra domus que é a sociedade portuguesa como comunidade, esse projecto e realidade de vida ‘em comum’ em democracia. Como já foi amplamente lembrado, demos e daemon provêm de uma mesma raíz etimológica: enfim, ‘união’ e ‘desunião’ são presenças irredutíveis na produção do ‘político’. O que, neste sentido, o livro de Isabela Figueiredo nos devolve, é o nó górdio que faz e desfaz a realidade e a promessa da democracia portuguesa pós-25 de Abril e que, ainda hoje, é assolada pela memória do Império colonial. Um colonialismo que se sustentou no objecto dificilmente representável do racismo, com alicates e tenazes que continuam a des-unir a república portuguesa no ano de 2010. É tanto esta dor como a vontade insubornável de beleza que lemos nos Cadernos de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, autora de uma escrita ‘tocada’ pela impossível língua de uma infância em África. É o ‘ter estado lá’ que detona a arte de contar, a arte da memória: “Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar nela. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar” (p. 103). A literatura, lemos em Isabela Figueiredo, é um vestido branco que é azul.»

PEDRO SERRA

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

Um resenha de «Dois diálogos entre um padre e um moribundo»

«A editora Angelus Novus, de Coimbra, criou este ano uma nova colecção, “Experimente no Sofá”, constituída por livros de pequena dimensão, destinados precisamente a uma leitura rápida e estimulante. Promete-se a publicação de A prisão do Gungunhana, de Mouzinho de Albuquerque, e de Os primeiros relatos de Fátima, mas, para já, estão disponíveis os dois volumes iniciais: Dois diálogos entre um padre e um moribundo, do Marquês de Sade e Nuno Júdice, e Quinze dias no deserto americano, de Alexis de Tocqueville.

Destaquemos o primeiro, justamente por se tratar do volume inaugural da colecção. O texto do divino Marquês, “Diálogo entre um padre e um moribundo”, terá sido escrito em 1782, mas foi apenas publicado em 1926, ou seja, numa época muito mais tolerante do que aquela em que foi produzido. No entanto muitas das objecções à possibilidade da existência de um Deus omnipotente e misericordioso avançadas pelo moribundo ateu mantinham, como ainda mantêm, plena actualidade. Se Deus é o criador do universo, “quem tudo fez, tudo criou”, como sustenta o sacerdote, por que motivo teria criado, pergunta o moribundo, “uma natureza corrupta”.

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«Doutor Avalanche», de Rui Manuel Amaral, em Braga

Leituras confortáveis

Um destaque a todos os números publicados na coleção Experimente no Sofá. É no número 95, de Fevereiro de 2011, da revista os meus livros.

Prémio Jorge de Sena para Vítor Aguiar e Silva

O livro de Vítor Aguiar e Silva Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, que a Angelus Novus se orgulha de ter editado no final de 2009, tinha já obtido o Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho. Agora foi a vez de à obra ter sido atribuído o Prémio Jorge de Sena, instituído em 2010 pelo Clepul, com o apoio de um mecenas anónimo.

Apresentamos – de novo – ao autor as nossas vivas felicitações.

Colaboradores

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A Angelus Novus, Editora prepara-se para lançar novas colecções destinadas aos públicos dos 7 aos 77 anos. Por essa razão procuramos colaboradores que trabalhem à comissão na área da comercialização e distribuição, em determinadas zonas do país.

Agradecemos, pois, que os eventuais interessados nos contactem enviando um email para comercial@angelus-novus.com.

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Procura-se candidato habilitado para estágio nas áreas de composição e montagem gráfica: paginação, revisão, concepção gráfica de livros, plataformas web.
Contacto: anovus@angelus-novus.com/ Angelus Novus, editora, Coimbra.
Dá-se preferência a candidatos com habilitações em ciências documentais e/ou artes gráficas e/ou estudos editoriais ou a candidatos que não tendo estas habilitações tenham outras que se provem ser adequadas

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Daniel Melo, sobre a cultura popular no Estado Novo e hoje

Daniel Melo é historiador e investigador auxiliar no Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. Doutorado em História Contemporânea, tem obra vasta sobre o período, destacando-se os livros Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958) e A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo (1926-1987), ambos galardoados com o Prémio de História Contemporânea Victor de Sá. Co-organizou os livros A Globalização no Divã (2008) e Construção da Nação e Associativismo na Emigração Portuguesa (2009). O seu livro mais recente é A Leitura Pública na I República (2010).

Sobre o livro A Cultura Popular no Estado Novo, que integra a nossa colecção Biblioteca Mínima de História, dirigida por Rui Bebiano, ouvimos o autor. Esta entrevista abre uma série de entrevistas a autores de volumes publicados nas várias séries da Biblioteca Mínima.

P. A sua análise daquilo a que chama «a imposição à sociedade portuguesa de um modelo nacionalista, ruralista e tradicionalista de cultura popular» (p. 121) dá a ver, por um lado, a identificação do próprio Salazar com a matriz rural desse «popular» e, por outro, «o logro de sustentar a especificidade de uma cultura popular concebida autarcicamente e de modo pretensamente abstracto» (id.). O Estado Novo, como diz, centrou os seus esforços de produção de uma cultura popular no elemento rural, ao qual se deveriam as tradições que nos distinguem como Nação. Mas se, como nota, não há cultura popular realmente específica, uma vez que as características genéricas da sociabilidade humana e do processo civilizacional são comuns a todas as culturas, isso significa que não é possível fundar e legitimar a Nação sobre a «cultura popular». Mais latamente, isto significa que uma Nação não se legitima por uma forma qualquer de cultura, seja ela popular ou não?

R. Não necessariamente, basta constatar como os regimes nacionalistas o souberam fazer, incluindo o Estado Novo português. Essa cultura popular oficialmente estimulada, sustentada, foi, de facto, uma ‘almofada’ social, na medida em que funcionava como contraponto às alterações tecnológicas, económicas, sociais (e culturais) em curso (ainda que estas decorressem de modo mais lento do que nos países mais industrializados e/ou abertos). Um conforto existencial face aos receios que a mudança pode compreensivelmente despertar. Mas, de par, um pilar ideológico, guia da acção e inculcador de certos valores, práticas, vivências e comportamentos, fortemente unidimensionais.

Agora, se falarmos em países democráticos, parece-me que a própria concepção de democracia – assente no pluralismo, na cidadania, no desenvolvimento, etc. –, implica a saída do Estado do espaço de determinação ou imposição duma cultura oficial, ainda que desenvolva (e deva desenvolver) uma política cultural sólida. O que importa aqui é criar condições para a afirmação do pluralismo, para a autoformação e emancipação dos cidadãos e para a criação duma esfera pública diversificada, crítica, exigente.

Digamos que, a existir uma cultura nacional, ela resultará necessariamente das interacções entre Estado, mercado e sociedade civil, e advirá em boa medida da interdependência entre fontes mais localizadas, ‘comunitárias’ (à escala local, regional, nacional, das diásporas) e mais universais, cosmopolitas. Donde, uma cultura essencialmente cívica, assente nos valores da res publica e da democracia integral, a um tempo política, económica, social e cultural. Não sei se fui claro, mas o que atrás disse não invalida que existam especificidades culturais, singularidades próprias de cada país, para falarmos num território concreto. Contudo, isso não chega para definir a cultura de cada país. Seja hoje, seja num passado recente. Porque a globalização cultural, civilizacional, etc., ou seja, a interdependência de culturas, não começou hoje (ou recentemente), foi acontecendo ao longo de séculos.

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Semanário Registo, edição 136, página 21

Uma análise de A Cultura Popular no Estado Novo de Daniel Melo, na edição 136, do semanário Registo.

Abel Barros Baptista: a vocação cosmopolita da literatura

Abel Barros Baptista, professor de literatura brasileira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, publicou na Angelus Novus um volume de crónicas, A Infelicidade pela Bibliografia (2001), organizou e posfaciou um volume do grande ensaísta brasileiro Antonio Candido, O Direito à Literatura e outros ensaios (2005), e organizou dois volumes da colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa: um sobre A Cidade e as Serras (2001), de Eça de Queirós, e um outro sobre o Amor de Perdição (2009), de Camilo Castelo Branco.

Acaba de sair o seu mais recente livro na Angelus Novus, intitulado De Espécie Complicada. Ensaios de Crítica Literária. Sobre o volume, que inclui alguns dos grandes ensaios sobre literatura escritos em português na última década, ouvimos o autor.

P. Este livro abre com um ensaio sobre o ensaio, no qual se defende que «o ensaio não é o conhecimento disfarçado de literatura – é a literatura disfarçada de reflexão, análise, conhecimento». E esse texto encena um conflito entre o ensaio e a teoria literária, que estaria patente desde logo no facto de a teoria não ter concedido ao ensaio a mesma atenção que concedeu aos géneros canónicos e maiores desde Aristóteles ou na modernidade. O ensaio seria por um lado objecto de estudo da teoria e competidor, pois ambiciona também descrever a literatura. Esta, por seu turno, incapaz de se autodescrever, deixar-se-ia encantar por quem exibisse «o melhor domínio sobre a forma de proceder com a inteligência». A retórica desta frase parece ao serviço de uma erótica do saber, mais do que de uma epistemologia: exibição, domínio da forma de proceder, não «com inteligência» mas «com a inteligência». O ensaio seria, nesta distribuição do trabalho, o erotismo e a dépense, enquanto a teoria seria a mais-valia e a razão instrumental?

R. Não estou certo de que haja uma «distribuição de trabalho». Seria mais o oposto disso… Esse ensaio foi escrito para um apresentação num colóquio sobre «Poéticas do Ensaio» (Ponta Delgada, 2009; as respectivas actas estão já disponíveis, em edição do Centro de Literatura Portuguesa/Universidade de Coimbra, 2010). O problema que me coloquei na partida era este: o que fez a teoria literária pelo ensaio? O tal conflito entre ensaio e teoria é encenado para tentar explicar que razões impediram a teoria de fazer pelo ensaio o que fez pela poesia ou pela narrativa. Aliás, quando os termos da pergunta incluem «encenar», conviria ler a palavra quase literalmente, porque a encenação coincide com a análise do conto «A Carta Roubada», de Edgar Poe, com alguma tradição no debate teórico recente, e que eu «enceno» como alegoria duma rivalidade entre o ensaio e a teoria. Graças a essa análise, creio que o meu ensaio é ao mesmo tempo um argumento e uma ilustração da respectiva fragilidade, ou seja, é um ensaio no próprio sentido em que ele mesmo designa a espécie. Porque o problema que o meu texto defronta é antes do mais o da sua espécie: como falar do ensaio num texto que seja (ou não seja) um ensaio? Daí a primeira opção, a que recusava organizar o texto como mera elaboração de um argumento, experimentando então uma forma de entender o termo «poética» mais etimológica mas não menos envolvida nos caminhos contemporâneos: a ideia era «fazer» (um ensaio) e reflectir sobre esse «fazer». Em  certo sentido esta opção organiza o texto em jeito que ilustra a rivalidade que encena: qual a melhor forma de falar da literatura? O ensaio torna-se frágil porque é uma forma ainda literária de falar da literatura, e forma que invade e mesmo se dissolve nos géneros literários com que a noção de literatura objecto da elaboração teórica se forma. O problema do ensaio diante da teoria é assim o problema da possibilidade de a literatura se conhecer a si mesma. O que digo nesse ensaio é que a teoria pressupõe essa capacidade na literatura e ao mesmo tempo, sendo teoria dela, pretende guiar e vigiar a literatura no processo de atingir o «bom» conhecimento de si mesma. Ora, entre todas as formas de desviar a literatura do «bom» conhecimento de si mesma, o ensaio constitui a melhor forma de proceder com a inteligência. Eis o cerne da rivalidade. Noutros termos, seria como reencenar, depois dos formalistas russos, a antiga rivalidade entre filosofia e poesia. Isto significa que nenhum ensaio pode ignorar a teoria e que a teoria não pode esquecer ou sequer negligenciar o ensaio sem deixar de ser teoria — ao menos teoria da literatura.

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Cerimónia de atribuição dos Prémios PEN Clube, na Sociedade Portuguesa de Autores, 10 de Janeiro de 2011

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O Autor Manuel Gusmão (cimo e esquerda) e Autoras e Autores premiados.

 

Manuel Gusmão, Prémio PEN de Ensaio

Manuel Gusmão recebe hoje, na Sociedade Portuguesa de Autores, pelas 18 h, o Prémio PEN Clube de Ensaio (ex aequo com Fernando Guimarães) pelo seu livro Finisterra. O Trabalho do Fim: ReCitar a Origem. Sobre a obra, muito justamente premiada, recordamos as palavras muito elogiosas de Pedro Mexia e António Guerreiro.

Ao Autor apresentamos as nossas saudações, neste dia especial.

A Cultura Popular no Estado Novo n’os meus livros

O número 94, de Janeiro 2011, da revista os meus livros apresenta em quatro esclarecedoras secções a obra de Daniel Melo:

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2010: Um ano fausto para a Angelus Novus

No ano de 2010, dois autores da Angelus Novus viram os seus livros premiados.

Vítor Aguiar e Silva, grande figura dos estudos camonianos e da teoria da literatura, conquistou o Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo seu livro Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia.

Quanto a Manuel Gusmão, autor de uma vasta e significativa obra no domínio do ensaio e da poesia, com Finisterra. O Trabalho do Fim: ReCitar a Origem conquistou o Prémio de Ensaio do PEN Clube, ex aequo com Fernando Guimarães.

A Angelus Novus viu assim confirmado, no ano passado, o seu estatuto de editora de referência, estatuto que, estamos certos, o ano de 2011 virá reforçar.

Mapa 35, sobre «Doutor Avalanche»

Sobre «O Formato Mulher»

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O Formato Mulher de Anna M. Klobucka continua a alimentar uma considerável produção crítica. Desta vez destacamos o analítico da autoria de Claire Williams, The woman’s format or women studying lusophone women representing women, publicado no Journal of Romance Studies, volume 10, número 2, Verão 2010, p. 107-115 e cuja autorização de reprodução agradecemos.

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Ler + ler melhor, com Rui Manuel Amaral

PROMOÇÕES DE NATAL !!!!!

Revista de cultura galega GRIAL sobre Isabela Figueiredo (número 187, pág. 105-106)

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A revista de cultura galega GRIAL publicou um texto de Alberte Valverde sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo com o título “Un disparo ao eurocentrismo”. Começa assim:

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«Assessoria de Imprensa : questões, contextos e práticas»

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Um guia para as relações entre a empresa e os Órgãos de Comunicação Social. Uma indispensável ferramenta de gestão.

Dois novos números na coleção «Experimente no Sofá», disponíveis a partir de hoje.

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Com respeito ao fuzilamento dos dois prisioneiros, limito-me a dizer que é muito nobre, muito justo, muito alevantado, sustentar os princípios da mais acrisolada filantropia e humanitarismo num parlamento, numa assembleia qualquer, numa redacção de jornal, entre concidadãos nossos que pensam e sentem como nós e ainda por cima mantidos em respeito por numerosas forças do Exército, da Armada e da Polícia militar e civil; é porém muito diferente o caso em que se achavam 50 brancos no meio de cerca de 3.000 pretos ainda ontem nossos inimigos. Se não mandasse matar ninguém, todos os cafres suporiam que ainda tinha medo do Gungunhana e voltariam a dizer: – Português é mulher, não mata ninguém. – Esta é a maneira bárbara e absurda como eles encaram as coisas.

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Na Grande Cidade, um homem pode desaparecer tão súbita e completamente como a chama de uma vela que é apagada. Todas as agências de inquirição – perdigueiros de pistas, cães de caça dos labirintos da cidade, detectives de armário das teorias e da indução – serão então convocadas para a busca. Na maior parte das vezes, o rosto desse homem não será visto nunca mais. Nalguns casos, ele reaparecerá em Sheboygan ou nos territórios selvagens de Terre Haute, referindo-se a si mesmo por um dos sinónimos de “Smith,” e sem memória de quaisquer acontecimentos até uma dada altura, incluindo a conta no merceeiro. Noutros casos descobrir-se-á, depois de se drenarem os rios e de se baterem os restaurantes para saber se ele estará porventura à espera de um belo bife de vaca, que ele se mudou para a casa do lado.

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De Espécie Complicada : ensaios de crítica literária, já disponível!

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A Prisão do Gungunhana # 9

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O sistema a seguir quanto a mim baseia-se no estado social destes povos. Como todos sabem, não podem ser mais simples nem rudimentares as poucas instituições que têm, por isso uma legislação complexa e uma regulamentação minuciosa serão sempre inadequadas aqui. Por agora parece-me se lhes deve deixar ter o sistema de governo mais simples, o único que eles conhecem e compreendem, uma autoridade única a mandar sem peias de espécie alguma. Os princípios liberais, os direitos do cidadão, a completa separação dos poderes, há muito quem pense que foram prematuramente aplicados a Portugal; calcule-se o que seriam aqui.

pág. 48

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A Prisão do Gungunhana # 8

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Com respeito ao fuzilamento dos dois prisioneiros, limito-me a dizer que é muito nobre, muito justo, muito alevantado, sustentar os princípios da mais acrisolada filantropia e humanitarismo num parlamento, numa assembleia qualquer, numa redacção de jornal, entre concidadãos nossos que pensam e sentem como nós e ainda por cima mantidos em respeito por numerosas forças do Exército, da Armada e da Polícia militar e civil; é porém muito diferente o caso em que se achavam 50 brancos no meio de cerca de 3.000 pretos ainda ontem nossos inimigos. Se não mandasse matar ninguém, todos os cafres suporiam que ainda tinha medo do Gungunhana e voltariam a dizer: – Português é mulher, não mata ninguém. – Esta é a maneira bárbara e absurda como eles encaram as coisas.

pág. 38-39

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A Prisão do Gungunhana # 7

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Cerca das 9h (a. m.) chegámos a Zimacaze. Embarcada a força europeia e os presos, toda a gente de guerra formou ao longo da margem direita do rio. Levantei a bordo 4 vivas a El-Rei, à família Real, à Armada e ao Exército, entusiasticamente correspondidos pelas praças da Marinha e do Exército que estavam armadas e debaixo de forma no spare-deck e em seguida a gente de guerra soltou três bayetes, saudação que eu lhes tinha feito explicar se dirigia naquela ocasião a El-Rei. Depois cantaram o “Incuaia”, acabando por uma torrente de insultos da mais requintada torpeza, àquele de quem havia poucos dias tremiam com medo.

pág. 37

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«Doutor Avalanche» na Fnac Chiado de Lisboa

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ouvir podcast

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A Prisão do Gungunhana # 6

 

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Perguntei ao régulo por Quêto, Manhune, Molungo e Maguiguana. Mostrou-me Quêto e o Manhune que estavam ao pé dele e disse que os outros não estavam.

Exprobei a Manhune (que era a alma danada do Gungunhana) o ter sido sempre inimigo dos portugueses, ao que ele só respondeu que sabia que devia morrer. Mandei-o então amarrar a uma estaca da paliçada e foi fuzilado por 3 brancos. Não é possível morrer com mais sangue frio, altivez e verdadeira heroicidade; apenas disse sorrindo que era  melhor desamarrá-lo para poder cair quando lhe dessem os tiros. Depois foi Quêto. Ele fora o único irmão do Muzila que quisera a guerra contra nós e o único que fora ao combate de Coolela. Não tinha vindo “pegar pé”, como tinham feito Inguiusa e Cuio, seus irmãos.

Dizendo-lhe eu isto, respondeu que não podia abandonar o Gungunhana a quem tinha criado como se fora pai, retorquindo-lhe eu: que a quem desobedecia e fazia guerra ao Rei de Portugal, deviam pai, mãe e irmãos abandoná-lo. Mandei-o amarrar também e fuzilar. Estas duas execuções produziram na guerra preta um entusiasmo indescritível que manifestaram com ruidosos e repetidos bayetes o que mostra bem que eles confundem perfeitamente a força e coragem com a crueldade e que é absolutamente necessário destes exemplos para os dominar e fazermo-nos respeitar.

Veio então a mãe do régulo, Impiucazamo, arrastando-se de joelhos, pedir-me que não matasse o filho nem o Godide, que ambos ela criara. Esta mulher mostrara-se sempre amiga dos portugueses e muito oposta à guerra. Disse-lhe que acerca do régulo só o Rei podia resolver, mas que o Godide seria poupado e acompanharia o pai por ela ter pedido; e quanto a ela, por ter sido sempre amiga dos portugueses, podia voltar para a sua povoação que eu a ninguém consentiria lhe fizesse mal.

pág. 33

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A Prisão do Gungunhana # 5

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Era uma espécie de cidade santa dos vátuas e deviam ter-se ali passado cenas de grande carnificina, tanto antigas como muito recentes, porque ao aproximarmo-nos da povoação, encontrámos algumas caveiras humanas ao mesmo tempo que se sentia um cheiro muito intenso a carne podre e os pretos disseram depois que no mato estavam vários cadáveres. Dava ingresso na povoação uma única entrada de não mais 0,40 m de largura. Corri para aí à frente dos brancos, ao passo que o círculo dos pretos se ia apertando a pouco e pouco. Entrei na frente seguido pelo tenente graduado Couto, Dr. Amaral, 1.º tenente Miranda e intérprete. Julguei, logo que entrei, que o régulo se defenderia, porque vi encostados à paliçada do lado interior alguns pretos com espingardas, parecendo preparar-se para fazer fogo. Como trazia a espada na mão corri logo sobre eles e ou fosse porque já tivessem de todo perdido a força moral, ou por verem logo atrás de nós a testa da coluna que derrubara as estacas laterais da entrada, é certo que nenhum fez fogo, deitando todos a fugir e sumindo-se nas palhotas. Este acto de cobardia dos pretos foi providencial, pois fuzilando-me a 10 m de distância (que maior não era a que me separava deles) teriam provavelmente morto todos os oficiais, os auxiliares teriam fugido logo e as praças brancas, sem ter quem as dirigisse, teriam provavelmente sido trucidadas pelos 250 ou 300 pretos que depois vi que estavam dentro da povoação.

pág. 31

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A Prisão do Gungunhana # 4

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Efectivamente o aspecto do bivaque parecia confirmar o que eu dissera; o tenente Miranda extenuado, abrasado em febre, vomitava constantemente a água com que tentava mitigar a sede; os soldados dormiam estirados sobre os capotes, tão cansados que muitos nem quiseram comer o rancho, embora só tivessem comido bolacha desde as 3 da madrugada; eu mesmo estava deitado e de todo estafado. O Sucanaca dizia que o régulo estava “ainda” muito longe mas tudo me levava a crer o contrário.

Chovera quase toda a noite. Eu pouco tinha dormido e cada vez se enraizava mais no meu espírito a ideia de não voltar atrás senão com o régulo aprisionado ou com a sua cabeça e por isso às 3h (a. m.) mandei levantar as praças e os carregadores enrolar os capotes e marchámos às 4 (a. m.). O tempo melhorara e a gente de guerra logo que ouviu movimento no nosso bivaque levantou-se para nos acompanhar. O terreno continuava a ser descoberto e plano, o chão duro. Apressei a marcha por forma que várias vezes fomos em acelerado.

Apareceram pela nossa frente umas três mangas de guerra, gente que evidentemente estava com o Gungunhana mas cujos chefes vieram a correr declarar que “pegavam pé” e pediam para nos seguir. Essa gente disse que o Gungunhana estava no Chaimite para onde fora a fim de fazer sobre a sepultura do seu avô Manicusse diversas cerimónias para arranjar feitiço que impedisse de descobrir onde ele estava.

pág. 28-29

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Não é um terramoto em Lisboa… é uma dose de Avalanches, e é no dia 4 de Dezembro de 2010

A Prisão do Gungunhana # 3

 

 

Tínhamos assim feito 8 horas úteis de marcha a passo mais que ordinário; estávamos exaustos. Os carregadores só à força de pranchada se conservavam juntos à coluna e até a gente de guerra se sentava com frequência para descansar alguns momentos. Resolvi portanto bivacar um pouco a oeste por saber que ficava ali a lagoa de Motacane.

pág.  26-27

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A Prisão do Gungunhana # 2



Esquecia-me dizer que, transposta a encosta de que atrás falei, achámo-nos numa planície extensíssima e muito descoberta. O solo era duro e com a chuva tornara-se muito escorregadio. A erva não muito alta estava encharcada. Durante a marcha fortes pancadas de água alternavam com um sol abrasador de forma que os oficiais e praças, marchando todos a pé, acompanhando os pretos com uma velocidade não inferior a 10 ou 12’ por quilómetro, ora íamos encharcados em água, ora escorrendo em suor.

pág. 25

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A Prisão do Gungunhana #1

 

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Depois de Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, a Angelus Novus prepara-se para lançar um relatório de cortar a respiração sobre uma campanha em África liderada pelo português Joaquim M. de Albuquerque.

A Angelus Novus publicará diariamente sugestivos excertos extraídos da obra A Prisão do Gungunhana, até ao dia de colocação do livro para venda, começando com o seguinte:

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Daí proveio eu tomar a resolução inabalável de acabar por uma vez com o régulo vátua, fossem quais fossem os recursos com que podia contar, os perigos a correr, e as probabilidades de êxito da empresa. E seja-me lícito neste ponto afirmar que esta resolução, calando fundo no ânimo dos oficiais e praças que me acompanhavam, e evidenciando-se aos indígenas que muito se espantavam da exiguidade das forças de que eu dispunha para uma empresa que se lhes afigurava tanto mais perigosa quanto era grande o medo que o régulo ainda inspirava, foi o principal factor do aprisionamento deste potentado, porque incutiu nas praças um entusiasmo que os fez vencer fadigas e arrostar perigos com uma alegria e boa vontade deveras surpreendente, atendendo para mais ao mau estado de saúde da maior parte.

pág. 19

O amigo e o Kindle

Foto "O Kindle e o amigo", por Rui Bebiano, publicada em "A terceira noite"

 

O nosso é a cores, não se parte, tem cheiro e pode-se usar para endireitar a perna de uma mesa. Ah, e é produto nacional, podendo pois ser usado também como instrumento de luta contra as importações que só aumentam a nossa dívida…

 

(clique na imagem para visualizar o post original, de Rui Bebiano, em “A terceira noite”)

 

Lembra-se deste post?

 

Foi há um ano que publicámos este post.

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Doze meses no top 10 de vendas da Angelus Novus, sete meses dos quais em primeiro lugar; entrevistas à rádio, televisão, publicações periódicas nacionais e estrangeiras; 4 edições; quase 2.000 visitas no YouTube; inúmeras recensões, críticas, posts, documentos académicos depois, eis que a Angelus Novus Editora celebra um ano de edição divulgando mais um excerto áudio do livro Caderno de Memórias Coloniais.

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Um texto sobre a morte de um tempo, lido pela autora.

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ouvir podcast

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Lançamento em Lisboa – 4 de Dezembro de 2010

Rui Manuel Amaral no Diário Câmara Clara

 

O Diário Câmara Clara, magazine cultural da RTP 2, emite, às 22h35 de hoje, uma peça dedicada ao livro Doutor Avalanche.

«Doutor Avalanche» a dar que falar

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Além de manter intacta a inventividade já anteriormente demonstrada, Rui Manuel Amaral aprofunda um conjunto de técnicas narrativas que confirmam o seu talento.

Influenciado por um naipe de venerandos autores como Mário Henrique-Leiria, Rabelais, Swift, Cervantes, Sterne, Fielding ou Gógol, Rui Manuel Amaral vale-se do absurdo para impor uma inventividade a todos os títulos notável que vai muito além da brevidade que pauta estas narrativas, nas quais sobressai uma escrita tão depurada quanto cortante.

Jornal de Notícias – Babel – Sérgio Costa

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Como comprar através do PayPal

 

Tudo o que tem que fazer é:

1- ir ao site do paypal   www.paypal.com
2- registar-se
3- fazer uma transferencia bancária da sua conta para o paypal
4- fazer compras na internet e no site da Angelus Novus usando o paypal gratuitamente e com segurança.

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Disfrute da simplicidade e segurança de um serviço gratuito.

E pronto, agora já pode comprar pela internet!

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«O Avião Saltitão» no Jornal de Letras

 

 

A escrita de Bénédicte Houart, de uma beleza e sensibilidade enterne-cedora, encontra eco nas ilustrações de Sebastião Peixoto, para criar uma deliciosa metáfora onde voar (ou saltitar) é sonhar, crescer, aprender, viver.

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