Questões de etiqueta

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A imagem acima ilustra este excelente post, assinado por (PM), do blogue da Livros de Areia. E tem, como tag, «treta_etiqueta». Difícil fazer melhor.

Exactamente como é difícil escrever um post mais preciso e claro sobre a forma como certas livrarias, «independentes» ou de redes, destratam os livros que vendem. A coisa é sempre desagradável. Mas tem um impacto duplamente negativo no caso daqueles livros que certos editores insistem em não deixar de produzir, e que se distinguem pela sua qualidade de, digamos, manufactura (ou quase). Também a nós já nos sucederam episódios tão traumatizantes como o da ilustração deste post, que dispensa comentários.

Com franqueza, dá vontade de editar antes livros com muito brilho, tão robustos (e grandes!) como o Exterminador Implacável. Às vezes, tem-se a sensação de que o mercado português pede mesmo esse tipo de livros. Que ocupem muito espaço. E, sobretudo, que sejam couraçados o suficiente para poderem resistir

P.S. Sabemos, sim!, que há excepções: a elas, o nosso reconhecimento infinito.

Informação prioritária: tudo OK com o site da Angelus Novus!

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Nos últimos tempos, pequenos mas irritantes problemas informáticos, em grande medida na sequência de ataques por hackers, tornaram o nosso site pouco amigável, como fomos sabendo pelos nossos clientes. Esses problemas foram agora resolvidos, pelo que o site da Angelus Novus está de novo disponível para aquisições por meio do PayPal (o método aquisitivo mais fácil e económico para clientes e empresas). Em todo o caso, em breve informaremos sobre como comprar no nosso site, deixando aqui um post com todos os passos da operação.

Por agora, vimos apenas dar esta informação: o site da Angelus Novus foi consertado e espera por si!

P.S. Vá-nos seguindo aqui pois em breve daremos informação sobre promoções dos nossos livros no site.

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (III)

Qual é o livro de Vergílio Ferreira que prefere? E porquê?

Isso foi variando ao longo do tempo. Como já expliquei, começou por ser o Para Sempre, mas depois de tanto o ler e sem que saiba exactamente porquê gastou-se-me um pouco, para usar um termo caro ao próprio Vergílio Ferreira. Hoje em dia considero o Na Tua Face uma obra-prima completa: a verdade é que é um romance, mas é também um ensaio sobre a fotografia e a pintura e é tudo isso sem que o seja explicitamente. É um romance de uma verdade e de uma precisão inabaláveis e de uma beleza intemporal também. E depois porque contém a mais bela cena de amor de toda a sua ficção – aquela em que o pintor Daniel, depois de visitar a exposição de fotografias que a filha Luz realizou sobre o cadáver do irmão, inventa para a mulher, já cega na altura, uma exposição diferente daquela que ele próprio acabou de ver, para evitar que Ângela «visse» as imagens do filho morto. São (também) momentos assim que fazem um grande escritor.

Uma vez que é professora universitária, pode dizer-nos qual é a reacção dos jovens universitários à obre de Vergílio Ferreira?

Normalmente torcem um bocado o nariz quando percebem que vão ter que ler um escritor consensualmente difícil, mas depois, salvo um ou outro caso, acabam por gostar e alguns deles por gostar muito. É mais uma reacção ao esforço que sabem ser necessário do que ao escritor em si e não reagem de modo diferente a Saramago ou a Lobo Antunes, por exemplo.

Vai continuar a escrever sobre Vergílio Ferreira ou entretanto mudou a orientação do seu trabalho académico?

Deixar de escrever sobre Vergílio Ferreira é difícil, uma vez que há ainda muita coisa a fazer. Gostava um dia de fazer um dicionário sobra a obra do escritor, em colaboração com a Prof. Rosa Goulart, que é uma das maiores exegetas da obra do autor. Temos ambas esse vago projecto, mas outro mais urgente se antepôs a esse, uma vez que estamos a preparar a edição crítica do Onde tudo foi morrendo e esta tarefa, obedecendo à calendarização de toda uma equipa (a que estuda o espólio do escritor, doado à Biblioteca Nacional) acaba por ter prioridade sobre as outras. Mas tirando isto, penso de facto variar o trajecto do meu estudo. Gostaria de escrever um livro sobre a influência de Pessoa na narrativa portuguesa moderna e contemporânea, não na poesia, porque isso de um modo ou de outro já tem sido feito, mas na narrativa. Acho que há aí coisas interessantes a descobrir. Depois há um outro projecto, talvez mais difícil mas também mais aliciante, sobre a revitalização da alba medieval na poesia portuguesa contemporânea, em colaboração com o Prof. Paulo Alexandre Pereira, meu colega. E pelo menos em relação a este último projecto, Vergílio Ferreira não podia estar mais longe…

Agora e sempre, «Monogamia» (I)

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Os Livros Cotovia acabam de editar Going Sane, um dos melhores livros recentes de Adam Phillips, com o título (herdado da muito criativa tradução brasileira) Louco para não dar em louco. É altura de recordar Monogamia (livro e filme), o magnífico conjunto de aforismos com que a Angelus Novus estreou, há apenas alguns meses, o autor em Portugal, numa tradução irrepreensível de Abel Barros Baptista. À venda nas melhores livrarias.

Para ver que não estamos a inventar, aqui fica o fragmento que leva o nº 10:

Como um íman que atrai vícios e virtudes, a monogamia, tal como antes a religião, torna reais as mais amplas abstracções. Fé, esperança, confiança, moralidade tornaram-se agora assuntos domésticos. De facto, a monogamia é a nossa religião secular e por isso a opomos, não à bigamia ou à poligamia, mas à infidelidade. Deus pode ter morrido, mas o casal com fé cumpre a sua obrigação.

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (II)

A sua bibliografia é muito centrada na obra de Vergílio Ferreira. Porquê?

Quando o Para Sempre foi publicado, eu tinha 16 anos e nunca tinha ouvido falar de Vergílio Ferreira, ou pelo menos não me lembro, mas um dia, mais ou menos por essa altura, o meu pai (grande leitor, tal como a minha mãe) disse-me que havia um livro que tinha lá dentro tudo aquilo de que eu tanto gostava nas grandes tardes de Verão da Serra da Estrela, a que a minha família está ligada por vínculos muito próximos. Eu gostava muito de olhar a serra ao entardecer, daquele silêncio e daquele calor e foi quase como uma revelação o momento do meu encontro com aquele romance, assim mesmo dividido entre as páginas do livro e a paisagem em frente da janela. Entrei no universo do autor pela porta do Para Sempre e a verdade é que nunca mais me apeteceu sair, isto sem desprimor algum para outras portas e outras tantas janelas, longe já do horizonte vergiliano, que entretanto se me abriram. Muito mais tarde, quando se tratou de procurar um tema para a minha tese de mestrado, foi mais ou menos óbvio que iria trabalhar sobre Vergílio Ferreira. Assim foi e assim tem sido, inclusivé na minha tese de doutoramento, igualmente dedicada à análise da sua obra.

Como vê o lugar de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa moderna? O tipo de romance que ele praticava, ensaístico, filosófico, questionador, não tem grande tradição entre nós, antes ou depois dele, pois não?

Pois não, creio que não, mas não me parece que isso tenha muita importância ou que possa ser olhado assim de forma tão simplista. É por demais conhecida a ligação de Vergílio Ferreira ao romance existencialista francês e, nesse registo, ele de facto nunca teve muita companhia entre nós, mas o tipo de romance que escreveu não se esgota aí: o Joyce, o Kafka e o Pessoa foram presenças importantes no seu romance e, por essa via, a família do Vergílio Ferreira ganha alguns outros irmãos e outros tantos primos – por exemplo o Lobo Antunes, de que ele infelizmente tão pouco gostava, o Abelaira, o Rui Nunes…

Vê, no nosso panorama actual, algum/a descendente do tipo de literatura que Vergílio Ferreira fazia?

Causa-me sempre algum incómodo este tipo de generalizações, normalmente injustas para os escritores que vêm depois e que legitimamente recusam para si próprios a designação de «epígonos de» ou de «o novo fulano de tal». Vergílio Ferreira não tem epígonos, ao contrário do que acontece com um ou outro escritor das últimas décadas, e creio que há várias razões para isso, mas dito isto, acho que o autor se sentiria bem acompanhado tanto pela Gabriela Llansol como pela Ana Teresa Pereira, o que é, aliás, mais ou menos consensual.

Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (II)

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Publicamos agora as respostas de Luís Oliveira às perguntas de autores e colaboradores nossos. A todos, o nosso muito obrigado.

 

Manuel Portela é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo sido director do TAGV. Poeta experimental e performer, tem obra vasta sobre história do livro e «Digital Humanities». É autor da Antígona e tradutor de algumas das obras maiores do catálogo da editora. Traduziu e escreveu poemas para a Inimigo Rumor e colaborou de várias maneiras com a Angelus Novus. Dirigirá em breve uma colecção na nossa editora.

P: A qualidade das traduções tornou-se também uma referência da Antígona. Qual o lugar e a importância da tradução no projecto da editora?

LO: A qualidade das traduções é essencial numa editora como a Antígona, que vive de autores estrangeiros. Apesar dos nossos parcos recursos, pagamos aos nossos tradutores cerca de 20% mais do que geralmente se paga no mercado. Temos excelentes tradutores, alguns infelizmente mortos, como Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Ernesto Sampaio e Torcato Sepúlveda. Também pagamos aos tradutores uma percentagem determinada nas reedições de algumas obras. Concedemos ao tradutor a força de autor, colocando o seu nome na capa. Fomos, deste modo, os primeiros a reconhecer o real valor do tradutor, um exemplo que não tem sido seguido pela maioria das editoras, que desprezam estes grandes «carpinteiros» da escrita.

 

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Luís Oliveira, sobre os 30 anos da Antígona: «Não serei um aliado do capitalismo…» (I)

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A pedido nosso, Luís Oliveira, editor refractário responsável pela Antígona, respondeu a uma série de perguntas da Angelus Novus e de alguns autores e colaboradores seus. Publicamos neste post as suas respostas às perguntas da Angelus Novus. Deixamos para o próximo a respostas de Luís Oliveira às perguntas dos nossos autores.

 

Angelus Novus: A máscara sardónica que é o logo da Antígona vem acompanhada de uma descrição da casa editorial: «Editores Refractários». Refractários a quê, se nos permite a pergunta?

Luís Oliveira: Somos refractários às leis que regem todo o sistema de opressão em que vivemos. A Antígona resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção.

 AN: O catálogo da Antígona sempre foi muito político, mesmo quando literário (pensamos por exemplo no significado da centralidade atribuída na ficção à obra de Jack London ou George Orwell). O facto de essa política não ser a consensual, mas sim claramente alternativa – radical, marginal, etc. – mostra que há um público para suportar uma editora com um projecto muito definido nessa área?

LO: É evidente que, se não tivéssemos leitores, não existiríamos estes trinta anos, pois não possuímos outros recursos para além das vendas dos nossos títulos. O facto de termos um projecto muito bem definido, nesta e noutras áreas, atraiu um certo público, que se tem mantido fiel às ideias que veiculamos.

AN: Como editor com um projecto muito coerente, sente que o seu público aumentou, diminuiu ou se manteve nestes 30 anos?

LO: O público da Antígona tem sempre vindo a crescer ao longo destes trinta anos. É um público maioritariamente jovem, apaixonado pela nossa linha editorial. A publicação da obra completa de Albert Cossery aumentou exponencialmente o número de leitores mais jovens.

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Manuel Portela: «Antígona: 30 Anos»

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«com a língua de fora

Das muitas coisas que se podem fazer com a língua, passar vinte e cinco anos com a língua de fora é, sem dúvida, uma das menos aconselháveis. Não apenas por revelar obstinada contumácia em tão indecorosa postura, mas também por indiciar multi-resistência às agressões do ambiente sobre o órgão em causa. Resistência ao ar que seca a língua e aos micróbios que por ela transitam, e resistência ao olhar que quer ver a língua no seu lugar, isto é, dentro da boca. Definida pelo dicionário como “corpo carnudo, alongado, móvel, situado dentro da boca, que serve para a deglutição e a fala e que é o principal órgão do sentido do gosto”, a língua é uma das extensões do corpo humano para tocar a superfície do mundo e para partilhar esse toque na comunicação com outrem. Talvez por isso o linguado designe simultaneamente o toque das línguas e as línguas de papel que o tipógrafo compõe. É como se a página impressa beijasse o leitor com a membrana mucosa da escrita. Um cheiro a tinta que, se o não intoxica, o deixa a salivar. Os fluidos simbólicos sempre dependentes dos fluidos corporais e vice-versa.

A tactilidade da língua que o livro é ganha a partir daqui um segundo grau: pela lógica desta metáfora o livro seria então uma língua feita de língua, entendida neste caso através da acepção referida pelo dicionário como “idioma de uma nação”. Sendo assim, o que acontece quando os livros deitam a língua de fora? Duas coisas parecem acontecer. A primeira: o livro estar cansado da correria que o conduziu por mero acaso às mãos do leitor ou da leitora e, nesse respirar ofegante, lançar-lhe um último repto mostrando-lhe a lepidóptera extremidade como quem lhe piscasse o olho. Uma língua malcriada, mas em plena sedução. A segunda: o leitor ou a leitora perceberem que o livro traz na ponta da língua aquilo que neles parecia estar condenado a permanecer para sempre debaixo da língua. A sua língua muda perfurada pelo piercing da eloquência. É neste duplo acontecimento, neste circuito que liga a inquietação do leitor e a inquietação do texto, que o ex-libris da língua de fora completa a operação simbólica que consiste em ligar a caraça a um corpo de textos.» MP, 6 de Outubro de 2004

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Antígona: «Ser Refractário», 30 anos depois

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No final do ano passado, celebraram-se os 20 anos dos Livros Cotovia, editora com a qual a Angelus Novus há muito mantém relações próximas. Agora, neste mês de Junho que acaba de expirar, celebraram-se os 30 anos de uma outra pequena-grande casa editorial portuguesa: a Antígona. A Angelus Novus associa-se à celebração desta data, que é para todos os efeitos uma efeméride no nosso mundo editorial: a da vida, longa de três décadas, de uma casa editorial única, pelo perfil muito marcado do seu catálogo, o mesmo é dizer, pelo seu valor de exemplo: de dedicação, de coerência, de aumento consistente dos critérios de exigência no que toca à realização material dos livros, enfim, de resistência a um meio que parece ter cada vez menos lugar para projectos como o da Antígona, casa auto-declarada de «editores refractários».

Propomos, pois, aos nossos estimados leitores, visitantes e clientes, um exercício que se nos afigura indispensável: em primeiro lugar, o que consiste em reconhecer os méritos da concorrência e em aprender com ela (por exemplo, aprender com a Antígona a intransigência no que toca à «caça à gralha», que faz dos seus livros, nessa matéria, os melhores do país), o que passa por elogiar sem reservas quem o merece, na sequência de uma prática que aqui lançámos há tempos e à qual regressaremos periodicamente; depois, o que implica dar a voz às pessoas que trabalham neste ramo, dialogando com elas sem outra barreira que não a da exigência com que definimos «a nossa família electiva» ou aqueles que, apesar de divergências de programa, nos merecem todo o respeito profissional. 

A homenagem da Angelus Novus à Antígona concretizar-se-á, nos posts que se seguem, (i) num texto de Manuel Portela, nosso amigo e colaborador e autor muito presente no catálogo da Antígona, quer com um grande livro seu, quer com as suas memoráveis traduções de Sterne ou Blake; (ii) numa entrevista a Luís Oliveira, desdobrada em dois momentos: no primeiro, o editor da Antígona responderá a perguntas da Angelus Novus; no segundo, a editora solicitou a um certo número de autores e colaboradores seus que fizessem cada um uma pergunta a Luís Oliveira.  Agradecemos, naturalmente, aos nossos autores e a Luís Oliveira por se terem prestado ao jogo proposto na entrevista.

E agora, sentemo-nos e aguardemos, com bons livros na mão, pelos próximos 30 anos da Antígona.

É já amanhã e é imperdível: The Jills no Pin-Up Bar

A nossa super-banda favorita toca amanhã, dia 3 de Julho, no Pin-Up Bar (R. Sá da Bandeira, 800, Porto), num concerto em que homenageará o Rei da Pop tocando uma (brutal) versão de «Beat It».

Está à espera de quê? E repare bem no que aí vem… Prepare-se para o Super Tour 2009!

Isabel Cristina Rodrigues: entrevista (I)

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Isabel Cristina Rodrigues é professora na Universidade de Aveiro. Na sequência de uma já longa dedicação à obra de Vergílio Ferreira, acaba de editar, na Angelus Novus, o volume ensaístico A Vocação do Lume. Publicaremos, a partir deste post inicial, uma entrevista que a autora nos concedeu sobre o seu livro.

Pode apresentar este livro aos leitores? De que consta, de facto?

Este livro reúne uma série de textos que, ao longo de alguns anos (2000-2005), fui escrevendo sobre a obra de Vergílio Ferreira e que foram sendo apresentados numa série de colóquios, alguns dos quais sobre a obra do escritor. Apesar de todos os ensaios que aqui se encontram terem sido já publicados (em volumes de actas dos referidos colóquios ou em revistas de literatura), pareceu-me que eles apresentavam uma certa unidade e que poderiam, por isso, ganhar com o seu agrupamento num volume único. É claro que, se fosse a escrevê-los hoje, pelo menos em alguns casos a escrita seria já outra, diferente daquela que foi, mas ainda assim não me pareceu oportuno alterá-los em profundidade, pela simples razão de que cada um deles tem a idade que tem, o que significa que têm exactamente a idade que eu tinha ao escrevê-los e assim é que deve estar certo. Por outro lado, a relativa unidade que vim agora a encontrar nestes ensaios mostrou-me que, mesmo sem ter tido disso plena consciência, o trilho que eu persegui, desde o início, na abordagem da obra de Vergílio Ferreira (no fundo, o da manifestação literária do fogo como metáfora do limite e da sua ambivalência) se manteve sempre sem praticamente nenhum desvio de rota, o que não deixa de ser curioso. Apesar de eu não me considerar uma pessoa nada narcisista, este facto se calhar diz mais de mim do que da obra do escritor, mas provavelmente é sempre assim com tudo o que escrevemos. Eu costumo dizer aos meus alunos que, mais do que aquilo que sabemos, ensinamos sempre aquilo que somos e, obviamente, isso é também visível em algo tão pessoal como a escrita.

Pode explicar-nos o título do livro?

De certo modo acabei de o fazer. Como também escrevo na curta nota prefacial do livro, a obra de Vergílio Ferreira foi-se consolidando, praticamente desde o seu início, sob o signo do lume, essa matéria incandescente de que é feito o homem, com as suas inquietações e os seus sonhos, procurando sempre na ambivalente experiência do fogo (que destrói, mas que ilumina e purifica também) uma implícita via de acesso ao sentido. Por isso A Vocação do Lume. A decisão de manter no título a palavra lume em vez de fogo decorre de uma espécie de homenagem que me apeteceu fazer às raízes beirãs do autor, sobretudo às duras invernias da Beira-Alta onde sempre crepitava, por entre rudes panelas de ferro, o lume acolhedor da infância, tantas vezes referido em algumas das suas obras.  Embora as panelas de ferro estejam cada vez mais em desuso, ainda hoje nas franjas da Serra da Estrela ninguém diz «vou acender a lareira», mas «vou acender o lume». E ser beirão, pertencer simultaneamente à dureza e ao silêncio daquela terra foi também para Vergílio Ferreira uma vocação.

A Vocação do Lume

Sobre Cuba: uma entrevista com Iván de la Nuez (II)

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[Concluimos aqui a edição de excertos de uma entrevista de Iván de la Nuéz, autor de Fantasia Vermelha]

 

Ouvi-te uma vez dizer que o momento em que sentiste não teres lugar em Cuba, nem tu nem boa parte da tua geração, constitui a verdadeira tragédia do projecto revolucionário.

Mantenho essa posição. A ruptura com a geração intelectual nascida por volta de 1960 é a crise mais profunda que viveu o projecto socialista cubano. Todas as demais rupturas, anteriores ou posteriores, se realizaram com justificações mais ou menos bem forjadas. As dos anos 60 justificaram-se pelo facto de que se tratava da velha burguesia, adeptos do antigo regime, gente com resquícios capitalistas. A do Mariel*, por tratar-se da ‘escória’, algo como a excrescência da sociedade socialista. As das gerações mais recentes porque são filhos do dólar e das ‘perversões’ e perigos que traz o turismo. Nós, contudo, nem tínhamos nascido sob o regime de Batista, nem tínhamos conhecido o dólar e tínhamo-nos educado de cabo a rabo sob a ideia do futuro perfeito. De modo que só lhes restou esgrimir contra nós o argumento de um desvio clínico. Somos uns monstros sem contorno nem circunstância, subitamente desviados, casos individuais contagiados por uma gripe imprevista ou atacados por uma pontual epidemia de oportunismo.

Outra diferença é que, enquanto em épocas anteriores a ruptura se produziu a partir de um desafecto em relação ao regime, no nosso caso foi o Governo quem praticamente rompeu connosco. Seguramente, pelo facto de que tínhamos actuado com uma permissividade política e estética que outros não tiveram; daí que, mais do que uma proibição do que não se podia fazer, produziu-se uma censura tácita sobre o que já se tinha feito desde a segunda metade dos anos 80.

Era a época da perestroika, da chamada rectificação e da incerteza quanto ao sistema comunista. Hoje não há praticamente uma alta personagem da elite cultural, diplomática ou política cubana que não tenha um filho, ou mais, fora de Cuba. Li, da parte de alguns, muitos horrores sobre nós, mas até hoje não conheço a menor autocrítica, inclusivamente dentro dos preceitos revolucionários, que reconheça que eles falharam nalguma coisa.

No que me respeita, por volta de 1989 senti-me cada vez mais asfixiado. A partir desse ano tornou-se evidente que os propósitos do movimento artístico em que eu acreditava, de que participava, e sobre que escrevia, não encontrariam saída dentro de Cuba. Ou recuava, ou emigrava ou enfrentava medidas legais e políticas muito sérias (as três coisas ocorreram, aliás). De imediato, o que num ensaiozito tinha qualificado como «cultura dissonante» – Arte Calle, Proyecto Castillo de la Fuerza, Paideia; a nova arquitectura; Hacer; Teatro del Obstáculo; o trabalho dos artistas plásticos a partir de Volumen I; Ballet Teatro de la Habana; Estética Práctica, de Arturo Cuenca; o teatro de Carlos Díaz, etc. – passou a ser entendido, por uma zona muito importante do aparelho ideológico, como «cultura dissidente». A ponto de, durante um congresso da UPEC, o todo-poderoso ideólogo de então ter dito, mais ou menos, esta frase: «Há uma oposição muito localizada com a qual talvez possamos discutir, há exilados moderados com os quais podemos abrir canais de diálogo; mas há uma geração muito informada que pensa que há que escutá-la porque são os filhos da Revolução. Com esses… ni cojones!» Eis porque, com 27 anos, optei por ficar, na minha primeira viagem a um país capitalista, e converter-me em «desertor», segundo a nomenclatura migratória cubana. Foi no México, em 1991, aonde chegámos, de supetão, com toda a alegria e anuência oficial, diga-se, uma centena de criadores.

 

*Mariel: cidade cubana cujo porto é o mais próximo dos EUA. Em 1980, na sequência de grave crise económica, e com a conivência do governo castrista, 125 000 cubanos fugiram, em embarcações de segurança duvidosa, para os EUA, tendo alguns morrido na travessia.

Chan Chan

Vieram de antes, muito antes da Revolução, e regressaram, velhos mas esculpidos em bronze, depois do fim dela. Alguns já morreram, ao contrário de Fidel, que resiste. Mas continuam, de Alto Cedro para Marcane, Cueto, Mayari… O percurso todo pode ler-se aqui abaixo ou ouvir-se ali acima:

 

De Alto Cedro voy para Marcane
Llego a Cueto voy para Mayari

El cariño que te tengo
Yo no lo puedo negar
Se me sale la babita
Yo no lo puedo evitar

Cuando Juanica y Chan Chan
En el mar cernian arena
Como sacudia el ‘jibe’
A Chan Chan le daba pena

Limpia el camino de pajas
Que yo me quiero sentar
En aquel tronco que veo
Y asi no puedo llegar

De Alto Cedro voy para Marcane
Llego a Cueto voy para Mayari

O Auditório da Feira do Livro do Porto encheu para ouvir falar de Micro-Ficção

A Sapo Notícias esteve lá:

  

Sapo Notícias Micro-Ficção 

Jose Mario Silva lê CamaRui Manuel Amaral lê As Esplanadas da Baixa

 

 

Curiosa também a selecção de excertos do debate

pelo blog da Feira do Livro:

 

Blogue da Feira do Livro do Porto - Micro-Ficção

 

LEMBRETE – 10 de Junho de 2009, 18:30h, Auditório da Feira do Livro do Porto

Programa oficial da Feira do Livro do Porto 2009

 

É amanhã que Rui Manuel Amaral, autor de Caravana, participará no debate LITERATURA PORTÁTIL: A NOVA MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA, a ocorrer às 18:30h, no Auditório da Feira do Livro do Porto, 2009. Os microcontos de Caravana e muitos outros livros editados pela Angelus Novus encontrar-se-ão  à venda no Clube Literário do Porto.

Revolución en la isla roja!

Sobre Cuba: uma entrevista com Iván de la Nuez (I)

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Ainda a propósito de Fantasia Vermelha, passaremos a transcrever nalguns posts, com a devida vénia, excertos de uma entrevista do autor da obra, Iván de la Nuez, ao site Encuentro. Por extenso, Sitio Web de la Revista Encuentro de la Cultura Cubana. A entrevista é conduzida por Antonio José Ponte.

 

Em livros distintos, em ensaios distintos, referiste-te ao pós-modernismo, ao pós-comunismo, ao pós-capital… Intitulaste Cuba y el dia después uma compilação de ensaístas cubanos.  E deste o título de Paisajes después del muro a uma importante compilação que inclui ensaios de Sloterdijk, Agamben, Habermas, Jameson… Salta à vista, segundo creio, uma obsessão por considerar períodos ultrapassados e falar a partir de um depois. De vários depois, se percorrermos tudo o que escreveste. Obedece isso ao teu respeito pela exactidão descritiva? Ou poderia considerar-se um modo seguro de rotular épocas, a partir das passadas?

Nunca pensei a partir da comodidade nem entendi o ensaio como um território seguro. Embora, é verdade, tenha sido obsessivo. Sucede que para mim escrever, deixar Cuba, ou viver a mudança de milénio, tanto como pensar globalmente os efeitos da queda do comunismo – tudo isso que detectas como obsessões minhas – são acontecimentos simultâneos que não podem separar-se. Assuntos de reflexão intelectual são também processos viscerais. Detonadores que mudaram a minha vida, com a minúscula importância que ela possa ter, mas, ainda assim, deslocamentos descomunais, capazes de desmantelar toda uma época, e o seu pensamento, em apenas vinte anos. De repente, há algo que estala no teu mundo, te arranca da tua situação original, e te coloca abruptamente num futuro para o qual não estás preparado.

Do ponto de vista estritamente cubano, essa tão exaltada e traída transição, de que tanto se fala, pode datar-se de finais dos anos 80, quando os filhos da Revolução, que eram o seu futuro, segundo todos os slogans, não tiveram espaço para levar avante as mudanças que se propunham dentro dela. Mais para lá de Cuba, essa posteridade está determinada pela queda do sistema comunista; pelo momento em que a queda do PC (Partido Comunista) deu lugar à apoteose de outro PC (Personal Computer). Ambas, queda e apoteose, coincidem no mesmo ano de 1989, e instalam-nos por completo num futuro antes muito remoto ou, inclusivamente, só lido, chamado pós-modernidade, pós-comunismo, estado pós-nacional, era da imagem…

Miguel Cardina: Cuba, a ilha imaginária

Miguel Cardina editou, na Angelus Novus, o livro A Tradição da Contestação, sobre a resistência estudantil em Coimbra no período marcelista. Ainda em 2009 editaremos o seu novo livro, uma obra de divulgação sobre a extrema esquerda em Portugal. No site Passado/Presente publicou, à data da edição espanhola do livro, uma resenha do livro de Iván de la Nuez, Fantasia Vermelha, que agora recuperamos, assinalando a nossa edição do livro.

 

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A imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la Nuez – Fantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.

Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica.

O autor esclarece, logo a abrir, que o termo «fantasia» não é utilizado em sentido pejorativo, como uma imagem enganosa, mas sim, na linha de Peter Sloterdijk, como uma «ideia que se faz verdadeira a si mesma, como uma ficção operativa» (p.14). Deste modo, a sedução por Cuba – mais próxima da utopia do que do quotidiano –, foi também a responsável pela criação de ideias que ajudam a explicar a Revolução. Ao mesmo tempo, demonstram um punhado de teorias que pertencem, de pleno direito, à história dos discursos neo-coloniais. Apostadas em aprofundar a crítica ao capitalismo, esta vasta trama de vozes empenhadas raramente esteve interessada em conhecer com profundidade as dinâmicas reais do Terceiro Mundo, como o denunciaram, em tempos e termos diferentes, Conrad, Guevara ou Said.

Se, em 1958, Graham Greene desenvolve, na obra Our Man in Havana – adaptado ao cinema no ano seguinte, por Carol Reed – um retrato paradigmático da Cuba pré-Fidel, na qual se destaca a permissividade erótica, o autoritarismo político e um olhar objectivador sobre as populações, apenas dois anos depois, Sartre inaugura um outro modelo: o de Cuba como o «país heróico da Revolução» (p.53). Na visita de Sartre ao gabinete de Guevara, então ministro de Fidel, um gesto – aquele em que o comandante argentino acende um charuto ao filósofo francês – estabelece simbolicamente a imaginada relação entre intelectuais e revolucionários. Sartre, o homem da teoria, recebe o fogo das mãos de Che, momento que se multiplicou nos anos seguintes, nas «centenas de atletas da esquerda ocidental que viajaram a Cuba, em busca da sua utopia pessoal» (p.10).

Actualmente, a reactualização do fascínio pela ilha tem sido feita através de uma espécie de reinvenção do mundo pré-revolucionário: «carros vintage, vestuário de época, sabor tropical, regresso das sonoridades típicas, a gerontocracia como portadora da verdade» (p.119). Características mais próximas da Cuba de Greene do que da de Sartre. Na opinião de Nuez, a publicidade turística tem vindo a acentuar vertiginosamente este percurso, transformando a paisagem em cenografia e a população em mais um elemento a ser fotografado e catalogado.

Por outro lado, as batalhas antiglobalização e o renovado gosto pelos localismos têm aguçado o interesse pelas origens, processo particularmente visível no campo musical, cujo exemplo maior é a concepção que preside a Buena Vista Social Club, disco e filme de Ry Cooder e Wim Wenders. Desejosos de encontrar formas incontaminadas pelas lógicas de consumo anglo-saxónicas, os novos cubanófilos têm vindo a alimentar uma conduta cultural «reaccionária» (p.18), mais preocupada com as origens e com a pureza, do que com a errância e o cosmopolitismo.

O livro termina com uma deliciosa deambulação na Berlim pós-comunista, onde se cruzam algumas personagens improváveis, como Paul Lafargue, autor de O Direito à Preguiça, cubano «incompreensivelmente não venerado» (p.143) no seu país. Nesta linha, Iván de la Nuez aponta algumas reflexões avulsas sobre a necessidade de recuperar o gozo e o ócio como armas revolucionárias, reconhecendo ao mesmo tempo que não haverá futuro para Cuba que não passe por «eleições plurais, direitos individuais, regresso dos exilados, fim da perseguição por ideias políticas, desmantelamento da censura ideológica, etc.» (p.126). Porque, como afirma Lafargue ao sogro, Karl Marx, numa conversa sobre os limites do cortejamento, «amamos e amaremos a liberdade, incluindo nela os meus ímpetos» (p.142).

Miguel Cardina

A vez dos leitores: Luís Pedroso

Na colecção Microcosmos, da Angelus Novus, cada volume termina com um incitamento aos leitores para que produzam também microcontos. Para esse efeito existem 4 pp. com o espaço previamente delimitado para cada microconto, sendo que o número de linhas vai diminuindo de texto para texto. Um leitor de Caravana, Luís Pedroso, respondeu ao desafio. É esse exercício que publicamos em seguida, agradecendo ao novo microcontista a autorização para publicarmos os seus contos aqui.

 

Montanha Russa

Inácio de Loyola – curioso nome – tinha apenas um prazer na vida: viajar em comboios paralelos a margens, fossem estas de rios, mares ou páginas.
Certo dia sentou-se à sua frente a nuca linda de uma jovem, que lhe prendeu a atenção. Agora que tinha a atenção presa, restavam-lhe livres a vontade e as mãos. Foi então que olhou as mãos da moça, e reparou como eram bonitas – como as dele. Seriam irmãos?
Pousou a mão ao lado da mão do mesmo braço da inocente criatura e disse aos seus dedos esguios:
- À margem das margens, ou fomos feitos para estar juntos… ou não.

 

Bife como um tártaro
 
Apetece-me contar a história de um cozinheiro de literatura e ideias, mas sendo as ideias demasiado fixas, nunca passam de cruas, apenas apropriadas a leitores crudívoros. Curiosamente conheço um crudívoro com unhas feitas de ouro e um gosto voraz por poesia rija. É que a poesia rija não passa de crua. E até conheço outro crudívoro, que por acaso tem uma dentição azul.
Quando se encontrarem certamente se vão devorar e será ouro sobre azul, sem terem que passar pelas mãos recomendáveis de nenhum cozinheiro.

 

Subsídio de férias
 
O Barão de Monte Gordo passou toda a vida as férias no mesmo quarto do mesmo hotel. Certa noite acordou invadido pelo gemido do vento, pela luz da alba e por sonhos excessivamente salgados.
Sentiu-se muito triste e desejou ser um cão que consola o dono. Lamentou, até se cansar, o facto de muitos anos antes não ter escolhido um quarto num andar mais alto.

 

O Divino autocarro
 
Os néctares os laivos os vinhos as horas as crinas as pratas os séculos. Com todo o prazer, a, ante, após, até. O motorista cego leva-nos e diz, sorrindo:
O verbo morrer.

Agora é a vez do Porto!

Começa amanhã a Feira do Livro do Porto, centrada na Avenida dos Aliados mas espalhada por outros pontos da cidade como o Clube Literário do Porto onde estarão à venda os livros da Angelus Novus.
 

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Rui Manuel Amaral, autor da obra de microcontos Caravana, vai participar num dos debates do Programa Oficial da Feira sobre a Nova Micro-Ficção Portuguesa – é no dia 10 de Junho de 2009 no Auditório da Feira.

O que têm em comum Sartre, García Márquez, Régis Debray, Oliver Stone, José Saramago, Wim Wenders, etc.?

 

Veja o filme e leia o livro, por esta ordem. O filme é dos estúdios Angelus Novus; o livro é de Iván de la Nuez, chama-se Fantasia Vermelha, tem como subtítulo «Os Intelectuais de Esquerda e a Revolução Cubana» e é exactamente sobre isso.

Dizer que é uma obra fundamental é uma evidência. Que será necessariamente polémica, é outra.

Ainda a propósito dos Prémios de Edição LER Booktailors, eis um vídeo sobre a obra, a campanha e o prémio:

 

 

Rui Manuel Amaral é publicitário e a forma como a campanha se desenvolveu não será alheia a este aspecto particular do autor. Com escassos meios, Caravana, publicado pela Angelus Novus, conseguiu «furar o ruído», ganhando notícias nos meios tradicionais e não tradicionais (nomeadamente na blogosfera). Apoiada num conjunto de trailers feitos pelo próprio autor − e pouco mais do que uma câmara ao ombro – deu-nos o prazer de conhecer os seus microcontos e de assistir à booktour.

 

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E chegou…

… a Fantasia Vermelha.

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Algumas achegas para reflexão, em alturas de desassossego financeiro internacional, retiradas da nossa mais recente publicação:

   

Não serão suficientes todas as hipotecas adquiridas com o novo sistema capitalista, nem todas as piscadelas de olho para darem um aspecto de normalidade burguesa que consiga maquilhar o “terrível” passado comunista. Nada disso será suficiente para aqueles e aquelas que cresceram e viveram na experiência comunista e que serão para sempre sujeitos incómodos e escrutinados. Porque a colectivização, a sociabilidade, a impudicícia e a promiscuidade foram formas de viver – no socialismo cubano – a liberdade da carne e dos desejos, lá onde o espírito das leis era nulo e longínquo. E também porque saberemos que o desenlace no Gulag e em Auschwitz – para dar dois exemplos extremos a que o comunismo e o capitalismo puderam chegar – é evitável através da supressão do tom explosivo das retóricas que hoje nos falam em nome do Povo, da Causa, da Pátria, ou até da Democracia.

Dupla referência da Minguante à Angelus Novus:

minguanteovelha1      minguantecaravana

A revista Ler acaba de revelar os vencedores dos Prémios de Edição LER Booktailors 2007/08.

Ao autor Rui Manuel Amaral e à editora Angelus Novus é atribuído o prémio de edição: promoção de autor português !  Para descobrir porquê clique aqui, aqui ou aqui.

 

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Autor e Editora agradecem o reconhecimento!

   

            Outros vencedores:

            Tinta da China – prémio especial de edição: editora do ano

            Sextante – prémio especial de edição: editora revelação

            Bibliotecário de Babel – prémio especial de edição: blogue de edição

            Pó dos livros – prémio de edição: livraria independente

  

É já amanhã

   que abre a Feira do Livro de Lisboa. Encontre maneira de visitar!

   

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O jornal Público de hoje

conta com uma breve colaboração de Miguel Cardina num artigo que evoca a crise académica de 1969.

   

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Pelas 18h do próximo dia 23 de Abril

o escritor da Angelus Novus Miguel Cardina vai estar

                 aqui.

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Sobre A Tradição da Contestação pode-se ler a entrevista que fizemos a Miguel Cardina por altura do lançamento do livro aqui e aqui, numa altura em que a Angelus Novus prepara a edição de A Esquerda Radical do mesmo autor.

Vem aí…

                                                                   

                       … a FANTASIA VERMELHA 

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Na noite cubana, um Cadillac…

Assim aparece nos guias turísticos de Havana, nos romances e nos filmes, nos documentários e nas fotografias. Através dessa paixão automotora que chega ao fanatismo, podemos saber que o estilo que hoje define a percepção desse país não vem do surrealismo.

Também não do realismo ou do absurdo (que tantas possibilidades inspirava ao narrador Virgilio Piñera). Nem sequer da épica. Vem do road movie: Sartre, Lester, Hitchcock, Pollack, Wenders, Cooder…