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A Angelus Novus convida-o para um espectáculo ao vivo, no âmbito do VimaRock, com o baterista dos The Jills, Rui Manuel Amaral, e os roadies António Pedro Pombo e Nuno Corvacho, em torno de Caravana.
Na livraria 100ª Página, no Centro de Artes e Espectáculos São Mamede, no próximo dia 12, pelas 18.00 h.
Garante-se conversa, leituras e histeria de fãs.
Para abrir o apetite, uma antevisão da sessão:
Hey hey, my my
Rock and roll can never die
Neil Young [após ter lido Caravana e visto Rui Manuel Amaral tocar bateria]

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Nunca escrevi uma carta aberta. Mas ando com vontade de escrever uma, sem saber bem a quem dirigi-la: à ministra da Educação? Às pessoas que vão reformular os programas do Ensino Básico? Às mais altas instâncias do Estado (a ver se dão boas instruções às mais baixas)? Às autoridades académicas (faz sentido, acreditem)? Aos peixes? Não sei. Já como começar a carta, superada a dificuldade de completar o título, é problema muito mais fácil de resolver.
Pode ser assim: «É justamente para preservar o que é novo e revolucionário em cada criança que a educação deve ser conservadora.»
Ou então assim: «Uma vez que o mundo é velho, sempre mais velho do que nós, aprender implica, inevitavelmente, voltar-se para o passado, sem ter em conta quanto da nossa vida será consagrado ao presente.»
Se a carta aberta fosse mesmo dirigida às autoridades académicas (e faria sentido, acreditem), então o melhor seria começar assim: «Uma crise só se torna desastrosa quando lhe pretendemos responder com ideias feitas, quer dizer, com preconceitos.»
Nenhuma destas frases é minha, infelizmente. São todas de Hannah Arendt, que nasceu em 1906 e morreu em 1975. Foram publicadas em 1957, quando «a crise periódica da educação» nos EUA (onde Hannah vivia desde 1941) «se converteu num problema político de primeira grandeza de que os jornais falam quase diariamente» (soa-vos isto familiar? A mim também.).
Portanto, a ideia era fazer da tal carta aberta um apelo ao destinatário para que entendesse a absoluta urgência de meditar, em Portugal e meio século mais tarde, neste texto de H. Arendt. Aproveitava-se para saudar, com alegria, o facto de ele ter ficado acessível em Portugal meio século mais tarde, traduzido por Olga Pombo e incluído no volume (magnífico!) Entre o Passado e o Futuro: Oito Exercícios sobre o Pensamento Político (Lisboa, Relógio d’Água, 2006).
Não se esqueçam que a crise na educação tem hoje num ponto nevrálgico, embora toque em muitos outros aspectos, a questão da leitura. O que estou a sugerir é que no texto de Hannah Arendt está contido tudo o que andamos a discutir e discutiremos ainda por muito tempo. A começar, para dar uso à ironia da própria H. Arendt, pela «espinhosa questão de saber por que razão o Joãozinho não sabe ler». Mais: no contexto presente, qualquer dos eventuais destinatários que sequer sonhasse refutar esta minha leitura do texto ficava de imediato encurralado entre duas consequências: mostrar que lê tão mal como o Joãozinho ou deixar claríssimo que, no fundo, está interessado em que o Joãozinho aprenda tudo menos a ler. Venha o diabo…
Sem jeito para a eloquência dramática, desconfiado da utilidade efectiva das cartas abertas, cheio de saudades do Groucho, deixo este post, com título até ao parêntesis igual ao título do texto de Hannah Arendt (dentro de parêntesis é só uma parte para ter graça e, assim, chamar mais a atenção com um segmento de frase roubado ao texto de Hannah Arendt). Ah e fica aqui outra ligação, para demonstrar uma ideia muito minha, segundo a qual: o hipertexto remete para a vida!
Gustavo Rubim
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Gustavo Rubim é docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na Angelus Novus publicou o livro Arte de Sublinhar e colaborou em vários outros volumes, como Século de Ouro, a revista Inimigo Rumor e a colecção de poesia Inimigo Rumor, para a qual posfaciou a reedição de Variações em Sousa, de Fernando Assis Pacheco (volumes estes em co-edição com Livros Cotovia). Acaba de editar A Canção da Obra (Textiverso), uma reunião de alguns dos mais notáveis ensaios literários publicados em Portugal nos últimos anos.
A sua área de trabalho principal tem sido a poesia portuguesa moderna, com especial atenção a Camilo Pessanha, de que é um dos grandes especialistas contemporâneos (é de consulta obrigatória sobre o poeta o seu livro Experiência da Alucinação), mas com passagem fatal por Pessoa e alguns contemporâneos maiores. O texto com que inicia a sua colaboração no nosso blogue é uma reflexão sobre o ensino e a sua crise actual, outra das suas preocupações recorrentes.
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Um tio de um de nós, quando, em tempos já idos, na TV começava a passar o genérico de uma série ou filme americanos, dizia, a propósito do «Guest Star»: «Este é o meu actor favorito!» Fiéis a essa intuição familiar e fílmica, decidimos dar o nome de «Guest Star» a uma nova secção do blogue da Angelus Novus. Trata-se, muito simplesmente de dar a palavra aos autores, sobre o tema que bem lhes aprouver. Estamos certos de que será uma das secções mais estimulantes deste blogue, dada a qualidade e singularidade dos nossos autores, bem patente nos livros que deles publicámos. Cumprimos assim aquilo que é, em nosso entender, um dos desígnios da Angelus Novus e de qualquer editora que se preze: funcionar como uma plataforma de comunicação desejavelmente alargada entre quem escreve e quem lê, sem determinação fixa de papéis.
Sente-se, pois, escolha a sua melhor posição e prepare-se para os/as nossos/as Guest Stars. Enjoy!

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O último nº do JL, de 18 de Julho, dedica uma nota generosa ao livro de Viviane Ramond, A Revista Vértice e o Neo-Realismo Português. Citamos um excerto:
Saiu em Maio de 1942, em Lisboa, o nº 1 da Vértice, «revista de cultura e arte», que terá grande importância como espécie de órgão do neo-realismo, nas suas páginas aparecendo os seus principais nomes e por elas passando algumas das polémicas fundamentais relacionadas com esse «movimento», a que estiveram ligados alguns dos mais importantes escritores e artistas da época. A revista conseguiu sempre «resistir» (e ainda hoje assim se chama) e Viviane Ramond, profª da Universidade de Toulouse, dedicou este estudo ao que foi e representou fundamentalmente no seu início, mas também ao longo de toda a década de 40. Estudo com uma «atenção minuciosa e, até hoje, única e inédita», como sublinha no prefácio Eduardo Lourenço, que aliás é, com Arquimedes Silva Santos, o único sobrevivente de um grupo (no qual ele seria sempre o «heterodoxo»…) a que pertenciam, em Coimbra, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, e outros, juntando-se-lhe, de Lisboa, Mário Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Lopes Graça, e também muitos outros.
Palavras justas e merecidas. Com uma ressalva, se nos é permitido: é que a revista não teve o nº 1 editado em Lisboa, mas em… Coimbra, sendo aliás o órgão representativo do pólo coimbrão do neo-realismo. Como se pode ler na p. 38 do livro de Viviane Ramond, aquando da edição do nº 2, a cargo de Raúl Gomes, «A redacção e a administração têm [...] um endereço preciso que figura neste número: Livraria Portugália - Largo da Sé Velha - Coimbra».
A Vértice está hoje, é verdade, por Lisboa, mas negar-lhe a paternidade coimbrã é algo assim como situar o Portugal dos Pequenitos… em Alfama - ou o Bairro Alto ao pé da… Sé Velha. É só isto, ó pessoal do JL.

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Ei-los! Os Fabulous Four tentando não bater com a tola no tecto. Enquanto arranham umas coisas do Elvis e dos clássicos do R’n'B dos anos 50. O clube de fãs é menor que o de Fernando ‘El Niño’ Torres mas é manifestamente aguerrido, como se pode ver.
E agora, a pergunta que interessa: e que têm os rapazes de Liverpool a ver com a Angelus Novus? Aguente-se aí, que já lhe explicamos.

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O filme chama-se «Le voyage dans les nuages» [«Viagem até às Nuvens»], não consta da filmografia oficial de Georges Méliès e foi descoberto há meses num depósito de Freixo de Espada à Cinta. É inequivocamente de Méliès, pois lá está a sua «assinatura», e apresenta a surpresa de dar a entender que o grande pioneiro francês conheceu… Fernando Pessoa. Associamo-nos à Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema na exibição pública desta cópia vintage.
«This is indeed the missing link to «Voyage to the Moon» (1902) and a bold and strikingly original exploration!»
Miriam Hansen
«We can only congratulate the Portuguese for this fascinating discovery! Not only for the movie but also for having recovered the music score, which is perfect.»
Rick Altman
«A mim, lembra-me o «Tonight, tonight» dos Smashing Pumpkins, mas em versão brechtiana e com música de Kurt Weill».
Pedro Mexia, Subdirector da Cinemateca Portuguesa

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“Se quereis evitar a revolução, fazei-a”: eis como termina a entrevista que Manuel Resende nos concedeu à data da edição de O Mundo Clamoroso, ainda. Mas se a entrevista acaba, os versos de Resende continuam, mesmo se no regime da toupeira: mais à frente, não se sabe bem onde nem quando, alguém pegará neste e nos outros livros do autor e sentirá aquilo que só a grande poesia pode fazer sentir. Resende preferiria chamar a esse encontro tão improvável, mas tão decisivo, «revolução» - ou talvez, quem sabe, estivesse na disposição de o trocar por ela. Seja feita a sua vontade.
AN. O seu livro inclui em desdobrável o poema «Arde Cura» que vem com a indicação «hiper poema». Podia explicar do que se trata? E como é que este «Arde Cura» se relaciona com O Mundo Clamoroso, ainda?
MR. Este “Arde Cura” é originalmente um poema em hipertexto (linguagem html) que fui construindo quando andava ocupado a fazer um sítio web sobre poesia (hoje defunto, por cansaço). É uma colagem de notícias de rádio, de emails, de reflexões pessoais, de versos soltos que se me propunham à circulação e que cerzi através de links em html. Tratava-se de uma tentativa de utilizar a linguagem html como instrumento de criação. Depois, fui compreendendo que a internet não trouxe nada de conceptualmente novo, apenas a aceleração electrónica da intertextualidade que é, também, toda a relação social. E pensei que, com os meios da tipografia, poderia fazer um hipertexto ainda mais hipertexto: enquanto o hipertexto html impõe o caminho ao leitor, através dos links (e aí está um pouco da fraude intelectual da internet quando se apresenta como libertária), a pura e simples justaposição dos diferentes elementos numa só folha de papel permite ao olhar reconstruir todas as combinações possíveis de todos os fragmentos (fugindo à mera leitura linear em que habitualmente se enquadra um poema, embora, claro, em qualquer poema os links virtuais estejam sempre lá), com a vantagem de se poder rasgar a coisa e deitar os pedaços fora.
Bem, e voltando atrás, àquele “apenas a aceleração electrónica da intertextualidade”, este exercício permite, creio, reflectir sobre outro aspecto. A referida aceleração trouxe de facto uma mudança qualitativa. Fornece, a quem a utiliza, uma quantidade de informações que não consegue controlar, porque a velocidade do nosso cérebro não é elástica: somos assaltados por uma vertigem de presentes desconexos. A redução do hipertexto a tipografia substitui a sucessão de imagens pela presença de textos que podem ser reconsultados, apela a um vagar que não existe no ecrã do computador. Acho que dá que meditar.
Relaciona-se com o resto do livro como todos os outros fragmentos: justapõe-se. Não há um plano, a não ser o que foi surgindo por si. Mas veja-se também a resposta à pergunta que se segue.
AN. Comente os seguintes versos de «Arde Cura», sff: «raios partam a vida e quem lá mande / a tal toupeira cega remexe a terra sem parar, / e nós indo por esses campos tão lavrados / como havemos de reconhecer os caminhos? /mas havemos de queimar a merda dos vossos bancos! / o vandalismo é arte e o melhor poema há-de ser / escrito em carros da polícia e prédios da cidade / se em carros da polícia e prédios da cidade / houver espaço para os nossos slogans».
MR. Nada mais claro. Fernando Pessoa em Seattle, com um livro de Marx no bolso. “We’ll burn your fucking banks”, slogan surgido em Seattle. “A arte é vandalismo”, slogan de Chuck0, anarquista americano. Se esses versos têm (terão?) algum interesse, será o de dizerem e negarem ao mesmo tempo (confio em que o leitor consiga encontrar pelo menos duas contradições neles), pois o sentido está, não simplesmente no que é dito, mas sobretudo no dizer.
Assim como o hiperpoema é, também, um comentário sobre o hipertexto (a Internet), visto que foi arrancado do seu habitat inicial, também o conjunto destes versos é um comentário sobre cada um deles. O livro todo mais não é do que esse jogo, que diz o que não diz e, se virem bem, diz que o faz e o que faz.
Ao mesmo tempo, pondo em confronto a necessidade da revolução com o seu carácter problemático, creio que me situo no momento físico mais instante da época. O melhor conselho que posso dar aos surfistas é este: “se quereis evitar a revolução, fazei-a”.

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A discussão foi lançada no blogue da Livros de Areia, editora pioneira entre nós no domínio dos booktrailers (há, inevitavelmente, uma discussão em torno de datas e de quem é que foi mesmo o primeiro, mas a discussão suspende-se se admitirmos que a Livros de Areia foi seguramente das primeiras a recorrer ao meio e a conferir-lhe uma visibilidade que até aí ele não possuía). Num post intitulado (Mais de) dois anos de trailers, os editores falam-nos essencialmente das dificuldades em exibir os trailers em livrarias, quer em situação corrente, em loop, quer em ocasiões especiais, como lançamentos.
Em posts seguintes, o assunto foi retomado, primeiro com a notícia de que a D. Quixote começou a instalar pequenos monitores em livrarias para exibição dos seus trailers, e depois incitando os pequenos e médios editores a unirem-se e fazerem o mesmo, de modo a combaterem esta ocupação absoluta do espaço pelos grandes grupos da edição.
Trata-se de uma discussão decisiva, e só podemos agradecer aos Livros de Areia por a terem lançado. No nosso caso, podemos referir que os problemas que a Livros de Areia encontrou para exibir os seus trailers desde que começou a produzi-los são exactamente os mesmos com que a Angelus Novus se tem deparado. A situação é aliás algo paradoxal e exprime todos os problemas que atravessam o mercado do livro neste momento. Por um lado, parece manifesto que o retalho se modernizou mais depressa do que a edição. Em grande medida por actuação das grandes redes - o mesmo é dizer, à custa de margens leoninas, que os editores se vêem forçados a aceitar, sobretudo quando não têm peso para ripostar -, a verdade é que as livrarias deram um salto enorme em Portugal nos últimos anos, no sentido da informatização (indispensável, para acompanhar um fluxo editorial talvez excessivo para o nosso número de leitores), do investimento no tratamento arquitectónico do espaço (por vezes com um excessso de design, diga-se) e da sua multiplicação de valências: cafés dentro de livrarias, locais para leitoras e leitores folhearem livros confortavelmente instaladas/os, etc. Um percurso pelos sites das editoras portuguesas, porém, é bastante para percebermos que as mesmas não se modernizaram ao mesmo ritmo, decerto por não possuirem capital para tal.
O problema, porém, reside no facto de os booktrailers, para já não falar de sites e blogues, representarem um investimento relativamento moderado, e seguramente o investimento em marketing mais suportável para uma pequena ou média editora, o que torna ainda menos compreensível o descaso com que editores de certa dimensão tratam o multimédia e o digital, em sentido lato. Se assim é, porém, tudo se complica e volta à forma inicial quando, como lembra com toda a pertinência a Livros de Areia, está em causa a exibição dos trailers em livraria. Como este epísódio recente com os monitores da D. Quixote vem lembrar, é de novo a lógica do mais forte a imperar: as pequenas livrarias não vêem no suporte algo em que valha a pena investir, ou se vêem entendem que não lhes cabe a elas fazer tal investimento; e as grandes redes em breve perceberão que têm aí mais uma fonte de proventos, na secção «custos de exibição», que como se sabe é uma das áreas em que o rolo compressor dos grandes grupos mais funciona.
Será de prever que no futuro as livrarias incluirão Video Walls em que cada editora terá um nonitor a projectar os seus trailers? É claro que as pequenas livrarias não poderão fazê-lo, por falta de espaço - admitindo que as editoras poderiam susportar os custos de instalação e manutenção. Mais uma vez, a ironia disto é que, à primeira vista, só as grandes redes terão espaço para essas Video Walls. Como é evidente, porém, a solução da Video Wall não é racional, pelo espaço que pode vir a ocupar. Racional seria um monitor, ou mais do que um, mas sem chegar ao excesso da Video Wall, em que passassem em loop todos os booktrailers de todas as editoras, em regime de ocupação do tempo a negociar previamente, como é natural. Só que, e voltamos ao terceiro tópico dos posts da Livros de Areia, para isso é fundamental que pequenos e médios editores se agrupem, pois caso contrário não terão poder negocial para se oporem ao rumo que os grandes grupos tentarão impor, e para o que contarão com a anuência dos grandes grupos de distribuição e, bem entendido, dos pequenos livreiros.
Não se trata de lamentar ou de culpar terceiros (grandes ou pequenos livreiros, grandes e muito grandes editores). Trata-se sim de perceber, com o episódio dos booktrailers mas muito para lá do seu âmbito restrito, que os pequenos e médios editores estão neste momento, em Portugal, numa encruzilhada de que só poderão sair por um movimento associativo inédito e inovador. Sem isso, e um pouco como acontece em todo o mundo no sector do livro e em todos os outros, serão varridos do mapa, com grande prejuízo, diga-se, para todos aqueles livros que, num cenário tão indesejável, deixariam de existir, e, por isso, com grande prejuízo para todos os leitores que desejam mais do que aquilo que os grandes grupos querem e precisam de editar. A questão está pois em saber que trailer queremos para o nosso futuro. Na Angelus Novus, entendemos que não estamos condenados ao melodrama - assim como não estamos condenados a nada a priori. Assim haja inteligência estratégica, vontade e recusa de todos os paroquialismos.

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Uma grande pena, mesmo! Porque O Mundo num Segundo, da Planeta Tangerina, com texto de Isabel Minhós Martins e ilustração de Bernardo Carvalho, é um dos livros do ano. Uma ideia excelente, e que nem precisa de ser literariamente original para funcionar muito bem, textos muito adequados à função e, na ilustração, a demonstração de que Bernardo Carvalho é já um dos grandes nomes da ilustração portuguesa. Quanto à factura do livro, como aliás nos outros da Planeta Tangerina, só a podemos considerar irrepreensível. Muitos parabéns aos autores e à editora!
P.S. Abrimos aqui uma secção na qual, periodicamente, nos referiremos àqueles livros editados em Portugal que, de tão bons, é uma pena que não integrem o nosso catálogo… Na Angelus Novus, temos muito gosto em reconhecer os méritos dos nossos pares (razão pela qual temos este link nas nossas Ligações) e em seguir os seus bons exemplos.

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O que é a poesia portuguesa? E o que é poesia? O poeta é um tradutor? O tradutor é um poeta? Continuamos a ouvir Manuel Resende, a propósito do seu último livro em data, O Mundo Clamoroso, ainda.
AN. A sua poesia, que oscila entre a dicção larga, pós-vanguardista, que vai do verso livre ao poema em prosa (muitas vezes de alcance político), e uma tonalidade auto-jocosa que nos remete para certo legado dos finais do nosso século XVIII, é dificilmente situável no panorama actual da poesia portuguesa. Como vê esse panorama e como se vê nele?
MR. Não o vejo e não me vejo nele e ele não me vê.
Mas, antes de prosseguir, o que é a poesia portuguesa? É da mais elementar salubridade resistir a essa utilização da História que consiste em encontrar uma espécie de lei natural eterna no que foi uma construção histórica: o erguer de uma fronteira geográfica e a criação de uma língua nacional. Poesia portuguesa, sem surrealismo, sem realismo socialista, sem estruturalismo, sem romantismo, etc.? Pronto.
Direi, além disso, que, ao nascer, mal saído das fraldas pessoanas, caí no caldeirão do surrealismo. Depois disso, ainda não encontrei mapa melhor do que o que este movimento nos propôs e que continua a ser para mim o essencial: o divino não está nos céus, mas em nós, e só temos como armas a poesia, o amor e a liberdade, contra todas as esperanças.
Certo, o surrealismo, que nasceu da primeira guerra e contra ela, tinha que ser derrotado pela segunda guerra, pelo regresso da barbárie (creio que este factor tem sido menosprezado). Mas é razão para darmos razão à barbárie e esquecermos as contas que ele pediu à vida?
Sou, como se vê, ultrapassado. Sem excluir que posso estar enganado, e sem querer atribuir juízos de valor aos poetas meus contemporâneos (nem a mim, aliás, que sou, acho, bastante contemporâneo), afigura-se-me que o que está a dar (não me ocorre outra expressão que diga o que quero dizer) é a complacência com o lugar comum, um desejo secreto de valores seguros (um croissant, os vários deuses avulsos, a mentalidade simples da menina da caixa) talvez matizada com críticas epidérmicas ao lixo que não devia estar nas “nossas” ruas.
Não é coisa que me preocupe por aí além. Afinal o que é um panorama? É o que se oferece aos olhos, o que dá mais nas vistas. E quantos poetas não tem havido, mesmo recentemente, às margens desse espectáculo (Luís Miguel Nava, Manuel António Pina, Nuno Moura, para citar só três)? E que é que isso interessa?
AN. É também um tradutor de méritos reconhecidos, com uma especial inclinação pela poesia grega. Em que medida o poeta é, em Manuel Resende, um compagnon de route do tradutor? É-lhe aceitável um quiasmo do tipo «O poeta é um tradutor, o tradutor é um poeta?»
MR. No meu caso, e no de muitos poetas e tradutores, sim. O poeta e tradutor francês Henri Meschonnic, inclusive, baseia (pudera!) a sua teoria da tradução numa poética; estou muito próximo das suas concepções, embora ache que põe demasiada confiança numa noção de ritmo algo vaga, aliás.
Primeirissimamente, a tradução é uma forma de ler e conhecer a poesia dos outros, a que não se escreve na nossa língua (e, como Mallarmé sublinhava, as línguas são imperfeitas por diversas, pelo que conhecer a diversidade é a melhor forma de saltar da língua para a linguagem). O novo só se faz sobre o velho e, por isso, melhor ainda se o velho for novo para nós, nos extrair da nossa tradição pequena (inclusive a que está mais na moda) e nos levar a tomar ar.
Segundamente, como negar que a poesia é a forma mais intensa de trabalhar com a linguagem? A tradução permitiu-me, creio (espero que não seja demasiado presunçoso), encontrar os mecanismos da linguagem que trabalham a língua. Descobri que a textura é que faz o texto, de que forma o discurso constrói o mundo para os outros, quanto somos palavra (é isso que nos distingue dos outros animais). Trata-se de verdades elementares, mas habitualmente ninguém repara nisso.

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Laura Ferreira dos Santos publicou ontem no Público o texto «Mulheres, lixo e cancro da mama: os fins e os meios», no qual comenta uma muito discutível campanha em que se associa a reciclagem do lixo à prevenção da doença. Enquanto não chega o próximo livro da autora, a editar muito em breve, pode lê-la aqui (e ver o spot da tal campanha).

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Há coisas tão evidentes, não há? E que, como sempre, só se tornam de facto evidentes depois de existirem. Onde podem os editores e livreiros portugueses informar-se de tudo o que, todos os dias, lhes diz directa ou indirectamente respeito, cá ou lá fora? Nos sites da APEL ou da UEP? No organismo governamental que, na cabeça de alguns, devia existir para este efeito? Na cabeça das pessoas, como sabemos, há sempre listas de organismos estatais que deveriam existir para…
Não senhor. O que permite, hoje em dia, não apenas essa difusão noticiosa mas, mais importante do que isso, a criação de uma verdadeira «comunidade de profissionais do livro», todos os dias, hora a hora, é o Blogtailors. Percebe-se que está ainda no início, percebe-se que está ainda a fazer o seu caminho, mas bastam os links para as intervenções de editores em blogues das suas editoras, ou para as intervenções de livreiros nos seus blogues, para constatarmos que há um mundo que se move e transforma na edição e distribuição em Portugal (desde logo, há gente, em cada vez maior número, que percebe que um site ou um blogue de editora e livraria não é um adorno mas uma ferramenta vital para a intervenção no mercado e no espaço público). Se a isso juntarmos as notícias que ali são repescadas dos média portugueses e estrangeiros e ainda textos que pessoas do meio, de moto próprio, enviam para o blogue, é fácil e inevitável constatar que aquilo que os «activistas» da Booktailors fazem no seu blogue é verdadeiro serviço público. Como ainda agora se viu com a criação dos prémios de edição, em colaboração com a Ler.
Por nós, saudamos o Blogtailors e dizemos-lhe: seja muito bem-vindo! E longa vida!

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É pena que a sua voz não se oiça mais vezes, porque Manuel Resende é uma pessoa com coisas a dizer. Começamos hoje a dar-lhe a palavra, a propósito ainda da edição do seu livro O Mundo Clamoroso, ainda, no ano de 2004. Pensámos ir ouvir de novo o poeta, mas fomos reler a entrevista que nos concedeu à data da edição do livro, e concluímos que é tão notável que não se justifica acrescentar coisas novas. Claro que, para «entrevista breve», como à data se intitulavam na Angelus Novus estas entrevistas que acompanhavam os nossos press releases, a peça tende ao longo… Mas o privilégio de ouvir uma voz como a de Resende, que é a de alguém que faz pensar, num tempo de excessivo pensamento único, justifica a extensão do que propomos aos nossos leitores.
AN O Mundo Clamoroso, ainda é apenas o seu terceiro livro. A que se deve um ritmo de edição tão entrecortado e dilatado no tempo? Falta de inspiração? Horacianismo compositivo? Desamor à letra impressa? Descaso pela república das letras?
MR. Nunca procurei activamente publicar, pelo que tem sido pela simpatia de amigos e leitores atentos (abençoados sejam) que os meus versos chegaram à tipografia. Descaso pela república das letras? Talvez, mas a seguir se verá. Não há qualquer desamor pela letra impressa, pelo contrário, nem horacianismo compositivo consciente (acredite-se ou não, os meus poemas saem em geral praticamente tal qual dos dedos ou da cabeça para o papel; embora, embora não haja nenhum improvisador de jazz que não tenha uma longa prática no corpo).
É certo que a produção não é propriamente gigantesca. Falta de inspiração? Digamos antes que me paralisa o sentimento da precariedade da poesia na nossa sociedade e no nosso tempo, o que implica muitas hesitações e revisitas dos outros poetas, nomeadamente pela via da tradução.
Precariedade da poesia. Se hoje se falar de crise de poesia é muito provável que se apontem como causas fenómenos marginais, absolutamente secundários, ou melhor, derivados: os jovens não lêem, os editores não publicam.
Na relativa calma em que vivemos, estão já esquecidas, ou recalcadas, as dolorosas antinomias que marcaram o nascimento da poesia novecentista e que, ao invés do que se possa pensar, continuam a trabalhar subterraneamente. A manifestação mais imediata dessas antinomias é a convivência da busca de formas de expressão para os novos tempos (o verso livre, por exemplo, como libertação em relação às formas fixas centenárias que correspondiam a sociedades altamente ritualizadas) com a recusa apaixonada desses mesmos novos tempos.
Essa antinomia conjuga-se com outra: a oposição racionalismo/irracionalismo, que corresponde a uma cisão muito característica da idade contemporânea, quebrada que foi a linha directa que ligava o mundo “inferior” (a natureza) ao “superior” (deus) através do homem. Tivemos de tudo neste departamento: a razão razoável (princípio da incerteza, teoria da relatividade) e a razão louca (teorias “científicas” das raças, eugenismo), o irracionalismo saudavelmente louco (Antonin Artaud, por exemplo, salvo o sofrimento do próprio) e o irracionalismo raciocinante (Heiddegger), o que indica que não são os dois pólos que interessam, mas sim a sua interrelação. A primeira manifestação mais trágica desta trágica antinomia foi a primeira guerra mundial, pois a sua barbárie, a sua brutalidade, teve origem nas mais avançadas civilizações, depositárias das grandes conquistas do pensamento e da técnica e das mais requintadas tradições literárias (“infelicidade na civilização”). E, pior do que tudo, essa primeira guerra veio cronologicamente logo pegada a outra época que ousou chamar-se “belle époque”, época inebriada pela fada electricidade, época a que só pareciam opor-se os terroristas anarquistas e as classes perigosas depressa metralhadas pelas forças da ordem.
Vejo subtis paralelos entre esses tempos quase pré-históricos, se medidos pela bitola actual, e os nossos. E encontro a razão disso numa antinomia de base: pregoeira infatigável do indivíduo, a nossa sociedade tudo faz para o fagocitar e castrar nesse colectivo privado que é a empresa, a ponto de apontar, como nec plus ultra do sujeito actuante, o empresário (exactamente aquele que não pode sobreviver sem a sujeição voluntária de todos, e dele próprio, por consequência, pelo que soçobra na burocracia da sociedade anónima, nem mais). Arauta do universal como soma de todos os singulares, entrincheira, por outro lado, cada pessoa no seu círculo estreito de relações, num circo de comunidades (comunidade científica, comunidade techno, comunidade homossexual, comunidade internacional, que são alguns Estados privilegiados, comunidade porra).
Embora não pareça, a poesia de hoje está precisamente no centro do furacão, e isto por uma razão muito simples: as condições de produção dos tempos modernos (bem, não fujamos às palavras: capitalistas) exigem a organização industrial privada, a qual é mais consentânea com formas de arte como o cinema, o vídeo, o disco, do que com esse artesanato que é a poesia, isto é, é mais consentânea com o copyright (propriedade intelectual das empresas) do que com o direito de autor (propriedade intelectual do Luiz Francisco Rebello). Os grandes poetas tardo oitocentistas não se enganavam ao ver no jornal e nos jornalistas os seus inimigos e ao contrapor-lhes o livro (ora aí está uma boa interpretação para Mallarmé, escusam de agradecer).
E contudo, ela move-se. Digo isto porque: apesar de toda a enorme concentração de abstracções materiais que se propõem ao nosso consumo, perdão, ao consumo de quem pode, todas as máquinas calculadas pela mecânica racional, todos os computadores calculados pela electrónica e pela lógica, todos os lasers, todos os robots, tudo o que quiserem, todas as multinacionais, apesar disso tudo, o ser humano não pode sobreviver mais do que o permite a rotação anual do sol. O seu ciclo de vida inscreve-se necessariamente no ciclo, digamos, natural, precisa, para viver, de que a mais ínfima das plantas tenha tempo de crescer e de morrer e de dar o seu podre às outras que vierem.
Está bem, está bem. E que tem isto a ver com a poesia? Tudo. Afirmação por excelência do indivíduo, isto é, do contacto mais nu e simples possível de cada um com o mundo (sim, através da palavra, artefacto por essência social, mas isso não esqueci, descansem, e trata-se, aliás, de um postulado de base), ela obriga-nos (se quisermos ser coerentes e quisermos sobreviver, simplesmente) a questionar esta corrida desenfreada de todos contra todos.
Tudo isto é telegráfico, reconheço-o, mas trata-se de uma “entrevista breve”. Como o que nós escrevemos é sempre apenas uma ponta do iceberg, permita-se que passe já para uma vinheta tirada da actualidade: o direito, que reivindica para si a glória de ter ultrapassado a lei da força pela força da lei, cada vez mais se impõe pela lei da força. Não se trata apenas das guerras americanas contra o chamado terrorismo (“might is right”, ora nem mais), trata-se também de querer à viva força, é o caso de o dizer, substituir a luta política pela luta judicial. Os advogados em vez dos profetas, ou dos oradores da ágora? Os estipendiados (esperemos que paguem o IRS), em vez dos simples militantes amadores? Razão tinha o Shakespeare: “morte aos advogados”. “Já”, acrescento eu, salvaguardando, claro, as pessoas singulares.
A isto tudo, oponho (em nome de quê ou quem? de mim, perdoem-me a insolência) a luta por revigorar a palavra, que para mim é igual à luta pela palavra de quem a não tem, é igual a procurar uma nova aliança com a natureza, é igual a andar mais devagar, a uma revolução que reivindique também o lugar do indivíduo, se fazem favor (e poderia citar Marx, mas o Pacheco Pereira não deixa e a um maoísta não se pode resistir). Poderia acrescentar imensos pontos a este caderno reivindicativo, mas prefiro deixar isso aos outros meus semelhantes, e sublinho “meus”.

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Saiu nesta sexta-feira no Público (Ipsilon): resenha de Caravana, por Pedro Mexia, com o título «A veia poética». 3 estrelas (não concordamos…) e um texto que é mais um momento relevante da recepção crítica da obra de estreia de Rui Manuel Amaral. Porque é um texto ao nível dos melhores textos críticos de Pedro Mexia e porque deixa bem claro que Rui Manuel Amaral é uma das grandes revelações da ficção portuguesa actual. Com a devida vénia, transcrevemos a resenha:
Uma das histórias de Caravana apresenta um viciado com um vício especial: os jogos que o atraem são jogos de palavras. A ideia desta colectânea de prosas curtas (ilustrada e graficamente irrepreensível) está toda nesses dois desvios: o desvio do sentido e o desvio das palavras. Embora se apresentem como «microcontos» (textos mais sucintos que as suas eventuais sinopses), os jogos verbais de Rui Manuel Amaral (n. 1973) são mais críticos e poéticos do que narrativos. O conto e o romance aparecem como ecos de leituras, aliás de gosto impecável (Gogol, Dostoievski, Walser), mas nunca se avança numa estética da imitação.
O fragmento inicial define logo a literatura como «uma macieira que dá laranjas». E nas páginas seguintes prevalece uma inventividade desligada das regras convencionais da ficção. Muitas vezes os minicontos sugerem um estilo tradicional: «Ptolomeu Hefestião resistia imutavelmente a todos os ataques dos homens e à fúria mais terrível dos elementos. Mas era incapaz de resistir ao suave toque de um asfódelo». Assim começa o texto da página 29. Mas logo depois vem o boicote: «Uma bela moral se poderia tirar facilmente daqui, mas não tenho tempo para isso». É um truque gratuito? Tão gratuito quanto um conto «bem feito» e com uma «bela moral». Há alguns paradigmas clássicos, personagens a quem acontecem «coisas terríveis», histórias fantásticas, fábulas negras. Um miniconto diz: «encontrava-se o nosso bom homem, dizíamos, nestas benignas circunstâncias, quando», mas já sabemos que não haverá sequência ou causalidade, apenas mais uma paródia narativa.
Caravana noticia uma crise. A crise da ficção como linguagem conhecida e gasta. Os minicontos não têm nada a ver com o chamado «minimalismo»: são a suspeita de que não é possível escrever contos como dantes. Não falta aqui inspiração no grotesco de Kafka e nos desenlaces inesperados de O. Henry, mas são alusões e homenagens, não modelos. Em vez de modelos, Amaral escolhe estratagemas cómicos: 1) a interpretação literal de uma expressão (como «veia poética») e suas consequências; 2) a revolta das coisas (casas, comboios) contra os sujeitos; 3) a mudança de velocidade narrativa, incluindo notas ao texto; 4) a excentricidade dos vocábulos (nomes como Gaspar Ponocrates ou Mâchefoins Matagotz); 5) o absurdo típico de um Mário-Henrique Leiria («numa bela vila piscatória do Norte de Portugal chamada Vladivostok»).
A crise é assim provisoriamente ultrapassada pelo jogo, que luta com a linguagem no seu próprio terreno. Rui Manuel Amaral fez disso uma função crítica (e lúdica), mas às vezes espreita uma tentação poética: «O dia entra na noite. A noite entra no dia. E os relógios observam isto, excitados e silenciosos, como os velhos mirones atrás das dunas» (pág. 33). É dessa poesia e desse jogo que se faz a crítica mais urgente.

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…não apenas no juízo crítico, mas também em livraria. No caso, na Centésima Página, de Braga, livraria com a qual a Angelus Novus mantém uma parceria especial, materializada em vários tipos de eventos. Registe-se, pois: de 19 a 25 de Maio, Caravana ocupou o 4º lugar no top dessa livraria de referência da capital do Minho.

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Saiu hoje, no NS, suplemento de sábado comum ao JN e ao DN: recensão de Caravana, por Sérgio Almeida, que atribui ao volume de estreia de Rui Manuel Amaral 4 estrelas. Não podemos concordar mais (ou melhor: concordaríamos mais com 5 estrelas…). Com a devida vénia, transcrevemos o texto, mais um numa recepção que se vai tornando significativa:
Paternalismos serôdios à parte, é sempre com um grau nada negligenciável de satisfação interior que um leitor descobre um novo autor. Porque essa «espécie protegida» a que Luís Mourão se refere na contracapa é, qual lince da Malcata, cada vez mais um estatuto em aceleradas vias de extinção, uma evidência à qual não será alheio o facto de boa parte dos candidatos a escritores escreverem cada vez mais de acordo com os cânones, sejam eles os comerciais ou os «literariamente correctos». É certo que o percurso anterior de Rui Manuel Amaral, coordenador literário há vários anos da revista Águas Furtadas, torna esse rótulo algo desajustado, mas, para todos os efeitos, Caravana é a sua estreia na publicação. Uma estreia de fôlego, sublinhe-se. Os microcontos aqui reunidos não apresentam apenas uma imaginação prodigiosa que nos enleia e seduz. É no teor assumidamente absurdo que ostentam (como «a macieira que dá laranjas»…) que encontramos a sua lógica interior. Desafiadora, como se impõe.

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Como já informámos, a Angelus Novus está na Feira do Livro de Lisboa. Para aqueles que não sabem exactamente como chegar lá, eis um guia em forma de filme:
«Um brilhante plano fixo. Mostra (se ainda fosse preciso - mas é sempre preciso insistir no básico) que a questão central no cinema não é a montagem mas o enquadramento».
Manoel de Oliveira [****]
«An outstanding coreography, and only with his hands! Kind of reminded me of some of those Kung Fu classics from Hong Kong».
Quentin Tarantino [*****]
«Ça vient nettement de La chinoise. Cinéma didactique pour les masses intello-ouvrières!»
Jean-Luc Godard [*****]

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Para terminar esta breve apresentação de O Mundo Clamoroso, ainda, um poema absolutamente singular na nossa poesia actual e muito representativo da recuperação, a que Resende procede, de uma linguagem e um imaginário literário que se diriam setecentistas, entre Bocage, Tolentino e outros vernaculares menores, mas com passagem por (e para) O’Neill. Um poema que se devia afixar às portas dos consultórios de dentistas (ou dos confessionários?).
Se este não é o poema de um poeta maior, então o que é?
DENTES PORTUGUESES
Adeus, adeus, meus dentes! Só mais outro dia,
E vai-se acabar todo o conflito entre nós,
Divórcio que a dentista estrangeira oficia
Num desconsentimento total e feroz.Essa fidelidade tão à portuguesa,
Feita de tanto golpe baixo, tantas fintas,
Com que me temperastes o prazer da mesa,
Fruto de fero amor, tão vero e troca-tintas,Ficai com ela, que eu dispenso despedidas.
A culpa é toda minha, devo confessar
Que não tinha dinheiro e descurei medidasEvidentes no plano mais elementar.
O remorso católico arde-me feridas
No sítio que Calvino gosta de brocar.

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Mas Manuel Resende é também um admirável poeta do amor – lembremos o poema «Eu por Ti», que começa assim: «Eu por ti beberia petróleo, fogo e vidro moído, / Se fosse digno do petróleo, do fogo e do vidro.» -, o que contraria as generalizações apressadas que a pulsão política dos seus versos poderia arrastar. Propomos, a título esclarecedor, um poema que é um flagrante fotográfico (um flash) de uma mulher em tempos sombrios. Uma mulher que espera o carteiro como quem espera pela única coisa que vale a pena:
DIÁRIO DE HANNAH ARENDT
A filósofa Hannah Arendt
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: “Sabes dizer-me
O horário dos correios?”E a amiga:
“Tu estás apaixonada…”

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