Uma resenha brasileira do «Caderno de Memórias Coloniais»

Chama-se Anita Moraes, a autora da resenha que alarga o espectro do impacto do livro de Isabela Figueiredo. Publicada em Buala, publicação online dedicada à cultura contemporânea africana, é um momento importante da vasta recepção deste livro, marcante entre todos, sobre o retorno de África (tema que entretanto parece ter sido descoberto pelos especialistas em descobrir a pólvora). Transcrevemos um excerto, com a devida vénia:

A escrita do Caderno, recuperando e expondo uma memória (apagada, silenciada) de brutalidade, instaura um lugar não previsto na ordem colonial, a distância crítica (não é à toa que a autora diz estar traindo o pai com a escrita). Se a faculdade da leitura permitiu à menina cavar uma distância com relação à prisão social em que vivia, contribuindo para que resistisse à posição de vítima e algoz que lhe era imposta, a escrita parece consolidar esse afastamento. Trata-se de elaborar, pela narrativa, uma nova posição diante do passado, consolidando uma perspectiva singular (para além dos discursos prontos dos grupos envolvidos na ordem colonial; para além do silêncio e da vergonha paralisantes).

O texto integral pode ser lido aqui.

«A Economia das Pensões», no Le Monde Diplomatique

Chama-se «Contra a economia do medo», assina João Rodrigues e é a primeira recensão do volume de Maria Clara Murteira A Economia das Pensões, na série de Economia da Biblioteca Mínima, obra que teve já o seu lançamento na Almedina Estádio, em Coimbra. Com a devida vénia, anexamos imagem do texto.

Histórias amorais, para crianças e animais – NS (revista do DN/JN), de 16 de Abril de 2011

"A inspiração para criar narrativas breves surge-lhe de todo o lado, seja através de notícias de jornais ou do vizinho da frente."

«Caderno de Memórias Coloniais» por Anita Moraes (USP/FAPESP)

Anita Moraes é uma jovem professora da Universidade São Paulo e, dentro em breve, verá  a sua resenha sobre Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, publicada na revista Via Atlântica, nº17, uma revista da USP. Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Ao escrever sobre o que viveu e testemunhou quando criança, a autora se volta a eventos cruciais da história recente desses países: a situação colonial, que brutalizava o africano e a africana; a guerra colonial ou de independência; o 25 de abril de 1974; o 07 de setembro deste mesmo ano; a situação dos colonos depois da independência e seu retorno massivo a Portugal. As esferas pessoal e coletiva surgem ligadas, tornando-se, esta autobiografia de infância, também uma espécie de heterobiografia (como considerou Antonio Candido acerca de Boitempo e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade). Para que a articulação dessas esferas funcione no livro, destacam-se algumas estratégias de composição: 1) a linguagem crua e por vezes elíptica; 2) a construção de metáforas e metonímias; 3) o recurso a situações emblemáticas; 4) o destaque do corpo; 5) a metalinguagem.

(…) O Caderno de memórias coloniais capta, assim, de maneira aguda, a brutalidade e perversidade desta sociedade extremamente racializada. Ao expor a amplitude da violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, o Caderno serve como antídoto à velha ideologia, que ainda sobrevive de várias formas, do “bom colono (ou da boa colona) português (portuguesa)”.

Pedro Mexia sobre «De Espécie Complicada», de ABB

No sábado passado, edição de 26 de Fevereiro, Pedro Mexia publicou no «Atual», do Expresso, uma substancial resenha sobre De Espécie Complicada, de Abel Barros Baptista, sob o título «Hospitalidade incondicional». Com a devida vénia, transcrevemos algumas passagens:

Este ‘De espécie complicada’ reúne nove ‘ensaios de crítica literária’, e o primeiro deles investiga precisamente o que é isso, o ‘ensaio’. A ‘teoria’, que dominou os estudos literários nas últimas décadas, tem prestado menos atenção ao ensaio do que aos outros géneros. Isso deve-se ao facto de o ensaio não ser exactamente um ‘género’, talvez só uma ‘atitude’? Ou tem a ver com uma certa competição entre a teoria e o ensaio? (…)

A ‘teoria’ desconfia do ensaio porque o vê como um competidor no modo de conhecimento da literatura; mas o ensaio leva de algum modo vantagem, pois representa a literatura enquanto conhecimento de si mesma. Daí que Barros Baptista proponha esta fórmula: o ensaio não é conhecimento disfarçado de literatura, mas literatura disfarçada de conhecimento. É esta concepção estimulante do ensaio que torna Abel Barros Baptista um ensaísta essencial. Isso e a maneira como desfia um argumento, em demonstrações luminosas ou em interpretações vertiginosas, e sempre num português impecável.

Talvez por esta boa descrição do talento do autor, a pontuação que Pedro Mexia atribui ao livro de Abel Barros Baptista – 4 estrelas – só pode suscitar a nossa (total) discordância. Mais-a-mais em tempo de banalização das 5 estrelinhas a tanto pseudo-ensaio…

Uma resenha do «Caderno de Memórias Coloniais»

«Aquele que é, indiscutivelmente, um dos momentos álgidos do ano 2010 na república das letras de Portugal – a publicação do livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo –, mostra-nos como a grande literatura continua a ser um ‘acontecimento’. De facto, este volume de pequenas dimensões levou todo o ano a fazer diferença, que é como quem diz, a produzir tempo, tanto na vida como na arte literária em língua portuguesa. Não é de somenos importância o facto de ter, na origem, um conjunto de pequenos textos que a autora, conhecida blogger, foi publicando no weblog ‘O Mundo Perfeito’. Não é de somenos importância, para os anos vindouros, a polémica que gerou, potenciada pela net como tecnologia da expressão e da voz, alimentada depois na imprensa escrita e projectada pelos meios audiovisuais. Não é de somenos importância, enfim, a quase imediata saudação da autora e do volume, nos meios académicos, como sendo uma das realidades mais sólidas da literatura portuguesa actual. Escrita que vive da e na problematização do género autobiográfico, que se situa no afiado gume de todo o exercício de memória individual e colectiva, na literatura de Isabela Figueiredo bate o coração da dor e da beleza. Dor e beleza no âmago da intimidade familiar vivida na década de 60 e princípio de 70 em Lourenço Marques, onde a autora nasceu em 1963: a memória afectiva de uma Filha cujo Pai, electricista branco estabelecido em Moçambique, é tanto a presença sensível sem imagem do amor incondicional, como a figura – a imagem, precisamente – da dominação colonial portuguesa em África no tempo histórico da longa Ditadura. Eis a figura do Pai, que também na materialidade do corpo re-presenta o ‘colonialismo’: “O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável” (p. 60). O livro, assim, enfrenta-nos de modo brutal – e é brutal, não esqueçamos, a arte maior, o belo incondicional – com o desgarramento da sensibilidade e do sentido inerente à missão que a Filha fez sua: dizer o nome do Pai e fazê-lo em nome do Pai. Ou, de outro modo, a violência que sobre a palavra, sobre a escrita, exerce o mandato de dizer a verdade. Dizer a terrível verdade do Pai, dizer a terrível verdade do tempo português, e do fim do tempo português, em África. Como apontamento necessariamente breve, gostaria de anotar que este ‘caderno’ nos permite pensar o que seja o ‘político’ na sociedade portuguesa posterior à descolonização em 1975. Assim, a dor doméstica – íntima, familiar – é indiscernível dessa outra domus que é a sociedade portuguesa como comunidade, esse projecto e realidade de vida ‘em comum’ em democracia. Como já foi amplamente lembrado, demos e daemon provêm de uma mesma raíz etimológica: enfim, ‘união’ e ‘desunião’ são presenças irredutíveis na produção do ‘político’. O que, neste sentido, o livro de Isabela Figueiredo nos devolve, é o nó górdio que faz e desfaz a realidade e a promessa da democracia portuguesa pós-25 de Abril e que, ainda hoje, é assolada pela memória do Império colonial. Um colonialismo que se sustentou no objecto dificilmente representável do racismo, com alicates e tenazes que continuam a des-unir a república portuguesa no ano de 2010. É tanto esta dor como a vontade insubornável de beleza que lemos nos Cadernos de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, autora de uma escrita ‘tocada’ pela impossível língua de uma infância em África. É o ‘ter estado lá’ que detona a arte de contar, a arte da memória: “Vestiam-me e calçavam-me de branco, mandavam-me pisar o raio da terra tão negra e húmida que chiava debaixo dos pés, ou tão vermelha que o verniz ou o couro se pintavam de uma aguarela de sangue claro. Não havia forma de poupar o meu corpo às manchas da terra, contudo estava proibida de me manchar nela. Na minha memória estou sempre vestida de branco, preocupada em não me sujar. O vestido branco que não usei nesse dia é mais clamorosa metáfora da minha vida de pequena colona: uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não pode empoar” (p. 103). A literatura, lemos em Isabela Figueiredo, é um vestido branco que é azul.»

PEDRO SERRA

In SUROESTE. Revista deLiteraturas Ibéricas, Badajoz, nº 1, 2011.

Um resenha de «Dois diálogos entre um padre e um moribundo»

«A editora Angelus Novus, de Coimbra, criou este ano uma nova colecção, “Experimente no Sofá”, constituída por livros de pequena dimensão, destinados precisamente a uma leitura rápida e estimulante. Promete-se a publicação de A prisão do Gungunhana, de Mouzinho de Albuquerque, e de Os primeiros relatos de Fátima, mas, para já, estão disponíveis os dois volumes iniciais: Dois diálogos entre um padre e um moribundo, do Marquês de Sade e Nuno Júdice, e Quinze dias no deserto americano, de Alexis de Tocqueville.

Destaquemos o primeiro, justamente por se tratar do volume inaugural da colecção. O texto do divino Marquês, “Diálogo entre um padre e um moribundo”, terá sido escrito em 1782, mas foi apenas publicado em 1926, ou seja, numa época muito mais tolerante do que aquela em que foi produzido. No entanto muitas das objecções à possibilidade da existência de um Deus omnipotente e misericordioso avançadas pelo moribundo ateu mantinham, como ainda mantêm, plena actualidade. Se Deus é o criador do universo, “quem tudo fez, tudo criou”, como sustenta o sacerdote, por que motivo teria criado, pergunta o moribundo, “uma natureza corrupta”.

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