Uma resenha brasileira do «Caderno de Memórias Coloniais»

Chama-se Anita Moraes, a autora da resenha que alarga o espectro do impacto do livro de Isabela Figueiredo. Publicada em Buala, publicação online dedicada à cultura contemporânea africana, é um momento importante da vasta recepção deste livro, marcante entre todos, sobre o retorno de África (tema que entretanto parece ter sido descoberto pelos especialistas em descobrir a pólvora). Transcrevemos um excerto, com a devida vénia:

A escrita do Caderno, recuperando e expondo uma memória (apagada, silenciada) de brutalidade, instaura um lugar não previsto na ordem colonial, a distância crítica (não é à toa que a autora diz estar traindo o pai com a escrita). Se a faculdade da leitura permitiu à menina cavar uma distância com relação à prisão social em que vivia, contribuindo para que resistisse à posição de vítima e algoz que lhe era imposta, a escrita parece consolidar esse afastamento. Trata-se de elaborar, pela narrativa, uma nova posição diante do passado, consolidando uma perspectiva singular (para além dos discursos prontos dos grupos envolvidos na ordem colonial; para além do silêncio e da vergonha paralisantes).

O texto integral pode ser lido aqui.

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«A Economia das Pensões», no Le Monde Diplomatique

Chama-se «Contra a economia do medo», assina João Rodrigues e é a primeira recensão do volume de Maria Clara Murteira A Economia das Pensões, na série de Economia da Biblioteca Mínima, obra que teve já o seu lançamento na Almedina Estádio, em Coimbra. Com a devida vénia, anexamos imagem do texto.

Histórias amorais, para crianças e animais – NS (revista do DN/JN), de 16 de Abril de 2011

"A inspiração para criar narrativas breves surge-lhe de todo o lado, seja através de notícias de jornais ou do vizinho da frente."

«Caderno de Memórias Coloniais» por Anita Moraes (USP/FAPESP)

Anita Moraes é uma jovem professora da Universidade São Paulo e, dentro em breve, verá  a sua resenha sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, publicada na revista Via Atlântica, nº17, uma revista da USP. Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Ao escrever sobre o que viveu e testemunhou quando criança, a autora se volta a eventos cruciais da história recente desses países: a situação colonial, que brutalizava o africano e a africana; a guerra colonial ou de independência; o 25 de abril de 1974; o 07 de setembro deste mesmo ano; a situação dos colonos depois da independência e seu retorno massivo a Portugal. As esferas pessoal e coletiva surgem ligadas, tornando-se, esta autobiografia de infância, também uma espécie de heterobiografia (como considerou Antonio Candido acerca de Boitempo e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade). Para que a articulação dessas esferas funcione no livro, destacam-se algumas estratégias de composição: 1) a linguagem crua e por vezes elíptica; 2) a construção de metáforas e metonímias; 3) o recurso a situações emblemáticas; 4) o destaque do corpo; 5) a metalinguagem.

(…) O Caderno de memórias coloniais capta, assim, de maneira aguda, a brutalidade e perversidade desta sociedade extremamente racializada. Ao expor a amplitude da violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, o Caderno serve como antídoto à velha ideologia, que ainda sobrevive de várias formas, do “bom colono (ou da boa colona) português (portuguesa)”.

Pedro Mexia sobre «De Espécie Complicada», de ABB

No sábado passado, edição de 26 de Fevereiro, Pedro Mexia publicou no «Atual», do Expresso, uma substancial resenha sobre De Espécie Complicada, de Abel Barros Baptista, sob o título «Hospitalidade incondicional». Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Este ‘De espécie complicada’ reúne nove ‘ensaios de crítica literária’, e o primeiro deles investiga precisamente o que é isso, o ‘ensaio’. A ‘teoria’, que dominou os estudos literários nas últimas décadas, tem prestado menos atenção ao ensaio do que aos outros géneros. Isso deve-se ao facto de o ensaio não ser exactamente um ‘género’, talvez só uma ‘atitude’? Ou tem a ver com uma certa competição entre a teoria e o ensaio? (…)

A ‘teoria’ desconfia do ensaio porque o vê como um competidor no modo de conhecimento da literatura; mas o ensaio leva de algum modo vantagem, pois representa a literatura enquanto conhecimento de si mesma. Daí que Barros Baptista proponha esta fórmula: o ensaio não é conhecimento disfarçado de literatura, mas literatura disfarçada de conhecimento. É esta concepção estimulante do ensaio que torna Abel Barros Baptista um ensaísta essencial. Isso e a maneira como desfia um argumento, em demonstrações luminosas ou em interpretações vertiginosas, e sempre num português impecável.

Talvez por esta boa descrição do talento do autor, a pontuação que Pedro Mexia atribui ao livro de Abel Barros Baptista – 4 estrelas – só pode suscitar a nossa (total) discordância. Mais-a-mais em tempo de banalização das 5 estrelinhas a tanto pseudo-ensaio…

Uma resenha do «Caderno de Memórias Coloniais»

«Aquele que é, indiscutivelmente, um dos momentos álgidos do ano 2010 na república das letras de Portugal – a publicação do livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo –, mostra-nos como a grande literatura continua a ser um ‘acontecimento’. De facto, este volume de pequenas dimensões levou todo o ano a fazer diferença, que é como quem diz, a produzir tempo, tanto na vida como na arte literária em língua portuguesa. Não é de somenos importância o facto de ter, na origem, um conjunto de pequenos textos que a autora, conhecida blogger, foi publicando no weblog ‘O Mundo Perfeito’. Não é de somenos importância, para os anos vindouros, a polémica que gerou, potenciada pela net como tecnologia da expressão e da voz, alimentada depois na imprensa escrita e projectada pelos meios audiovisuais. Não é de somenos importância, enfim, a quase imediata saudação da autora e do volume, nos meios académicos, como sendo uma das realidades mais sólidas da literatura portuguesa actual. Escrita que vive da e na problematização do género autobiográfico, que se situa no afiado gume de todo o exercício de memória individual e colectiva, na literatura de Isabela Figueiredo bate o coração da dor e da beleza. Dor e beleza no âmago da intimidade familiar vivida na década de 60 e princípio de 70 em Lourenço Marques, onde a autora nasceu em 1963: a memória afectiva de uma Filha cujo Pai, electricista branco estabelecido em Moçambique, é tanto a presença sensível sem imagem do amor incondicional, como a figura – a imagem, precisamente – da dominação colonial portuguesa em África no tempo histórico da longa Ditadura. Eis a figura do Pai, que também na materialidade do corpo re-presenta o ‘colonialismo’: “O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável” (p. 60). O livro, assim, enfrenta-nos de modo brutal – e é brutal, não esqueçamos, a arte maior, o belo incondicional – com o desgarramento da sensibilidade e do sentido inerente à missão que a Filha fez sua: dizer o nome do Pai e fazê-lo em nome do Pai. Ou, de outro modo, a violência que sobre a palavra, sobre a escrita, exerce o mandato de dizer a verdade. Dizer a terrível verdade do Pai, dizer a terrível verdade do tempo português, e do fim do tempo português, em África. Como apontamento necessariamente breve, gostaria de anotar que este ‘caderno’ nos permite pensar o que seja o ‘político’ na sociedade portuguesa posterior à descolonização em 1975. Assim, a dor doméstica – íntima, familiar – é indiscernível dessa outra domus que é a sociedade portuguesa como comunidade, esse projecto e realidade de vida ‘em comum’ em democracia. Como já foi amplamente lembrado, demos e daemon provêm de uma mesma raíz etimológica: enfim, ‘união’ e ‘desunião’ são presenças irredutíveis na produção do ‘político’. O que, neste sentido, o livro de Isabela Figueiredo nos devolve, é o nó górdio que faz e desfaz a realidade e a promessa da democracia portuguesa pós-25 de Abril e que, ainda hoje, é assolada pela memória do Império colonial. Um colonialismo que se sustentou no objecto dificilmente representável do racismo, com alicates e tenazes que continuam a des-unir a república portuguesa no ano de 2010. É tanto esta dor como a vontade insubornável de beleza que lemos nos Cadernos de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, autora de uma escrita ‘tocada’ pela impossível língua de uma infância em África. É o ‘ter estado lá’ que detona a arte de contar, a arte da memória: “Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar nela. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar” (p. 103). A literatura, lemos em Isabela Figueiredo, é um vestido branco que é azul.»

PEDRO SERRA

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

Um resenha de «Dois diálogos entre um padre e um moribundo»

«A editora Angelus Novus, de Coimbra, criou este ano uma nova colecção, “Experimente no Sofá”, constituída por livros de pequena dimensão, destinados precisamente a uma leitura rápida e estimulante. Promete-se a publicação de A prisão do Gungunhana, de Mouzinho de Albuquerque, e de Os primeiros relatos de Fátima, mas, para já, estão disponíveis os dois volumes iniciais: Dois diálogos entre um padre e um moribundo, do Marquês de Sade e Nuno Júdice, e Quinze dias no deserto americano, de Alexis de Tocqueville.

Destaquemos o primeiro, justamente por se tratar do volume inaugural da colecção. O texto do divino Marquês, “Diálogo entre um padre e um moribundo”, terá sido escrito em 1782, mas foi apenas publicado em 1926, ou seja, numa época muito mais tolerante do que aquela em que foi produzido. No entanto muitas das objecções à possibilidade da existência de um Deus omnipotente e misericordioso avançadas pelo moribundo ateu mantinham, como ainda mantêm, plena actualidade. Se Deus é o criador do universo, “quem tudo fez, tudo criou”, como sustenta o sacerdote, por que motivo teria criado, pergunta o moribundo, “uma natureza corrupta”.

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Semanário Registo, edição 136, página 21

Uma análise de A Cultura Popular no Estado Novo de Daniel Melo, na edição 136, do semanário Registo.

A Cultura Popular no Estado Novo n’os meus livros

O número 94, de Janeiro 2011, da revista os meus livros apresenta em quatro esclarecedoras secções a obra de Daniel Melo:

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Revista de cultura galega GRIAL sobre Isabela Figueiredo (número 187, pág. 105-106)

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A revista de cultura galega GRIAL publicou um texto de Alberte Valverde sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo com o título “Un disparo ao eurocentrismo”. Começa assim:

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«O Avião Saltitão» no Jornal de Letras

 

 

A escrita de Bénédicte Houart, de uma beleza e sensibilidade enterne-cedora, encontra eco nas ilustrações de Sebastião Peixoto, para criar uma deliciosa metáfora onde voar (ou saltitar) é sonhar, crescer, aprender, viver.

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No Notícias Magazine

Os nossos livros em Os meus livros

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“Sem medo de escrever bem” é o título do destaque feito pela revista Os meus livros aos dois primeiros números da colecção Aviãozinho. E começa assim:

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A Angelus Novus estreia-se na edição de literatura infantil com dois livros ilustrados, escritos pela poeta Bénédicte Houart, que dá voz a narrativas universais e intemporais. Tudo nestes dois livros, do tamanho à ilustração, passando pelo rigor linguístico…

 

«Vermelho Rouge»: Rui Bebiano sobre «A Esquerda Radical»

Rui Bebiano, autor da Angelus Novus e director da série de História da Biblioteca Mínima, acaba de publicar no seu A Terceira Noite um post obrigatório sobre O Essencial sobre A Esquerda Radical, o muito recente livro de Miguel Cardina.

Em 7 pontos, a melhor introdução possível à leitura de um volume apresentado por Bebiano como «uma eficaz síntese sobre a intervenção cívica, durante os derradeiros anos do Estado Novo, de um sector da oposição que até agora tem sido referido num registo meramente memorialista e autocomplacente, ou ao nível da boutade sobre o «tenebroso» passado político de Fulano, Sicrano ou Beltrano.»

Chama-se (e bem) Vermelho Rouge.

António Carlos Cortez sobre «Jorge de Sena e Camões»

No último número do JL (10-23 de Março 2010), António Carlos Cortez publica uma longa recensão do livro de Vítor Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões, que descreve como «um volume de leitura obrigatória». Transcrevemos, com a devida vénia, um excerto significativo do texto intitulado «Vítor Aguiar e Silva: Camões e Jorge de Sena»:

A monumentalidade das informações sobre Jorge de Sena (quanto ao pensamento crítico deste e seu inestimável valor no âmbito da camonologia) e Luís de Camões (…); a justeza e a justiça com que Vítor Manuel de Aguiar e Silva escreve, com o cabal conhecimento que toda a academia lhe reconhece, bem como leitores menos familiarizados com o âmbito da sua investigação ao longo de mais de 40 anos de exercício crítico e ensaístico, fazem deste Camões e Jorge de Sena, a mais recente compilação de estudos do autor de Camões. Labirintos e Fascínios, um volume de leitura obrigatória para todo aquele que almeje compreender o magistério de Jorge de Sena no campo dos estudos camonianos e a relevância dos seus inúmeros estudos, muitos deles heterodoxos e revolcuionários, quer no seu, quer ainda no nosso tempo.

«O Formato Mulher», por Eduardo Pitta

No Ipsilon do passado dia 26 de Fevereiro, Eduardo Pitta recenseia O Formato Mulher, de Anna M. Klobucka, livro a que atribui 4 estrelas e que qualifica como «um longo e estimulante ensaio».

Um texto importante na recepção crítica da obra e que pode ler na íntegra aqui.

Algumas reacções mais ao «Caderno de Memórias Coloniais»

O Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, continua a suscitar reacções elogiosas. Eis as últimas. No blogue A Natureza do Mal, Luís Januário aborda o livro, em post intitulado Enfim Isabela. Um excerto:

O livro não tem similar na escrita em português contemporâneo. Uma mulher recorda o pai. E nós podemos ver esse homem, cheirá-lo, sentir-lhe a presença. O livro é sobre uma traição fundamental e sobre uma questão fundamental, que não revelarei aos possíveis leitores.

No site do JL, Luís Ricardo Duarte publica uma recensão do livro, sob o título Uma Infância Colonial, de que extraímos também um pedaço significativo:

Isabela Figueiredo não tem medo das palavras. De contar as coisas como elas eram e como as viu. De desenterrar comportamentos e limpá-los do discurso politicamente correcto. E ninguém escapa ao seu olhar conscientemente inocente, em particular a sua família. Sendo uma autobiografia, não foge às memórias fundadoras da sua personalidade. A descoberta da sexualidade, a sua e a dos seus pais, das discrepâncias sociais, da hipocrisia, das infidelidades, dos preconceitos, dos hábitos e costumes, dos passeios e das esplanadas, do Cinema e da Literatura, essa arma de destruição massiva de irrealidades

P.S. Sem prejuízo de informação mais detalhada nos próximos dias, informamos desde já que no próximo dia 6 de Março, sábado, na FNAC do NorteShopping, Porto, o livro de Isabela Figueiredo será apresentado por Ana Luísa Amaral.

«Outubro», por Ricardo Noronha

No último número do Le Monde Diplomatique (Nº 39, II Série, Janeiro 2010), Ricardo Noronha publica uma recensão instigante de Outubro, de Rui Bebiano. Trata-se de um texto que discute criticamente as posições de Bebiano (sobretudo, o lugar da violência no pensamento comunista e na revolução bolchevique), reconhecendo embora a lógica e sustentação dessas posições. Um texto a ler. Extraímos um excerto da resenha de Ricardo Noronha:

Outubro é permanentemente atravessado por uma tensão problemática, entre a dimensão simbólica resultante do evento que lhe dá o nome – os ecos de Outubro, o imaginário da tomada do poder, a edificação de uma sociedade socialista – e a materialidade do evento propriamente dito – os acontecimentos que tiveram como palco Petrogrado, Moscovo, a guerra civil russa ou o «terror vermelho». Essa tensão não fica resolvida ao longo do ensaio (e é provável que tampouco fosse esse o objectivo do autor), resultando daí a sensação de que a primeira – «o mito de Outubro» – é um terreno mais confortável para Rui Bebiano do que a segunda. O capítulo 4, dedicado aos relatos de viagem elaborados por intelectuais simpatizantes com a revolução russa e amplamente difundidos por todo o mundo, é o mais conseguido do livro, traçando os contornos da simpatia de inúmeros companheiros de estrada para com a experiência soviética, bem como o seu papel na difusão de uma imagem altamente positiva das transformações em curso na URSS.

Pedro Correira, sobre «Outubro»: «Lenine, o herdeiro de Danton»

No Diário de Notícias de ontem, sob o título «Lenine, o Herdeiro de Danton», Pedro Correia escreve sobre Outubro, de Rui Bebiano. Transcrevemos o texto, com a vénia devida:

Um dos mais estimulantes ensaios políticos surgidos este ano em Portugal, assinado por Rui Bebiano, tem como foco central a Revolução de Outubro e o seu protagonista máximo: Vladimir Lenine. É um acontecimento histórico que ainda hoje gera os maiores equívocos e as mais delirantes interpretações. O Avante!, por ocasião do 90º aniversário deste acto fundador do totalitarismo contemporâneo, em Novembro de 2007, considerava-o um “marco maior na caminhada humana pela emancipação”.

A visão de Rui Bebiano, professor de História Contemporânea na Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, não podia ser mais antagónica. Neste seu livro, Outubro (editora Angelus Novus, 102 páginas), o autor desmistifica a figura de Lenine, que “nas várias histórias do comunismo e dos ideais socialistas surge na maioria das vezes tratada de forma bastante benévola ou mistificada”.

A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma “vanguarda revolucionária” para o derrube da “sociedade burguesa”. Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal “foi um putsch militar e não uma insurreição das massas”.

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«Do Cadillac ao Trabant»: «Fantasia Vermelha», por Rui Bebiano

cuba

Rui Bebiano publicou, no último nº da LER (Julho-Agosto), uma resenha de Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez, que entretanto editou também em A Terceira Noite. Reproduzimo-la agora, com a vénia necessária, e permitimo-nos chamar de novo a atenção para a qualidade (de escrita, desde logo) desta revisitação da relação dos intelectuais de esquerda com a revolução cubana, que Ana Bela Almeida tão bem traduziu.

 

Do Cadillac ao Trabant

Iván de la Nuez, ensaísta e crítico de arte cubano residente em Barcelona, percorre, na prosa singular desta Fantasia Vermelha, alguns dos ecos da Cuba revolucionária recolhidos por muitos daqueles para quem esta um dia constituiu um importante factor de atracção. Ao mesmo tempo, oferece uma reflexão estimulante sobre a sua própria condição do intelectual de esquerda na era pós-comunista. No centro do esforço, uma tentativa de rastrear a mitografia construída em redor da paixão e da esperança projectadas a longa distância pela insurreição dos barbudos caribenhos. No termo do exercício, o autor acabará por questionar a perda dessa expectativa e por procurar uma saída para o impasse.

Um velho Cadillac serve de metáfora e ponto de partida, indiciando um olhar projectado sobre a Cuba «de charme» que os guerrilheiros da Sierra Maestra combateram e depois herdaram. Muitos anos depois, reparado sabe Deus como com peças de fabrico soviético, e circulando com formidável estrépito do motor pelas ruas de Havana, o velho automóvel evoca os problemas reais que o regime inaugurado em 1959 jamais foi capaz de solucionar. Em redor, entretanto, uma fantasia imensa foi sendo construída. Esta é olhada por de la Nuez não como imagem enganosa, mas, na senda da proposta de Peter Sloterdijk, como «uma teoria da imaginação produtiva, (…) uma ficção operativa», capaz, a partir de fora, de transformar a ilha num espaço sobre o qual se projectaram sucessivas representações de um mundo que se cria único e admirável. Gente tão diversa quanto Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Ry Cooder ou David Byrne – entre «centenas de atletas da esquerda ocidental» que viajaram até Cuba à procura da sua utopia pessoal – colaborou então, com apego e eficácia, nessa construção tão fictícia quanto poderosa. Prolongada hoje através de uma reinvenção – no trilho dos ambientes de O Nosso Homem em Havana, de Graham Greene – do mundo pré-revolucionário: «carros vintage, vestuário de época, sabor tropical, regresso de sonoridades típicas», que o organismo director do turismo cubano procura aproveitar ao máximo, associando-lhes frequentemente uma evocação voluntariosa do regime e a incondicional admiração por uma endeusada gerontocracia «portadora da verdade». Ficção não partilhada pela generalidade dos cubanos, que, insiste o autor, nela têm participado fundamentalmente como espectadores ou meros figurantes.

Qual o sentido tomado então neste livro pela segunda metáfora, aquela que evoca o ronceiro Trabant, «o pior carro do mundo»? Na actualidade, os velhos automóveis, outrora fabricados na Alemanha de Leste, circulam apenas como curiosidade, continuando a trabalhar graças a peças fabricadas agora por empresas capitalistas. No último capítulo, de la Nuez evoca então alguns dos contornos de um imaginário pós-comunista que identifica como cenário para a construção de uma esquerda domesticada, que já não passa pela utopia um dia reflectida pela revolução cubana. Real mas hoje fora do tempo, como um Trabant.

«O Homem Livre» no Ipsilon: 5 estrelas

hugo

Tardiamente, em relação à data de edição do livro, fez-se ontem justiça no Ipsilon no que toca a O Homem Livre, de Filipe Verde: longa e magnífica entrevista do autor a Gustavo Rubim e resenha deste, cujo teor valorativo (expresso nas 5 estrelas que atribui ao livro) se pode resumir nestas palavras:

O livro de Filipe Verde que a Angelus Novus agora editou, O Homem Livre: Mito, Moral e Carácter numa Sociedade Ameríndia, vai decerto ficar como obra maior da antropologia portuguesa.

Da entrevista, permitimo-nos destacar, com a devida vénia, este excerto:

— Chamas à filosofia de vida dos Bororo “naturalismo ético”. Quer dizer que para eles não há moral sem compreensão da natureza e do lugar dos humanos na natureza? Ou basta dizer que no pensamento Bororo aquilo a que chamamos “moral” não existe?

Bom, não quero, nem conseguiria, resumir aqui o que se condensa nessa ideia de “naturalismo ético”, nem é esse o propósito da pergunta, suponho. Há que ler o livro para ter uma visão da coisa. Mas no essencial dos essenciais trata-se do seguinte: ele designa um corpo de ideias sobre o homem e a acção pela qual o conformar dos comportamentos às necessidades da vida social (ou seja a renúncia à mera lei do desejo e da violência) é concebido não como o resultado de uma aprendizagem cultural ou da submissão a uma coerção social, mas como a expressão e manifestação de propriedades centrais da natureza e dos processos vitais (uma natureza que é a mesma para homens, jaguares e aranhas). Nesse sentido, a compreensão da natureza é o que perfaz o que entre nós chamamos “moral”. Uma moral que está presente, e como!, presente de uma forma que permite conciliar o que nós pensamos inconciliável, isto é, uma  liberdade individual enorme com uma ordem e paz social que roça o que nos vertemos na ideia de utopia, mas uma moral que nunca se chega portanto a formular como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado um coisa, e uma palavra, que com o tempo se foi tornando prescritiva, se casou com a religião e com a filosofia que a ergueram contra a natureza e nos tornaram assim muito inautênticos, cada vez menos livres, ou quando livres sem meios para sequer sermos capaz de a viver de facto, e muito neuróticos.

Existe uma razão adicional para que nos orgulhemos da edição deste livro: o facto de a foto da capa (a famosa foto do bororo «Hugo»), e várias das que ilustram o livro, serem as fotos tiradas por Lévi-Strauss na expedição que mais tarde descreveu em Tristes Trópicos e que reuniu, ainda mais tardiamente, em Saudades do Brasil. O grande antropólogo francês, contactado pela Angelus Novus, e num gesto que o define, cedeu graciosamente as fotos em causa. Por isso também fizemos questão de referir, no próprio livro, que a edição de O Homem Livre ocorria no centenário de Claude Lévi-Strauss, que dessa forma assinalámos, com a inteira concordância de Filipe Verde.

Menina e Moça: «O prazer da leitura»

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Da Biblioteca Lusitana, colecção de clássicos da literatura portuguesa, com texto fixado e anotado pelos melhores especialistas, saíram até ao momento dois volumes: Mensagem, de Fernando Pessoa, em edição de António Apolinário Lourenço, também coordenador da colecção; e Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, por Juan M. Carrasco González, reconhecidamente um dos grandes especialistas na obra, professor na Universidade da Estremadura, em Cáceres. Ainda no corrente ano virá a lume o terceiro volume da colecção, O Soldado Prático, de Diogo do Couto, em edição de Ana María García Martín, da Universidade de Salamanca, já co-responsável pela edição crítica de O Hissope na Angelus Novus.

Acaba de ser editado, em Limite. Revista de Estudios Portugueses e da Lusofonía (Universidad de Extremadura), vol. 2, 2008, pp. 275-277, uma recensão da obra, da autoria de Teresa Araújo, da Universidade Nova de Lisboa. Reproduzimo-la aqui, com a devida vénia.

Uma das obras quinhentistas portuguesas que mais interrogações tem suscitado ao longo dos tempos acaba de (re)aparecer pela mão de um dos seus mais profícuos especialistas. Surge impressa, pela primeira vez, segundo a lição integral do manuscrito conservado na Biblioteca Nacional de Lisboa, sobre o qual Eugenio Asensio chamou a devida atenção há cerca de cinco décadas.

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